Uma reportagem há 50 anos

Publicação: 2020-08-13 00:00:00
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Alex Medeiros
alexmedeiros1959@gmail.com 

O mundo literário está comemorando meio século do lançamento de um dos livros mais instigantes do romancista Gabriel Garcia Márquez. Em 1970, a editora colombiana Tusquets decidiu imprimir em 144 páginas um livro cujo texto original havia sido publicado 15 anos antes, em 1955, como uma reportagem em 14 capítulos assinada pelo jornalista Gabriel nas páginas do jornal El Espectador, onde também era responsável por um espaço de críticas.

Ele chegou no jornal em 1954, carregando a experiência de outros dois diários, El Universal e El Heraldo. Em fevereiro do ano seguinte, surgiu a notícia de que um navio contratorpedeiro da marinha colombiana havia naufragado durante uma tempestade no mar do Caribe. E o que se tornou o grande fato dentro da notícia foi a heroica desventura de um marinheiro que sobreviveu durante dez dias sem água e comida, infortúnio que gerou sua superexposição na mídia.

Só que após ser utilizado como astro de novela, estrelar em publicidade e vender audiência para rádios, o marujo procurou os diretores do jornal El Espectador, Guillermo Cano e Joseph Salgar. Queria contar umas verdades.

A Colômbia vivia debaixo da espada do ditador Gustavo Rojas Pinilla, motivo suficiente para os jornalistas temerem as denúncias do náufrago sobre corrupção na Marinha. Mas o repórter Gabriel Garcia Márquez ignorou isso.

Liberado para ouvir o testemunho de Luiz Alejandro Velasco, o futuro autor de romances imortais começou a narrar as agruras do marujo, avançando a cada fascículo do padrão notícia para o formato reportagem e depois texto literário.

O sucesso espetacular da narrativa foi decisivo para catapultar o nome de Gabriel, mas também para o governo do general lançar as garras da censura sobre o jornal, que revelou a inexistência da tempestade afundando o navio.

Pela escrita lítero-jornalística de Gabriel Garcia Márquez, o marinheiro narrou os esquemas de tráfico no porto de onde partiu o barco, as cargas ilegais levadas e trazidas pela Marinha. E com 14 capítulos, a ditadura fechou o diário.

O livro “Relato de um Náufrago”, lançado há cinquenta anos, se tornou um dos mais vendidos do escritor, que naquele 1970 já se consagrara com os clássicos “Ninguém Escreve ao Coronel” de 1961, e “Cem Anos de Solidão” de 1967.

Passei a gostar das obras de Gabo por interferência de uma namorada, apesar de ter lido anos antes de conhece-la a obra sobre a vida no povoado Macondo, criado pelo realismo mágico do autor, numa edição de 1977 da Editora Record.

Quando passamos a morar juntos, na minha primeira experiência como dono de casa, os trêss primeiros móveis providenciados foram uma boa cama, um fogão e uma estante, improvisada com tábuas equilibradas em tijolos de furos.

Na arrumação dos livros, as edições de “Cem Anos de Solidão”, “Crônica de uma Morte Anunciada”, também edição Record de 1981, e “Relato de um Náufrago”, de 1977. Eram os anos 80 e Gabo estava numa fértil produção.

E foi numa véspera do meu aniversário de 23 anos que a Academia Sueca anunciou o Prêmio Nobel de Literatura de 1982 para Gabriel Garcia Márquez, pelo conjunto da obra e “corajosa posição ao lado das vítimas da opressão”.

Nossa estante foi crescendo, outros livros dele sendo presenteados por mim, até que em 1985 ele lançou “O Amor nos Tempos do Cólera”, que no final do ano chegou lá em casa, quase que ao mesmo tempo da chegada de uma filha.

Créditos: Divulgação


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