Uma rua no coração do poeta Carito Cavalcanti

Publicação: 2017-06-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Cinthia Lopes
Editora

Se existe um lugar especial na vida do poeta, cantor e videomaker Carito, esse lugar é a rua Cônego Leão Fernandes, pequena via entre a Afonso Pena e a Rodrigues Alves, no bairro de Petrópolis. Foi lá, quando criança, que ele inventava brincadeiras na calçada com o irmão Mario Ivo, e amigos das redondezas. “Não éramos só amigos, éramos irmãos de rua. Todos livres e adentrando as casas uns dos outros sem cerimônia. A rua era uma grande família”, lembra com saudades o artista.

Se a infância correndo solto na rua foi boa, a adolescência no bairro foi determinante para sua vida. Foi nesse período de formação que ele bateu de frente com os clássicos do rock progressivo, como Yes, Pink Floyd, Jethro Tull, Genesis, Emerson, Lake and Palmer. A pancada fervilhou sua cabeça de ideias. Ao lado de amigos músicos, fizeram suas primeiras experiências musicais, no “Quarto Azul”, que resultariam na lendária banda de progressivo Fluidos, formada em 1982.

Carito Cavalcanti

“O cara quando está em formação e recebe esse tipo de informação lisérgica-conceitual pode mudar para sempre sua percepção, sua maneira de sentir o mundo. Ter crescido em um lugar assim, provocou em mim experiências sensoriais que carrego comigo até hoje e sempre vou querer que estejam comigo”, comenta.

Carito continua morando em Petrópolis, mas não na mesma rua. Apesar da área ter mudado bastante, o carinho pela Cônego Leão Fernandes permanece intacto. Um pouco de seu olhar saudoso sobre as vivências na região pode ser visto em alguns de seus inúmeros poemas, como “Saúdo Minhas Origens”, que estará no seu próximo livro, “Entendeu ou quer que eu desenhe”, previsto para ser lançado em julho, pela editora Jovens Escribas. “Um lugar mágico, um oásis no bairro de Petrópolis, e agora na minha memória”, afirma o artista inquieto sobre a rua onde cresceu.

Como era a vida na rua Cônego Leão?

Vivi na Cônego Leão até os 23 anos. Chegamos a ter duas casas na mesma rua. Petrópolis era um bairro tranquilo, bucólico, de muita liberdade, com muito espaço, ainda sentíamos aquele astral dos sítios. Ir caminhando até a Praia dos Artistas era um pulo. Havia também muitas mercearias, que chamávamos de vendas, como “Vou ali na venda de Seu Canuto". Eu e Mario Ivo brincávamos de carrinho e a brincadeira tinha história e casas que a gente inventava e continuava no dia seguinte. Quando chovia, a Rua Mossoró enchia e a gente ia pegar onda provocada pelo carros que passavam. A gente inventava muitas brincadeiras que iam além de biloca, 31 e Um Alerta, e polícia-ladrão. Essa é para sempre a minha rua.

Você ainda reencontra os moradores daquela época?

Ainda encontro com Junior (mais conhecido como Pereirinha) e Zeno, irmão do saudoso amigo cantor e poeta Délio Miranda, filhos de Seu Manel (que viveu mais de 100 anos e faleceu faz poucos tempo) e Dona Dulce. Meus avós maternos também moraram uma boa época nessa rua. O saudoso Luís Emílio era nosso vizinho do lado direito. A rua era uma grande família. Não éramos só amigos, éramos irmãos de rua. Todos livres e adentrando as casas uns dos outros sem cerimônia. Casas abertas, corações abertos.

Nessa época se podia explorar grande parte da cidade à pé. Como foi essa fase para você?
Meu avô, por exemplo, nem tinha carro, só andava a pé. Seu Manel foi duas vezes caminhando de Natal a Canindé. Eu e meus irmãos íamos sempre à “cidade" andando, geralmente para comprar discos ou para sonhar com eles. Na volta passávamos em Picado para tomar caldo de cana, no Sarrafo. Também íamos para a Casa da Maçã. O centro era uma vida pulsante, repleta de possibilidades.

Você costuma dizer que a vivência na rua foi importante para sua formação. Em que sentido?
No sentido humano, espiritual, artístico, sensorial, de sentir o vento entrando na rua, nas férias de julho, à sombra da mangueira da casa de Dona Zefinha, do jambeiro da casa de Dona Geralda, da goiabeira na casa de Dona Sílvia, do pé de cajá-manga na casa de Seu Zé Lima. De sentir as amizades e, como diz uma velha canção, poder “parar o tempo e prestar atenção nas coisas”.

De que forma a rua fez parte de seus primeiros experimentos musicais?
Eu já cantava no banheiro, inventava canções. Mas foi na adolescência quando conheci Manoca (Barreto), que morava na Rodrigues Alves, no Tirol, que comecei a entrar na vida musical de maneira mais intensa. Depois de um tempo de amizade criamos o Fluidos, com Bob Crazy, que morava na Rua Assu, e Fernando Suassuna, irmão de Manoca, e os outros que foram chegando. No começo fazíamos experimentações lá em casa, no quarto de som, que eu meus irmãos chamávamos de “quarto azul” (era todo azul). Fazíamos gravações experimentais. Na falta de uma distorção, Manoca plugava a guitarra em um equipamento “Três em Um” e o som saía distorcido pelo headphone. Íamos criando possibilidades de nos expressar musicalmente.

Você poderia revelar algum segredo daquele tempo?

Numa noite, fui com Manoca para uma festa. Eu não conhecia o pessoal, pois era uma galera do Marista, do colégio que Manoca estudava e eu era do Salesiano. Então fiquei meio desenturmado. Mas em certo momento tocou Hotel California. E isso me deu um certo conforto, além do prazer em ouvir a musica, isso me deu uma sensação de pertencimento. E fiquei achando que aquela casa era como a da música. Me senti dentro do Hotel California. Uma vez escutei em uma musica uma frase que me marcou: “o que faltar a gente inventa”.

Há espaço para saudade?
Minha experiência com o rock progressivo, que de certa forma reflete esse eterno lugar de saudade. Os clássicos progressivos como Yes, Pink Floyd, Jethro Tull, Genesis, Emerson, Lake and Palmer, tomaram conta de mim e empenaram minha mente na adolescência. O cara quando está em formação e recebe esse tipo de informação lisérgica-conceitual pode mudar para sempre sua percepção, sua maneira de sentir o mundo. O cara toma ácido por osmose, uma espécie de ácido lisérgico orgânico natural que chega através da música psicodélica. Ter crescido em um lugar assim, provocou em mim experiências sensoriais que carrego comigo até hoje e sempre vou querer que estejam comigo.

Ainda existe alguém ou algo que remeta a esse velho bairro de sua juventude?
A casa de Seu Manel continua lá. E as outras casas também: morando para sempre na memória, nas nossas mentes e corações. Mas a rua mudou muito. Fachadas foram transformadas, árvores foram derrubadas, e o bairro se verticalizou. Não existe mais aquele astral da época, o bairro ficou mais comercial, mais elitizado, tem um pessoal que quer a todo custo que a Afonso Pena seja a Oscar Freire. E infelizmente, assim como em toda a cidade, o bairro ficou mais perigoso. Andar à pé, sem árvores e com insegurança fica difícil.

Quais sugestões você daria para tornar o lugar em que você cresceu melhor?
Que seja criada e executada a lei do vento livre.

Dê uma dica sobre algo bom para fazer no lugar que só quem viveu bastante na área conhece.
Arranjar tempo para não fazer nada.


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