Uma série sobre nossas encantarias

Publicação: 2018-06-26 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Lançado em 2015, o média-metragem potiguar “Encantarias”, de Rodrigo Sena e Júlio Castro, circulou menos que o esperado no circuito de festivais. Não que o filme sobre os rituais e o cotidiano de três religiões de matriz afro indígena (Candomblé, Umbanda e Jurema) praticadas na Grande Natal não tenha despertado interesse – muito pelo contrário. A ideia de interromper a circulação foi dos próprios realizadores, que optaram por apostar numa rodada de negócios audiovisuais na Bahia para dar um desdobramento mais adequado ao projeto.

Série abrange as religiões de matrizes afro-indígenas da Grande Natal, onde estima-se que existam mais de 300 casas, somando Candomblé, Umbanda e Jurema
Série abrange as religiões de matrizes afro-indígenas da Grande Natal, onde estima-se que 
existam mais de 300 casas, somando Candomblé, Umbanda e Jurema. Foto: Rudá Melo      

“Normalmente um filme tem uma vida de dois anos de circulação em festivais. A gente arriscou. Paramos de circular depois de um ano para tentar algo no Nordeste Lab”, conta Rodrigo Sena.

O filme  foi representado no Nordeste Lab pela produtora Catarina Doolan, da Prisma, uma empresa do mercado publicitário natalense que apostou no projeto. A ideia era conseguir algum contrato de licenciamento para viabilizar financiamento federal no sentido de finalizar a obra como um longa-metragem. Acontece que três programadoras de TV se interessaram pelo filme, estendendo as propostas para um novo tipo de projeto: uma série televisiva de três episódios, cada um sobre uma das religiões abordadas. Tudo produzido no RN e com profissionais da cena local. A proposta foi aceita.

A emissora que irá exibir para todo o Brasil a série é a Cine Brasil TV. Os recursos para a produção, algo em torno de R$ 300 mil, foram conseguidos junto ao Fundo Setorial do Audiovisual da Agência Nacional do Cinema, vinculado ao Ministério da Cultura. Os recursos entraram na conta dos realizadores há poucos meses, e, durante o mês de junho, a equipe entrou numa imersão de filmagens dando início a produção, já que a previsão do Cine Brasil TV é exibir a série no início de 2019.

Rodrigo Sena e Júlio Castro apostaram na transformação do média-metragem “Encantarias”em uma série, exibida no Cine Brasil TV
Rodrigo Sena e Júlio Castro apostaram na transformação do média-metragem “Encantarias”em uma série, exibida no Cine Brasil TV

O VIVER conversou com os dois diretores do projeto numa pausa da dupla que estava a todo vapor na ilha de edição da Prisma. Segundo os diretores, há bastante novidades no projeto atual, como mais terreiros visitados, novos personagens e abordagens contemporâneas. Mas a essência é a mesma.

“Religiões afro-indígenas é um assunto muito amplo. Para o projeto original, a ideia era fazer um curta, mas durante o processo vimos que não dava para abordar o assunto de forma tão rápida. Fechamos nos 50 minutos, um média. Agora temos a oportunidade de tratar do tema com a profundidade que ele merece. Serão três episódios cada um de 50 minutos”, detalha Rodrigo. O “Encantarias” de 2015 foi viabilizado através de de um edital de festividades e expressões religiosas, lançado uma única vez pela prefeitura.

“Estamos privilegiando mais casas agora. Seis, ao invés das quatro de cada religião, como aconteceu no filme original. Também focamos em outras nações, não apenas nas casas de uma única linha ancestral. Tudo isso dará uma amostragem mais abrangente sobre essas religiões”.

A produção desmistifica os rituais e esclarece aspectos pouco debatidos num país tão plural como o Brasil. A dupla de diretores cita algumas diferenças entre as três manifestações. “Quando a gente fala de Candomblé a gente está falando de seres celestiais. Começou como prática religiosa na África e se formalizou como religião aqui no Brasil. A Umbanda e a Jurema tem viés diferente, cultuam desencarnados. O ritual da Jurema é centenário, é originário de uma área que vai de Pernambuco até aqui no RN. Os índios faziam, é a manifestação religiosa mais antiga que encontramos no estado. Já a Umbanda, é uma religião que chegou no RN vinda do Rio de Janeiro. Sua raiz está no encontro do africano com o índio brasileiro, mas com viés kardecista também”, explica Rodrigo, que é estudioso do tema há mais de dez anos.

Potiguares produzem série para televisão sobre manifestações afro-indígenas do RN
Potiguares produzem série para televisão sobre manifestações afro-indígenas do RN

Júlio Castro conta que professores universitários foram procurados para dar um olhar antropológico ao assunto, mas não houve interesse dos acadêmicos. “A academia virou as costas. Não nos atenderam”, revela, defendendo que não há prejuízo quanto a falta de uma voz da universidade. Rodrigo pensa do mesmo jeito. “Quem tem autoridade pra falar é quem tem vivência nas casas. Não estamos falando de religiões de consulta, como no caso dos cristãos que tem a bíblia. São religiões de vivência. Você não vai aprender sobre essas religiões em livro, nem em filme. Pode ajudar a compreender algumas coisas. Mas o conhecimento mesmo está na vivência”, afirma Rodrigo.

A série está circunscrita apenas na Grande Natal, onde estima-se que existam mais de 300 casas somando as três religiões. “Essas casas sempre estão nas periferias. Eles trazem toda aquele experiência de opressão antiga, de perseguição. São quilombos urbanos de resistência”, comenta Rodrigo. “No RN, das três religiões, a mais rica é o Candomblé. As casas são grandes com cultos sempre bem frequentados. A Jurema, em se tratando de números de casa, é maior, tem cinco vezes mais terreiros que o Candomblé. E a Umbanda seria a mais fragilizada”.

De acordo com os diretores, até 1960 o culto das três manifestações não era legalizado. Há, nesse sentido, histórias de que por várias vezes o etnógrafo Câmara Cascudo precisou usar de sua influência social para soltar pais de santo nas delegacias porque a vizinhança denunciava a batucada no tambor.

Questões contemporâneas
Uma das preocupações dos diretores é levar para a tela questões contemporâneas, como a grande presença de brancos praticantes e da existência de conceitos vegetarianos. “A gente abre discussão novas como a do sacrifício de animais. Tem um terreiro em Natal com mais de 200 filhos de santo que não quer mais matar animal porque a mãe é vegana. Isso gera um conflito interno pela quebra de uma tradição, já que para a maioria dos sacerdotes não existe candomblé sem sangue”, comenta Rodrigo, cujo relato é complementado por Júlio: “Acontece que na visão deles, existem três tipos de sangue: o animal, vegetal e mineral. O azeite de dendê, por exemplo, seria uma espécie de sangue. É uma interpretação que permite a eles substituir o sangue animal”.

Júlio ainda atenta para uma outra questão, referente ao registro de sacerdotes antigos que deveriam ser considerados patrimônio imaterial do RN. “Seu Clementino, da Umbanda, sua casa era frequentada por Cascudo. Babá Carol, um sacerdote importantíssimo que tirou a Jurema da total informalidade e trouxe para a organização que existe hoje. Além deles existem outros nomes importantes que merecem mais reconhecimento por estarem na história dos cultos de Natal”, sugere. “Muitas gerações passaram por eles”.

Para os dois diretores um aspecto comum as três religiões abordadas na série é a mais importante. “Diferente de outras religiões, essas três que a gente trata no filme não se preocupam em converter ninguém. Pelo contrário, a proposta é de acolhimento. Só pra se ter uma ideia, muitas das casas, principalmente da Umbanda e Jurema, se denominam de casa de caridade”, diz Júlio. Rodrigo complementa: “Não há julgamento nenhum. Está precisando de ajuda? O pessoal vai te ajudar. Isso é uma das coisas mais importantes que vejo na Umbanda, Candomblé e Jurema”.


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