Uma tarde

Publicação: 2020-08-15 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação



Cada um tem um álbum com os retratos das recordações. Alguns, são de verdade e é bom mostrar, posto que são invisíveis os limites entre o real e o irreal. Como naquele verão de céu muito azul, quando chegou a notícia inesperada numa tarde calma da Redinha: Nana Caymmi vem aí. Era verdade. E chegou cedo, ficou no alpendre da casa de Diva Cunha, olhando o mar, tomando uísque, numa conversa boa e vadia, no dia seguinte ao seu show no Alberto Maranhão.

Não sei a data - Rejane desta vez não anotou no verso da fotografia - mas deve ser coisa aí dos anos oitenta. Nem lembro qual era a canção que ela cantava naquela hora da foto. Sei bem que a missão de acompanhá-la no violão coube a Volontê, como está na imagem. Nossos cabelos ainda eram negros e nossas almas jovens e cheias de vida. O hábito de até hoje ficou na fotografia, o dedo indicador mexendo as pedras de gelo, abrandando o calor dos muitos graus do uísque. 

É, éramos anônimos e anonimamente felizes. Sem o ardor dos olhos alheios que ferem as retinas. Tínhamos a beleza de um mar antigo que era nosso, noites sem medo, de doces fantasmas que apareciam, pediam um cigarro ou uma cachaça, e ficavam ali, quietos e calados. Às vezes, ‘Mumbaca’, cantor daqueles becos sem nome, cantava canções de Núbia Lafayete, tristíssimas, e devolvia tudo - o cordão, a medalha de ouro e as cartas amorosas, menos a saudade cruciante. 

Os políticos já eram os mesmos, das mesmas famílias e dizendo as mesmas coisas, por isso não incomodavam. O verão era tempo de paz nas casinhas brancas e pachorrentas, de janelas acesas por um sol sem mágoa. A lua, como no velho samba-canção de Custódio Mesquita, ainda era dos namorados e o professor Antônio Soares, com a luneta, bisbilhotava a vida de São Jorge na lua, e os atléticos faziam ginástica calistênica, buscando a beleza e a força, como os gregos. 

No verão da Redinha a vida contrariava o verso célebre do poeta Manuel Bandeira, como um suave galope a beira-mar, porque não era uma agitação feroz e sem finalidade. Pelo contrário, era simples e mansa. Lembro doutor de Dante de Melo Lima que depois do seu uísque demorado e sem pressa, e do acarajé que ele mesmo fazia com sua alma baiana dormia o sono da tarde no alpendre, numa cama de vento. Como as que vi na infância para enfrentar o mormaço das horas.  

Nana estava alegre, contando histórias engraçadas de Dorival Caymmi, bebericando um uísque e encantada com a nossa vila calma e boa que se derramava quase nas águas do mar. Nada que incomodasse. Ninguém. Mas não cantou muito. Diante dela estava o mesmo espetáculo do mar azul da Bahia de São Salvador e ela sempre saudosa, gostando de viver no Rio, por conta da agenda de shows. No fim da tarde, Nana deu adeus na janela do carro. Para nunca mais voltar... 

GARANTIA - Uma fonte com muitos anos de vida política em Mossoró afirma: a candidatura de Cláudia Regina é a mais útil na fragmentação da oposição que só interessa a Rosalba Ciarlini.  

COMO - Fixada, nas pesquisas, no patamar que não ultrapassa 40%, até agora, não interessaria hoje ao poder rosalbista uma oposição perigosamente unida: Allyson Bezerra e Cláudia Regina.

MAIOR - Um deputado com vários mandatos explicou a esta coluna que o PSDB é hoje, no RN, o partido maior e melhor estruturado. E atribuiu ao deputado Ezequiel Ferreira o mérito do feito.

FRESCOR - Garante um tucano com ninho em Natal, que o PSDB trabalha para ter adesões de algumas lideranças jovens. A ideia é rejuvenescer o partido nesses tempos de novos eleitorados. 

ALIÁS - A postura mais arriscada seria Álvaro Dias chegar ao eleitorado natalenses como um candidato das elites. Hoje é tucano, mas cuidou de fortalecer a imagem junto aos mais carentes.

JOGO - A Câmara Municipal aceitou elaborar as regras técnicas da concorrência do transporte coletivo, o que foi uma servidão vergonhosa, e lavou as mãos. Até hoje não cobrou sua realização.

QUEM - Na época, há mais de um ano, quase dois, seus lanceiros foram os vereadores Felipe Alves e Kleber Fernandes, e a vereadora Nina Souza. Hoje o silêncio seria de missão cumprida?

PESTE - De Nino, filósofo melancólico do Beco da Lama, vendo a pandemia ainda sem ter fim previsível antes da vacina: “O amor, nos tempos da peste, e com medo, voltou a ser platônico”.

SÉCULO - É bom não perder de vista: 2021 serão os cem anos da estreia intelectual de Câmara Cascudo com ‘Alma Patrícia’, livro publicado pela Tipografia M. Victorino, Natal. É a primeira visão da vida literária do Rio Grande Norte. O texto fundador da crítica literária aqui no Estado. 

SEGUNDA - Em 1991, nos setenta anos de ‘Alma Patrícia’, sugeri a Vingt-un Rosado a segunda edição do livro de estreia da obra cascudiana, então inacessível, de tão raro. É o volume 743 da ‘Coleção Mossoroense’. Vingt-un dedica a D. Dhália que autorizou e a este cronista que sugeriu. 

TERCEIRA - A edição mais recente é de 1998, abre a Coleção Biblioteca Potiguar, com aquele que deve ser o mais longo e belo prefácio de Sanderson Negreiros. É comemorativa dos 100 anos de Câmara Cascudo, uma iniciativa da Fundação José Augusto, na gestão de Woden Madruga. 


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