Uma viagem pelo seridó negro

Publicação: 2018-07-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Invisibilizada ou menosprezada, não se sabe ao certo o porquê, mas de fato a participação afro-brasileira no desenvolvimento do Seridó é pouquíssimo relatada na historiografia e literatura potiguar. No entanto, depois de séculos de esquecimento, pesquisas recentes têm levantado elementos para uma revisão crítica da historiografia tradicional sobre os negros do Seridó. Um grupo que tem feito um trabalho continuado e apresentado resultados é o programa de extensão da UFRN “Tronco, ramos e raízes”, ligado ao departamento de Antropologia.

“Guia Cultural Afro do Seridó” reúne informações sobre presença afro-brasileira e suas marcas no Seridó
“Guia Cultural Afro do Seridó” reúne informações sobre presença afro-brasileira e suas marcas no Seridó

O programa desenvolve pesquisas e ações na região desde 2012 com a estratégia de valorização do patrimônio histórico e cultural indígena e africano. O grupo dispõe de um rico acervo de documentos fotográficos, escritos e impressos, depoimentos, entrevistas, artigos, trabalhos acadêmicos, arquivos de áudio e vídeo, que aos poucos tem sido disponibilizado. Uma das mais novas ações do programa foi a criação do “Guia Cultural Afro do Seridó”, que propõe uma viagem pelo Seridó negro ao reunir informações sobre a presença afro-brasileira na região e as marcas dessas populações na paisagem cultural.

Uma das coordenadoras da publicação, a professora e antropóloga Julie A. Cavignac, diz que o material ganha importância pelo fato de que os materiais didático-informativos sobre o tema são raros. “Tem um papel pedagógico. Seria interessante que os prefeitos das cidades do Seridó ajudassem a divulgar esse material. Pode ser usado em sala de aula, serve para pesquisadores e outros públicos interessados”, conta Julie. Por enquanto a publicação existe apenas no formato digital, acessível pela página “Tronco, ramos e raízes” no Facebook. Mas os envolvidos na produção do guia esperam que haja interesse da sociedade potiguar em viabilizar a publicação impressa.

O guia objetiva incentivar a visita aos locais descritos e por isso propõe um roteiro a ser percorrido no Seridó, com informações práticas como contatos de artesãos, responsáveis por alguns espaços e grupos culturais, guias, além de endereços de lugares e outros detalhes. “Montamos um itinerário para que os visitantes possam conhecer lugares de resistência, monumentos, irmandades negras e demais registros da presença dos descendentes africanos na região. Mas o roteiro também indica pessoas e comidas”, diz a professora. A obra conta com ilustrações de lugares visitados, com desenhos ao estilo Urban Sketchers, feitos pelo grupo “Desenhadores urbanos: um percurso pela história do RN através dos traços”, do Departamento de Arquitetura da UFRN.

As pesquisas que levaram a criação do guia partiram do contato com a Comunidade Quilombola Boa Vista, no município de Parelhas e de estudos com a Irmandade dos Negros do Rosário. Acari, Jardim do Seridó e Caicó, também foram visitadas pelos pesquisadores. Mas ao longo do guia também são citadas outras localidades, como comunidades quilombolas dos Negros do Riacho (Currais Novos), de Macambira (Lagoa Nova), Negros do Boinho (Cerro Corá) e as cidades de São João do Sabugi, Ouro Branco, Ipueira, Jardim de Piranhas e Serra Negra do Norte.

“São lugares importantes para se estudar a história negra do Seridó. Apresentam pontos de fuga de escravos, casas, artigos e monumentos”, detalha Julie, francesa que há 20 vive no Rio Grane do Norte. “Visitando algumas comunidades se vê que existe uma cultura negra forte na região. Não estamos falando apenas de patrimônio material, mas do imaterial também, relacionado a músicas, danças, festas, alimentos”.

Um dos destaques do guia, é aa irmandade do Rosário dos Homens Pretos, que data do século XVIII no Seridó, e que continua ativa em várias localidades na região, como as irmandades de Caicó, Jardim do Seridó, Boa Vista e Serra Negra do Norte, que organizam festas e participam das celebrações realizadas nas outras cidades. Segundo a professora, essa confraria e suas festividades são dois dos maiores patrimônios das comunidades negras norte-rio-grandense. “A Festa do Rosário seria hoje a grande marca da negritude no Seridó. Ela só existe por causa da Igreja, que deu condições. Em Jardim do Seridó, já há vários anos o grupo entra com tambores na igreja”, comenta.

Ao longo da pesquisa Julie e seus alunos se depararam com algumas histórias de personagens, como o Feliciano Rocha, escravo liberto que ficou rico em Acari. “Segundo informações que conseguimos, ele foi enterrado na Igreja de Acari. Mas a própria população de lá desconhece sua história”, diz a professora. Ela comenta também que o desconhecimento dos acarienses quanto a própria história leva a impressões equivocadas da terra. “Sentimos que para a maior parte dos moradores a Acari é uma cidade branca. Mas algumas pesquisas descobriram várias famílias de descendentes de escravos. Aquela área teve grande presença de negros na época do cultivo do algodão. Mas a história contada na região embranqueceu a localidade”.

Segundo Julie, o trabalho dos professores e alunos envolvidos integrantes do “Tronco, ramos e raízes” tem se esforçado para reescrever a história da região. “Os documentos são poucos, temos alguns monumentos que servem como provas materiais, mas também temos encontrado pessoas que preservaram as memórias da família e que ajudam bastante ao contar sobre o passado. Elas se emocionam quando lembram dos avós, dos bisavós. Muitos têm uma história de violência extrema”, comenta a antropóloga. “Com a valorização e o reconhecimento, se espera que os seridoenses se orgulhem dessa cultura. É uma história de resistência. No desenvolvimento do Seridó tem muita mão negra. Foram os escravos e seus descendente que trabalharam na construção de casas, igrejas, na produção de alimentos, dentre outras atividades”.


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