Uma vida nascida nos ventos

Publicação: 2017-11-26 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Embora tenha passado a maior parte da vida em São Paulo e em outras cidades do mundo como correspondente dos principais jornais do país, o jornalista Emanuel Neri é um “nativo” de São Miguel do Gostoso que nunca perdeu os laços com sua terra de origem. Filho de uma família de várias gerações na cidade, Neri nasceu em 1950, quando o turismo em Gostoso era algo impensável na cabeça dos moradores.

Município conhecido pelos ventos generosos, é um lugar onde existe a preocupação com o meio ambiente e o crescimento sustentável. Emanuel Neri hoje administra uma pousada, uma galeria de arte e se dedica a escrever um livro sobre o pioneiro Leonardo Godoy
Município conhecido pelos ventos generosos, é um lugar onde existe a preocupação com o meio ambiente e o crescimento sustentável

Suas primeiras memórias da antiga São Miguel remetem aos anos 1960. “Naquela época Gostoso era um vilarejo bem típico. A estrutura era precária. As estradas eram poucas. A economia era baseada na pesca, agricultura e pecuária. A casa de meu pai era como uma fazenda próximo da praia. A gente criava gado”, recorda Neri, que precisou ir a Natal para concluir os estudos. Foi lá também que ele ingressou na Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza (depois integrada a UFRN), a contragosto do pai, que queria vê-lo médico.

De Natal Neri foi para São Paulo, onde passou pelas redações do Estadão, Folha de S.P. e revista Veja. Nunca deixou de visitar a família na praia. E, longe da terrinha, foi o maior divulgador de Gostoso para todo o Brasil e outros países.

Hoje ele se divide entre São Paulo e São Miguel, onde tem uma casa e a Pousada dos Ponteiros. Inaugurada em 2000, seu empreendimento foi a segunda pousada aberta em Gostoso. “Fiz a pousada porque enxerguei o potencial turístico da cidade. Eu falava de Gostoso pros meus amigos em São Paulo, todos ficavam doidos para conhecer. A pousada veio para dar essa estrutura turística”, conta filho apaixonado pela cidade. Sobre o turismo e outras potencialidades da região, bem como o passado de Gostoso, Neri bateu um papo com a TRIBUNA DO NORTE.

Jornalista, escritor e empresário Emanuel Neri
Jornalista, escritor e empresário Emanuel Neri

Pioneiro dos ventos
Na fazenda de papai ele tinha um catavento que gerava energia para a geladeira e outros eletrodomésticos. Ele mesmo que inventou essa engenhoca. Pode-se dizer que ele foi pioneiro da energia eólica na região. Uma das nossas distrações de criança era subir na plataforma do catavento e ver Gostoso do alto.

Turismo nos anos 80
O turismo em São Miguel do Gostoso começa nos anos 1980. O primeiro a abrir uma pousada na cidade foi Leonardo Godoy. Estou escrevendo um livro sobre ele. Seu empreendimento se chamava Pousada de Gostoso. Ele já vendeu. São Miguel tem uma curiosidade que foi primeiro descoberta pelos paulistas e só depois pelos natalenses. É um lugar que desperta muita curiosidade. Desde o nome, até a paisagem, passando pelos ventos fortes.

Temporada dos ventos
Nos anos 2005 Gostoso é descoberta pelo praticantes de Kitesurf e windsurf. Hoje esse público tem um peso muito grande no turismo na cidade. Não é só o vento, é a posição. São Miguel fica na esquina do continente. Os ventos formam enormes raias. Gostoso tem a maior temporada de ventos do mundo. Começa em setembro e vai até março.

Babilônia
Hoje São Miguel é uma babilônia. Os nativos convivem com estrangeiros e brasileiros de outros estados que encontraram no lugar um ótimo canto para viver. Gostoso é como um fio terra, te atrai. Muitos amigos meus já vieram a São Miguel para morar. Outros para abrir pousadas, restaurantes. Há uma convivência harmoniosa entre todos no dia-a-dia da cidade.

Perfil da cidade
Gostoso virou point de festas grandes. Demos a condição que esses eventos aconteçam, mas em lugar afastado da cidade e sem ser na orla. Temos uma preocupação muito grande com o perfil que Gostoso vai tomar. Não entendemos São Miguel como destino turístico de massa. Nossas pousadas são pequenas. O único resort que foi se instalar aqui está embargado. Não queremos concorrer com ninguém. Queremos uma cidade com charme, estrutura boa de hotelaria e gastronomia, com foco no desenvolvimento sustentável e preocupação com o crescimento ordenado, sem afetar o meio ambiente. 

Cultura
Sabemos que a cidade é um destino de lazer e para prática de esportes, mas temos uma preocupação em incentivar a cultura local. A Mostra de Cinema de Gostoso é algo bacana que acontece aqui. Tem o coletivo Nós do Audiovisual, que tem produzido vários curtas-metragens. Há um ano estamos com a Galeria ArteZero funcionando na cidade, na sede do Instituto de Ação Social e Cidadania Nilo e Isabel Neri (IASNIN). Atualmente estamos com a exposição do fotojornalista Alberto Ferreira (1932-2007) e do fotógrafo local Ariclenes Silva.

Trânsito na praia
A nossa maior batalha hoje é com relação ao trânsito de veículos na praia. Isso virou um problema. Antes em São Miguel os acessos a praia eram bloqueados. Quem vinha a Gostoso pela orla não conseguia entrar na cidade. Tinha que ir até a próxima cidade para ter acesso a pista. Mas nos últimos anos os acessos foram abertos, mesmo sendo proibido por lei municipal o trânsito de veículos. Há placas informando isso. Mas está tudo largado. A prefeitura não faz nada. O Ministério Público precisa tomar alguma providência. Os quadriciclos viraram uma praga. Em praias vizinhas já houve acidentes com mortes. Em Gostoso tem se matado ninhos de tartarugas e não se faz nada.

Noite estrelada
As pessoas perguntam o que é mais bonito em Gostoso, se o dia ou a noite. Eu acho a noite. É mais acolhedora. Tem um charme de meia luz. Na Mostra de Cinema, com aquele telão ao ar livre à noite, as estrelas. Aquilo é lindo.

Trilhas
Antes, nas noites de lua, quando a maré estava baixa, se fazia trilha do Farol do Calcanhar até São Miguel. Gustavo Tittoto (empresário paulista com casa em São Miguel), que mora vizinho a pousada, foi quem criou essa e outras trilhas. Já chegou inclusive a se perder na mata.

Praia do Marco
O Marco de Touros, deixado pelos portugueses, foi durante muito tempo visto pelos moradores da região como algo divino que caiu do céu. Quando era pequeno lembro que as pessoas iam lá fazer romaria, levar ex-votos, amarrar fitas no marco. Até se tirava lascas da pedra para se fazer chá. Durante um tempo, no dia 22 de abril (Dia do “descobrimento” do Brasil) se promoviam caminhadas na Praia do Marco. Isso se perdeu.

Sedinha
São Miguel numa área de restinga. Existe uma planta aqui chamada Algodão de Seda. Uma tradição local acreditava que ela era amaldiçoada, porque à noite, a planta balançava feito gente. O povo aqui passava a faca. Quando abrimos a Pousada dos Ponteiros fizemos uma campanha para conscientizar os locais da importância da planta como fixador de duna. Hoje é possível encontrar a sedinha, como também é chamada, por toda a orla.

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