Uma visão do mundo

Publicação: 2020-07-26 00:00:00
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Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN


Existe a possibilidade dos sentimentos de amor, solidariedade, fraternidade, perdão, tolerância, esperança, compreensão, humildade, renúncia, confiança, simplicidade, paz (em sua dimensão ampla e total) e bondade pautarem a existência humana? Até quando a humanidade permitirá que egoísmos, vaidades,  hipocrisias, cinismo, desfaçatez, mentiras, indiferenças, incompetência, fanatismos, medos, violência, desonestidade, ódios e ambições predominem em escala planetária? Em síntese, impõe-se que um humanismo, fecundado no coração de cada homem, identifique o verdadeiro sentido da vida. Inspire-se no amor, na absoluta solidariedade de uns com os outros e na convergência de aspirações. Utopia? Há, na verdade, uma crise de espiritualidade no mundo. Valores estão em conflito. É impossível prognosticar o futuro das novas gerações. A pandemia da COVID-19 suscitou  reflexão e constatação da fragilidade do homem. A humanidade se inseriu numa convulsão de medo, angústia, incerteza, pânico e desvario. Configuram-se, de algum tempo a esta parte, a antevisão e o lamento bíblicos: tem olhos mas não vê; ouvidos mas não ouve; coração (sentimentos) mas não sente. Ideologias, obsoletas e ultrapassadas, são ainda invocadas e praticadas. Nutrem e irrigam o atraso, a miopia, a insensibilidade, a violência, o ódio, o fanatismo e a estupidez. Antes da pandemia, que ceifa milhões de seres humanos, já perdurava um questionamento universal: aonde vamos? Pois a redenção do homem emerge do amor, liame da criatura com o Criador. Simplesmente...

 A percepção da beleza é um dom. Atributo que lança o homem no infinito. Sensibilidade individual e manifestação da espiritualidade, dos sentimentos, dos sonhos e de tudo susceptível de elevar a condição humana. Eis quando o transcendental se confunde com a busca do bem. Em todos os sentidos e dimensões. Há circunstâncias em que o homem assoma ao êxtase, sobretudo no usufruto do amor e da partilha do bem. A beleza universal, que nos cerca e nos instiga, suscita, em homens receptivos à sua percepção, inesgotável encantamento. Conjuga fé, anseio, arrebatamento, harmonia e simplicidade. Jesus, no Evangelho de São Lucas, foi categórico, contundente e preciso: “o Reino dos Céus está dentro de vós”. Até os que não creem, atônitos, perplexos, fanáticos ou ideologizados, sabem identificar, no âmago do seu ser, a fonte de suas opções, buscas e vocação. Entretanto, há os que perseguem caminhos integrando a fé e a razão; os que somente visualizam o mundo e a vida submetendo-os, com exclusividade, ao seu arbítrio ou aos seus desígnios; enfim, os que só acreditam no que é tangível ou fruto do acaso. Há, neste século XXI, um renascimento, como nunca se viu, de uma irrupção apocalíptica, permeada de facciosismo político-ideológico, intolerância política, religiosa e racial, ódio, violência, desamor à vida e insensatez. A perplexidade, a insegurança e as incertezas se acumulam. A condição humana se avilta. Estiola-se. Milhões e milhões são escravos da fome, da ignorância e da miséria. A humanidade, em vinte anos de século e milênio, não soube aderir à construção da civilização do amor, preconizada por São João XXIII na Encíclica “Pacem in Terris”.

Governos se mostram fragilizados, incompetentes, inertes ou impotentes para responder, com eficiência e agilidade, aos problemas e desafios da atual conjuntura. O mundo está órfão de estadistas. Há generalizada mediocridade, afetando atividades ou ações essenciais à paz e ao bem-estar: da política à economia; da literatura às artes; da ética à moral; da espiritualidade à comunicação social. A ganância de banqueiros e especuladores em bolsas de valores desestabiliza a economia mundial. Submete-a a uma corrida desenfreada para acumulação de capitais em detrimento do equilíbrio ecológico, da paz e do desenvolvimento sustentável. É a nova “Babel”?  Paraíso do neoliberalismo? Onde estão os instrumentos legais e as vedações ético-morais? Apesar da consciência universal abjurar a dominação do Ter sobre o Ser. O que fazer?

Acostumei-me, desde menino, a contemplar o primeiro desabrochar de luminosidade, que rompe o manto escuro da noite. Toda aurora é um renovar-se de esperanças. Aos sete anos, na praia da Redinha, postava-me num montículo de areia, em frente à casa de veraneio, para desfrutar esse renascer de vida, imantado em mim como reverência à Criação. Em minhas andanças pelo mundo, sobrevoando o litoral africano, vi as cores estonteantes do nascer do dia. Imaginei que nasciam no Saara ou no longínquo pico do Kilimanjaro. Em Lisboa atravessei o Tejo ao amanhecer. Vi a primeira face do dia refletida nos Jerônimos, na Torre de Belém, no Palácio da Ajuda, no Bairro Alto, em Alfama e Mouraria. Percepção que emergia da alma e do coração. Vi o nascer do dia em Roma, uma das minhas “paixões eternas”. Com esposa e amigos, bem cedo, num sábado de Aleluia, adentrei na Basílica de Santa Cruz em Jerusalém. Imaginei o encontro do Papa Inocêncio III com São Francisco de Assis. Memorável autocrítica da Igreja consigo mesma, suas origens e missão. Cena magistralmente descrita por Julien Green no livro “São Francisco de Assis”. Depois genialmente retratada por Franco Zeffirelli no filme “Irmão sol, irmã lua”. O santo imitador de Cristo ali invocou Mateus (6,25-34): (“...Observai as aves do céu, não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis muito mais do que as aves? ...Considerai como crescem os lírios dos campos: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo, que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles...”). Minha esposa (Dadaça) e eu descortinamos, em 1996, a aurora boreal entre fiordes na Noruega. Mas a nossa verdadeira “aurora boreal” é espiritual e sentimental. É ato de harmonia com a Criação.  Esperança e fé na vida e na paz de todos os homens.