Usuários reivindicam unidades básicas de saúde nas comunidades

Publicação: 2020-10-18 01:00:00
O Relatório gerencial da Ouvidoria do SUS – Natal, referente ao segundo quadrimestre de 2020 apontou um grande quantitativo de reclamações e solicitações por consulta e diagnóstico, tendo em vista a dificuldade que os usuários têm de acessar esses serviços.

Na zona Norte da cidade é fácil encontrar comunidades desassistidas na saúde primária. O Conjunto dos Garis é uma destas. Lá são entregues toda semana 20 fichas para que os moradores sejam atendidos na Unidade de Saúde do Pajuçara, a cerca de 4 km, que absorve a demanda de outras 12 localidades. “Quando a gente chega lá, nem sempre é atendido. Primeiro porque não é fácil pegar uma ficha. Para fazer o CD tem que ver se vai ter vaga e às vezes a gente volta porque não tem”, relatou a moradora Raíssa Medeiros.

Créditos: Adriano AbreuNa zona Norte da cidade, unidades terminam absorvendo a demanda de localidades vizinhasNa zona Norte da cidade, unidades terminam absorvendo a demanda de localidades vizinhas

O CD (Acompanhamento e Desenvolvimento) é uma estratégia de acompanhamento nos primeiros anos de vida do bebê. Raíssa tem uma filha menor de um ano e um filho de três. Para ela, a dificuldade por não ter uma unidade de saúde mais próxima é grande para consulta dela e dos filhos pequenos. Mas ter um posto de saúde próximo de casa já deveria ser uma realidade para a jovem porque a unidade de saúde do Alto da Torre, vizinha ao Conjunto dos Garis, está com sua construção parada, servindo de moradia para pessoas sem teto.

 “A construtora começou a obra e parou, a segunda veio e também parou. São 35 salas e está com 80% da obra pronta. A gente espera que olhem por isso aqui. Estamos descobertos pelo atendimento de saúde. São poucas fichas pra muita gente”, reclamou o morador Everaldo Barros. A construção paralisada recebeu a visita da comissão de saúde dos vereadores e o problema já foi debatido várias vezes na Câmara Municipal. Em uma destas, há mais de um ano, o secretário adjunto de saúde, Fabiano Fontes, confirmou que houve desistência das empresas licitadas e que não poderia prever a retomada dos serviços naquela ocasião, pois estavam em análise técnica e orçamentária.

O relatório anual da SMS cita esta obra no valor de R$ 1.124.310,69 com data de início da obra em 12/06/2017 e conclusão em 06/12/2018 estando 70% realizada. Todo o processo de construção começou em 2014. “A gente sai daqui de madrugada pra tentar se consultar e, quando chega lá no Pajuçara, parece que se não for de lá não tem prioridade. Então tem vezes que a gente acaba voltando sem ter atendimento”, contou o morador Altino Borges, de 73 anos, que reside ao lado do que já deveria ser o posto médico do bairro.

Créditos: Adriano AbreuRaíssa Medeiros se desloca quase 4 quilômetros para conseguir atendimento CD para os filhosRaíssa Medeiros se desloca quase 4 quilômetros para conseguir atendimento CD para os filhos

Em seu relatório do segundo quadrimestre de 2020, a Ouvidoria do SUS destaca que é notória a necessidade de investir em estratégias que viabilizem a ampliação dos atendimentos e a redução das longas filas de espera. Uma questão pertinente nesse ponto, diz a Ouvidoria, refere-se aos transtornos enfrentados pelos setores de regulação das unidades, os quais muitas vezes não conseguem agilizar as marcações de consultas e exames devido à ausência de uma internet de qualidade ou até mesmo pela falta de estrutura tecnológica das unidades.

As mudanças no fluxo dos serviços de saúde, em virtude da pandemia da covid-19, contribuíram consideravelmente no agravamento dessa situação, como por exemplo, demandas relativas à suspensão de algumas consultas e exames; tentativas de algumas unidades básicas de saúde suspenderem serviços básicos, essenciais, como realização de pré-natal, preventivo e consulta com o médico da Estratégia de Saúde da Família (ESF); a falta de retorno dos médicos sobre o boletim diário que deve informar a situação de saúde dos parentes que estão internados nos hospitais e UPAS, em razão do coronavírus; a restrição do direito das gestantes ao acompanhante; além da restrição de idade imposta por alguns prestadores, o que inviabilizou o acesso à assistência a saúde aos usuários maiores de 60 anos.