Várias mulheres em uma

Publicação: 2017-10-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter


Em cena, uma mulher desnorteada, fragmentada em quatro personalidades que interagem entre si de maneira metafórica e performática. Quarta montagem da Sociedade Cênica Trans (Sociedade T), o espetáculo “Tratados de Mim Mesma na Infertilidade” estreou em setembro com sessão única no festival “O Mundo Inteiro É Um Palco” e agora em outubro entra em temporada no Barracão Clowns (Nova Descoberta), com apresentações de 13 a 15 e de 27 a 29, sempre no horário das 20h.

Espetáculo é a primeira montagem da diretora e dramaturga Heloísa Sousa, uma das fundadoras da Sociedade T e imprime uma forte carga feminista ao espetáculo
Espetáculo é a primeira montagem da diretora e dramaturga Heloísa Sousa, uma das fundadoras da Sociedade T e imprime uma forte carga feminista ao espetáculo

O espetáculo é a primeira montagem de Heloísa Sousa, uma das fundadoras da Sociedade T, que imprime uma forte carga feminista no trabalho. Foi no texto “Not I”, de 1972, de um dos maiores expoentes do Teatro do Absurdo, o irlandês Samuel Beckett (1906-1989), que ela encontrou a ideia para desenvolver a peça. No texto de Beckett, uma boca conta a história de uma senhora abandonada por seus pais.

“O que me interessou no texto foi a personagem feminina e de como o Beckett coloca ela numa dramaturgia contemporânea. Mas não é uma montagem do Beckett. Ele foi somente uma referência de pesquisa”, conta Heloisa, que é mestre em Artes Cênicas pela UFRN. Sobre a mulher de “Tratados de Mim Mesma na Infertilidade”, a diretora diz que que é uma qualquer. E esse é um dos pontos de encontro com o Teatro do Absurdo. “Trato simplesmente de uma mulher. Não há nenhum homem por trás, nem passado, nem futuro. Só uma mulher no tempo presente falando dos sentimentos dela. Ela não conta uma história, ela questiona sua existência. É aí que entra o Teatro do Absurdo”.

Essa mulher é vivida por quatro intérpretes:  Mariana Batista, Rozeane Oliveira, Moisés Ferreira e Pablo Vieira. O texto, autoral e construído coletivamente, varia entre monólogos interiores, discursos, orações e poemas. Segundo Heloisa, as cenas foram construídas a partir dos vários estados emocionais dessas falas. “As cenas alternam entre aceleradas, cautelosas, mais reflexivas, confusas. Isso é passado para os movimentos, música e luz”, explica. Mas não se trata de um trabalho textocêntrico. “As vezes as pessoas vão com muita expectativa em cima do texto e esquecem de sentar e receber a obra, experimentá-la”.

O espetáculo aposta em belas composições visuais e na força simbólica dos poucos elementos do cenário, assinado pelo artista Mathieu Duvignaud. De acordo com heloisa, em se tratando do espaço, ele é menos real que imaginário. “O cenário acaba sendo um espaço de pensamento e não real, cotidiano”, afirma.

Contemplada pelo programa Rumos Itaú Cultural 2015-2016, a montagem de “Tratados de Mim Mesma na Infertilidade” dá continuidade a linha de pesquisa cênica que a Sociedade T vem desenvolvendo desde 2013, com espetáculos híbridos e que evidenciam visualidades e sonoridades que despertam outras possibilidades de percepção do público. Além da presença visual, a montagem privilegia composições coreográficas, com preparação corporal da artista Ana Claudia Albano, trilha sonora abstrata, concebida por Gabriel Souto, além do cruzamento com outras linguagens.

“O hibridismo de linguagens é algo natural pra gente. É a nossa estética. Na criação a gente vai juntando tudo que vai dando vontade de fazer no momento. Não é uma condições prévia. Alguns podem ficar mais coreógrafos, outros teatrais, outros visuais”, comenta a diretora.

Além de Heloísa, Moisés Ferreira e Pablo Vieira, a Sociedade T é formada pelo artista Felipe Fagundes. O grupo também tem em seu repertório a obra coreográfica “Entre o Choro e o Controle” (2014), o espetáculo teatral “Pode ser que seja” (2015) e o solo de teatrodança “Sem Sal, Sem Açúcar” (2016).

Serviço
Espetáculo “Tratados de Mim Mesma na Infertilidade”, da Sociedade T
Dias 13, 14, 15 e 27, 28 e 29 de outubro, sempre às 20h
Barracão Clowns (Avenida Amintas Barros, 4661, Nova Descoberta)
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)


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