Vários, “Revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras n. 60” (2019, ANL, 216 p.)

Publicação: 2019-10-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Mantendo quatro números por ano desde 2013, a revista da ANL chega a uma marca histórica numa época em que não existem outros periódicos regulares nas plagas estaduais na forma impressa. Desta vez há uma atenção maior para Lenine Pinto (1930-2019), jornalista, pesquisador e historiador que aqui ganha três ensaios distintos em extensão (o de Vicente Serejo é misto de bela crônica com ensaio; o de Sérgio Villar, quase um release). Nos demais textos aparecem informações variadas, como o informativo “Chico Elion”, com Leide Câmara mandando raras informações sobre o músico assuense que chegou a ganhar disco de ouro da extinta gravadora CBS (atual Sony) no ano de 1955 (!!!). A causa foi a composição “Moinho d’água”, gravada por Aldair Soares e com arranjo de José Bragatto, também arranjador de Astor Piazolla (segura essa, Plutão Já Foi Planeta!) e depois também gravada pelo Trio Irakitan. O vistoso “A formação do poeta repentista”, de Aécio Cândido, apesar de limitado às teorias do italiano Domenico De Masi, enverada pelas estórias do Bar Tamandaré, point mossoroense dos poetas populares da cidade entre meados dos anos de 1970 até o decênio seguinte. Por lá frequentaram nomes ilustres da poesia popular potiguar, como Luiz Campos e o hoje renomado Antonio Francisco. Na seção das narrativas, a curteza de Cellina Muniz (“Confissão”) e de Francisco Sobreira (“As mangas”) passeia pelos desencontros urbanos. Na ala poética, segue-se do lirismo trivial de Jarbas Martins ou Roberto Lima aos tons rimados de Crispiniano Neto.

Ferreira Gullar, “Na vertigem do dia” (2018, Cia. das Letras, 98 p.)
Fazendo par com o pouco lido e excelente “Dentro da noite veloz” (originalmente de 1975), a reedição de seu quase irmão gêmeo expõe o maranhense em sua plenitude poética (inclusive, o poeta passou oito composições deste volume de 1980 para edições posteriores de “Dentro da noite veloz”, só ele sabendo os motivos). Obscurecido pela ampla repercussão do politizado “Poema sujo” (1976), os 26 textos de “Na vertigem do dia” acendem uma temática urbana até hoje ecoante como se o tempo tivesse parado (e já se passou quase meio século). Já no início, há o icônico poema “Traduzir-se” – musicado pelo cearense Raimundo Fagner – entrando no rol dos grandes poemas nacionais do século XX com sua simbologia do ser humano dividido: “Uma parte de mim/ almoça e janta;/ outra parte/se espanta”. Além deste hoje já canônico poema, ainda surgem o indagativo “Bicho urbano” – inclusive já foi questão do ENEM –, a memorialística dupla de “Bananas podres I/II” e o opulento tom semi-épico de “Improviso ordinário sobre a Cidade Maravilhosa”, um anti-canto sobre o Rio de Janeiro, lugar no qual o eu lírico invoca o tempo e a morte como personagens de uma realidade sensorial que mudou pouco com o andar dos séculos: “Ah, cidade maliciosa/ de olhos de ressaca/[...]/ Amigos morrem,/ as ruas morrem/ as casas morrem./ Os homens se amparam em retratos”. E de brinde o ensaio-prefácio de Alcides Villaça. Poesia para qualquer um entender, arte milenar tratando dos seres e dos dias com uma carga de significados que somente o tempo responderá à altura. Salve o poeta e suas vertigens diárias.








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