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'Vórtex' fala sobre a velhice e as dicotomias da memória
Publicado: 00:00:00 - 22/08/2021 Atualizado: 16:56:15 - 21/08/2021
Revelado mundialmente em 1991, com o curta “Carne”, feito depois de seis anos de carreira, o franco-argentino Gaspar Noé, de 57 anos, dirigiu 32 produções, de 1985 até hoje, tendo a joia “Irréversible” (2002) como o holofote de uma obra de altos e baixos criativos (e muita inércia), mas na qual nunca faltou provocação, nem ódio à moral imposta. “Clímax”, de 2018, pelo qual ele veio ao Brasil, com direito a um pulinho na locadora e produtora Cavídeo, de Cavi Borges, é um dos pontos altos de uma travessia irregular pelos pântanos da ousadia. Mas há algo de (muito) novo vindo do front em que ele guerreia desde os anos 1980 e que fez o 74º Festival de Locarno, em terras suíças, chorar no fim de semana: “Vórtex”. Trata-se da experiência mais próxima do conceito de obra-prima feita por ele nos últimos 19 anos. É um tristíssimo conto existencial (e psicanalítico) sobre o envelhecimento e as dicotomias da memória (em analogia ao próprio cinema e seus suportes, os físicos e os digitais), narrado sempre com uma divisão da tela. 

Divulgação
Na trama de Gaspar Noé, ao lado da veterana Françoise Lebrun, está em cena um mestre do terror: o diretor Dario Argento

Na trama de Gaspar Noé, ao lado da veterana Françoise Lebrun, está em cena um mestre do terror: o diretor Dario Argento


De um lado vemos, quase todo o tempo a atriz Françoise Lebrun, no papel de uma mulher às voltas com o Alzheimer, e, ora ou outra, seu filho drogadito, vivido por Alex Lutz. Do outro lado vem a apoteose desse “filme saudade”: mestre do terror Dario Argento, mestre das cartilhas do giallo, o horror à italiana. Hoje octogenário, o realizador de “Suspiria” (1977) e “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970) interpreta um diretor que está às voltas com a escrita de um livro, chamado “Psiquê”, sobre sonhos e o audiovisual. E fora essa escrita, datilografada, a rotina dele é ocupada pelo esforço hercúleo de proteger sua companheira, sempre roubada de sua lucidez por apagões em suas recordações. Numa bifurcação do écran, Nóe desfia o novelo de duas vidas ameaças pelo Tempo, esse danado.

“Tenho lembranças da descoberta do cinema e associo o que lembro ao medo. Mas um medo que me dá o prazer do fascínio”, disse Argento ao Estadão no fim de 2020, após ter recebido uma homenagem no Ca’ Foscari Short Film Festival, em Veneza. “Quando eu ainda era muito jovem… era criança… eu cheguei perto do que se entende como terror, pela primeira vez, ao acompanhar meus pais a uma exibiço de “O Fantasma da Ópera”, com Claude Rains.

Aquilo me fascinou num lugar muito estranho. Esse fascínio se estendeu quando, adolescente ainda, eu descobri o expressionismo alemão e um certo cinema americano dos anos 1940, produzido por Val Lewton. Mas depois que eu virei crítico, a dimensão de assombro que me interessava era Bergman e Buñuel. Já no estilo, a principal influência que tive foi a Nouvelle Vague. Os franceses, com sua liberdade, é que ofereceram a mim a autonomia que precisava para abordar o terror de uma maneira bem particular, trabalhando com a psicanálise”.

Assistir a Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón, com morfina nas veias e em recuperação de uma hemorragia cerebral foi uma das experiências que mais alteraram a percepção estética de Gaspar Noé. Alteração essa vivida nos meses que antecederam as filmagens de Vórtex, drama bem-recebido no Festival de Cannes e que repetiu a dose na 74ª edição do Festival de Locarno.

A experiência de quase morte sofrida pelo diretor, dias antes de a pandemia começar, seguida de um processo convalescente em que ele via dois clássicos por dia, produziu a necessidade de ele falar sobre a finitude. E falar de maneira afetuosa - algo que seus filmes nunca foram -, mas sem perder a inquietude estética.

Personagem de Dario
Por isso, seu novo longa, uma cartografia do envelhecimento, tanto de pessoas quanto do cinema, é narrado com uma tela dividida, com ações distintas acontecendo em dois hemisférios paralelos, construídos a partir de improvisos com o elenco. E é em sua trupe que Noé tem seu principal chamariz: ao lado da veterana Françoise Lebrun e do jovem Alex Lutz está em cena um mestre do terror, o diretor Dario Argento. E a atuação do diretor comoveu Locarno, no retrato de um artista acossado pelo tempo e pela gradual destruição da lucidez de sua mulher.

"Falava sempre ao Dario: ‘Você é o diretor aqui, pois eu sou seu aprendiz’. E, ele, de uma doçura notável, embarcou nas minhas ideias e improvisou. Eu trouxe fotos dele jovem para a narrativa, que usa muitos elementos do passado. Era um homem lindo aos 20 anos... e ainda é, hoje, aos 80. Mas eu queria aquela imagem de ontem, de outrora, num painel vivo sobre o envelhecimento, filmado basicamente numa locação", explicou Noé ao Estadão, em Locarno, onde exibiu Vórtex fora da competição.

"Quando soube que havia um antigo apartamento vazio, em Paris, fui lá com meu diretor de fotografia, Benôit Debie, e decidimos transformar aquela locação em um mundo paralelo, no qual o casal guarda quinquilharias que nos apontam aquilo que há de perene", diz Noé. "A gente se enfurnou lá, para proteger a equipe do contágio da covid, e rodamos em 25 dias."

Na trama, o personagem de Dario não usa computadores, preferindo datilografar suas ideias. O que Noé faz é desfiar o novelo de duas vidas ameaçadas pelo esquecimento. "Assim que escrevi as primeiras dez páginas de Vórtex, fui à Argentina visitar meu pai (o pintor e escritor Luis Felipe Noé), que está com 88 anos. Minha mãe (Nora) teve Alzheimer. Lembro que, quando contei para ele o que estava pretendendo filmar, tomei uma bronca: ‘Veja lá o que vai falar da gente’. Foi quando percebi que não poderia tornar Vórtex um desabafo pessoal, mas uma reflexão mais universal."






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