'Valerian' é um comic diferente

Publicação: 2017-08-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Carlos Merten - AE

Luc Besson tinha 10 anos quando descobriu as aventuras de Valerian. Laureline, a parceira do herói, foi seu segundo amor - o primeiro foi a garota no final de Mógli, a revisão de Rudyard Kipling (O Livro da Selva) pela Disney. Besson amava Valerian e Laureline porque, embora vivessem no espaço, pareciam próximos dele. "Brigavam, se divertiam, questionavam tudo, eu achava o máximo", disse. Besson veio ao Brasil acompanhado pelo ator Dane DeHaan. Deram uma coletiva, entrevistas individuais, tudo para promover Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, que estreou na quinta-feira. DeHaan e Cara Delenvigne formam o casal de protagonistas.
DeHaan e Cara Delenvigne formam o casal de protagonistas de “Valerian e a Cidade dos mil planetas”
DeHaan e Cara Delenvigne formam o casal de protagonistas de “Valerian e a Cidade dos mil planetas”

Nos EUA, a revista The Hollywood Reporter decretou o fracasso e disse que não é mais preciso procurar pelo próximo vencedor da Framboesa de Ouro, para o pior filme do ano. Besson já venceu antecipadamente, e por Valerian. Injustiça, e da grande.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é bom, mas está na contramão das ficções científicas de super-heróis que ditam as cartas em Hollywood. Besson odeia esses filmes de homens de uniformes, dotados de superpoderes. E quanto a ser o pior - só se De Canção em Canção, o novo (velho) Terrence Malick for hors-concours e não puder concorrer.

Laureline não é uma super-heroína, mas é forte. "Fui criado por minha mãe, e isso marcou", diz o diretor. E o filme é de amor. A dupla tenta salvar o universo - um planeta, em especial - do louco militarista que inicia uma escalada destruidora para esconder seu crime. Não é bem o lado escuro da Força, mas o brilho do amor. Valerian é mulherengo e precisa esvaziar sua lista de conquistas para chegar a merecer Laureline - é a lição que ele aprende com Bubble, a personagem de Rihanna, que rouba cena numa performance no cabaré espacial.

Um filme de amor

Besson trabalhou na adaptação de Valerian nos últimos sete anos. Só os efeitos lhe tomaram dois anos e meio. "Houve momentos nesse período em que eu me sentia mais em Alpha do que pertencendo ao mundo real. Mas aí você chega em casa depois de um dia no estúdio e a mulher e os filhos te despertam correndo do sonho. ‘Vai colocar o lixo lá fora’, ‘Pai, preciso de tênis novos.’ Como artista, vivo a contradição. Sonho alto, mas são as banalidades do cotidiano que me humanizam." Por falar em humanidade, Besson conta o que o atraiu na história - "Foi o fato de os alienígenas virem dar lições de gente aos humanos." Um filme de amor não corre o risco de ser piegas, banal? "Pode até ser, mas sem afeto e respeito à diversidade, não vejo esperança."

O filme abre-se com imagens de tolerância. Embaixadores de todo o mundo apertam-se as mãos. Alguns são tão estranhos que nem mão têm. Como se cria toda essa bizarrice? "Muita coisa vem do comic (Valerian é um comic francês). Mas a verdade é que reuni uma centena de artistas gráficos e conceituais muito talentosos. Havia um brasileiro entre eles, por sinal. E cada um me trouxe sua visão." Para um cara que trabalha com tecnologia de ponta - e muitos efeitos -, Besson chega a ser engraçado. "Sou ruim com esses novos aparatos. Volta e meia meu filho me ajuda com o celular e o iPad. ‘Não é assim, pai’, é o que mais ouço dele. Ainda escrevo minhas histórias à mão. E ouvindo música." As músicas que vai colocar na trilha? "Em geral, só penso depois. No caso de Valerian, havia comprado os direitos do (David) Bowie há quatro anos e sabia que ia usar (na abertura)."

Em 2000, Besson presidia o júri de Cannes e o festival promoveu um grande seminário para discutir novas tecnologias. Besson e seu júri ratificaram o novo, premiando Lars Von Trier - Dançando no Escuro. Imaginava que tudo ia evoluir tão rápido? "Desde a passagem do silencioso para o sonoro, as grandes transformações têm sido vertiginosas. A questão é - no fim de toda mudança, seguirá sendo cinema?" Três anos depois de Lucy, o repórter enfim pergunta a Besson - a mulher (Scarlett Johansson) que vira computador é a sua interpretação da gênese de Hal 9000, o supercomputador da obra-prima de Stanley Kubrick, 2001? "Mais ou menos. O que Lucy diz no fim? Que estará em toda parte e será invisível. E quem é onipresente e invisível? (Deus.) Para mim, é o nascimento da religião."



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