“Vamos crescer, a despeito da crise”

Publicação: 2011-09-04 00:00:00
Renata Moura
Editora de economia

Turbulências que rondam a economia dos Estados Unidos e  países da Europa têm deixado o mundo de orelha em pé, ajudaram a reduzir a taxa básica de juros do Brasil - na última semana – e, para o turismo, poderiam significar prejuízo. Poderiam, mas não vão. A convicção vem do presidente do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), autarquia do Ministério do Turismo responsável pela promoção do país no exterior, Flávio Dino. Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, ele faz projeções de crescimento  para o setor, fala sobre os ganhos esperados com megaeventos esportivos e sobre a recente divisão do “bolo” para os Estados incrementarem a divulgação de seus destinos lá fora. Um total de R$ 12 milhões será dividido. E R$ 471.677, ou 3,93%, poderão ser abocanhados pelo Rio Grande do Norte. Flávio Dino não fala apenas de números. Ele é advogado, professor de Direito e ex-deputado federal. Foi empossado no dia 29 de junho na presidência da Embratur. É o sucessor de Mário Moysés, um dos denunciados na operação Voucher – deflagrada pela Polícia Federal no início de agosto para investigar suspeitas de desvio de recursos no Ministério do Turismo. O novo presidente da Embratur diz que o episódio provocou mudanças de procedimentos dentro do instituto, não tece críticas a ninguém, mas observa que é preciso avançar no sistema de controle e monitoramento para a boa aplicação de recursos. Confira os principais trechos da entrevista:
Flávio Dino, presidente da Embratur
O turismo foi, sem dúvida, um dos setores mais afetados com a crise mundial que eclodiu em 2008. E agora, que as turbulências voltam a rondar alguns países, o que o setor está esperado?

Nós teremos um ótimo ano. O melhor ano da nossa série histórica, seja no que se refere à entrada de turistas, seja no que se refere à entrada de divisas. Nós tivemos um crescimento nos últimos oito anos da ordem de 139% no que se refere ao ingresso de dólares, representando, em 2010, termos o patamar de 5,9 bilhões de dólares e no que se refere ao ingresso de turistas, em 2010, obtivemos a marca de 5,1 milhões de estrangeiros. Seguramente este ano iremos ultrapassar ambos os números, mostrando que de fato há uma crise nos mercados emissores, porém o resultado das atividades promocionais, da melhoria crescente da imagem do Brasil, no cenário internacional, fará com que cheguemos no que se refere à entrada de dólares a algo em torno de 6,5 bilhões de dólares, com um crescimento médio de pouco mais de 10% em relação ao ano passado, e com que possamos ultrapassar  a marca de 5,4 milhões de turistas estrangeiros. Então é um cenário bastante bom. Um cenário que mostra a continuidade do crescimento. Naturalmente, diante da crise em alguns países emissores estamos reposicionando a nossa estratégia comercial de modo a garantir a continuidade desse ciclo de crescimento. 

Apenas ações promocionais são suficientes para garantir crescimento, num momento em que países estão retraídos e a população evita viajar para destinos mais caros, como é o caso do Brasil, onde a moeda está valorizada?

As ações promocionais são parte da receita do sucesso. Nós temos hoje, diante dos mega eventos, uma ampliação da projeção da nossa imagem, e uma melhoria crescente na nossa infraestrutura. A soma disso, com as ações promocionais, garante que, não obstante haja uma crise internacional, nós possamos continuar a crescer. Quando há pouco me referia a reposicionar nossa estratégia comercial é exatamente levando em conta isso: a existência de dificuldades em outras nações do globo, fazendo com que nós, neste momento, por exemplo, busquemos de modo mais incisivo, de modo mais presente,  a nossa participação no mercado sul americano.

O mercado sul americano é  então a grande aposta, em momentos como esse?

É uma aposta que não é excludente em relação ás demais. Mantemos as nossas ações no mercado europeu, mas nos últimos anos nós temos verificado um crescimento dos países sul americanos. Hoje nós temos 75% da malha aérea brasileira posicionada em relação aos países da América do Sul e aos Estados Unidos, ao mesmo tempo nós temos no nosso subcontinente sul americano um momento bastante promissor em que se conjugam democracia política, crescimento econômico e distribuição de renda.

Que paralelo é possível fazer entre o Brasil e o turismo que se tinha em 2008 e o que se tem hoje? O cenário mudou tanto assim para assegurar que o setor está mais forte para atravessar esse momento?

Há duas diferenças fundamentais. A primeira é que agora as expectativas na sociedade brasileira são melhores que em 2008. Ou seja, o fato de em 2008 termos conseguido atravessar a crise de modo muito melhor que outros países fez com que nesse instante não haja previsões tão catastrofistas como havia três anos atrás. Isso influencia na decisão de investimentos dos nossos empreendedores, sejam nacionais ou estrangeiros.  A outra diferença fundamental é que estamos atravessando uma década especial, o que faz com que também haja uma expectativa muito favorável, seja dos nossos próprios agentes econômicos, especificamente do setor turístico, seja também no que se refere aqueles que estão nos mercados emissores. Então o fato de nós termos o cenário mais favorável faz com que seguramente nós possamos atravessar essa crise mundial olhando para adiante, para essa grande sequência de eventos que já se inciou com os jogos mundiais militares no Rio de Janeiro e que continuará com a  conferência das nações unidas Rio+20, no ano que vem, com a jornada mundial da juventude, recentemente anunciada pelo papa Bento XVI, com a Copa das Confederações, a Copa do Mundo, a Copa América, os jogos olímpicos e paraolímpicos. E estamos na expectativa de que Brasília consiga êxito na sua candidatura para os jogos olímpicos universitários, a Universíade, em 2017. Isso significa que teremos uma enorme exposição do país. Esse cenário positivo e os megaeventos farão com que, ao terminar essa década, nós tenhamos alcançado patamares mais altos de participação no mercado turístico internacional.

Para o Nordeste, especificamente, qual é a projeção de crescimento para este ano?

Nós temos uma continuidade das ações promocionais especialmente voltadas para o Nordeste, em parceria com o CTI Nordeste, com os secretários de turismo da região. Lançamos, por exemplo, uma campanha promocional na Espanha e em Portugal que são importantes emissores de turistas para o Brasil e especialmente o Nordeste. Temos feito continuadas ações de divulgação envolvendo a região.  E acreditamos que isso fará com que possamos continuar a crescer também na região Nordeste. Além disso temos um grande crescimento do mercado doméstico, o que é altamente positivo e garantirá que o empresariado do setor  possa obter ótimos números, seja no que se refere ao turismo doméstico, seja no que se refere ao turismo internacional.

A Associação Portuguesa de Agências de Viagem e Turismo apontou, em matéria recente do Valor Econômico, que a promoção do turismo brasileiro, principalmente o nordestino, foi reduzida em Portugal. Esse fator, aliado ao Euro enfraquecido diante do Real teria contribuído para reduzir o fluxo de portugueses na região. O senhor concorda com essa análise?

É um fato público e notório que alguns países da Europa atravessam dificuldades, entre os quais três importantes emissores de turistas para o Brasil: Itália, Espanha e Portugal. Então é normal que haja uma dificuldade transitória. Porém, estou ao lado daqueles que acreditam que muito em breve esse cenário irá melhorar a partir da retomada do crescimento da economia norte-americana, a continuidade da força dos chamados BRICs, entre os quais figura o Brasil, fazendo com que a Europa também possa retomar seu curso de crescimento.  

Mas a Embratur reduziu os investimentos nesse destino?

De modo algum. Pelo contrário, nós temos realizado sucessivas ações. Não é porque há uma crise nesses países emissores que nós vamos abandoná-los.

Falando especificamente do Rio Grande do Norte, o Estado fechou o ano passado com uma queda de 60,42% no fluxo global de turistas estrangeiros, na comparação com o total registrado em 2006, quando atingiu o ápice. É mais difícil recuperar a demanda quando há uma perda tão grande?

Eu tenho certeza que o Rio Grande do Norte vai recuperar, inclusive porque terá o privilegio de ser um dos estados que sediarão a Copa do Mundo. Então as obras que estão sendo realizadas, os investimentos públicos e privados, associados a essa projeção de imagem que especialmente Natal e roteiros associados terá, garante que essa retomada ocorrerá. Não podemos pegar um determinado ano como referência e a partir daí fazer previsões pessimistas. Temos que olhar a tendência. E a tendência é de crescimento do turismo no Brasil, e o Rio Grande do Norte.

A Embratur disponibilizou recentemente recursos para os Estados incrementarem as ações de promoção no mercado internacional. No caso do RN foram R$ 471.677. Quando o dinheiro foi liberado?

Há cerca de 10 dias. E temos a expectativa de que os estados rapidamente apresentem os projetos e possam, com isso, usar ainda este ano esses recursos. Estamos prontos, inclusive, a  discutir a ampliação dos valores.

O valor recebido pelo Rio Grande do Norte é o mesmo que São Paulo receberá. Em que critérios os destinos se igualam?

Nós utilizamos como critérios aqueles que foram definidos no Fornatur (o Fórum Nacional dos Secretários e Dirigentes Estaduais de Turismo).  Esses critérios levam em conta a existência de aeroporto internacional no estado, a participação em feiras internacionais, o fluxo turístico.. Tem uma fórmula matemática para definir o valor. Essa fórmula não leva em conta o tamanho do estado, o PIB, nada disso.

Já que o assunto é liberação de recursos, gostaria de saber se a “Operação Voucher” de alguma maneira comprometeu as ações da Embratur.

Não houve um comprometimento. Até porque não houve nenhum fato que se referisse diretamente à Embratur. É normal que haja revisão de procedimentos em relação especialmente à celebração de convênios com organizações não-governamentais. Como tenho dito, o modelo de parceria público privada é acertado, necessário, porém nós precisamos avançar no que se refere à seleção das entidades não governamentais que receberão recursos. E também no que tange ao sistema de monitoramento e controle para garantir a boa aplicação dos recursos. Determinei uma auditoria em convênios-contratos, suspendemos parcialmente a celebração de novos convênios com entidades não-governamentais, fixei em portaria da presidência que a contratação de novas ONGs se daria exclusivamente por intermédio de chamamento público, uma espécie de licitação, e estamos buscando planos de trabalho e convênios que sejam mais claros no que se refere ás metas, para possibilitar uma melhor aferição da eficácia desses instrumentos. Essa crise, na política, no turismo, possibilitou algumas medidas na Embratur que, a meu ver, aperfeiçoarão as nossas ações futuras.

A Embratur ficará então mais rigorosa...

Nós estamos evoluindo, buscando aprender com problemas que estão sendo detectados em outros âmbitos, em outros órgãos do governo, exatamente para ter uma ação preventiva. O foco principal das minhas decisões administrativas é exatamente a prevenção, visando garantir que no futuro não haja um questionamento quanto à transparência das nossas iniciativas.

O momento ainda é de crise para o turismo dentro do governo ou já passou o período de turbulências?

Nós temos um quadro em que há uma crescente retomada da normalidade.

Ouça a entrevista na íntegra em http://blog.tribunadonorte. com.br/mercado.