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Vamos fazer uma revolução parecida com a dos IFs, diz secretário de Educação
Publicado: 00:00:00 - 13/01/2019 Atualizado: 11:03:35 - 14/01/2019
Anthony Medeiros
Repórter

À frente da pasta da Educação, Getúlio Marques afirma que "o ideal é que a educação tenha mais recurso", mas que a equipe está preparada para "trabalhar com o que existe". As metas, segundo ele, "vão ser compatíveis ao orçamento, com uma gestão compartilhada através do apoio de parceiros". A educação tem um orçamento projetado em R$ 1,4 bilhão. "Queremos fazer uma revolução parecida com a que tivemos anteriormente nos IFs, saindo de duas unidades de institutos federais para 21", afirma o professor que foi o coordenador do processo de concepção, criação e expansão dos Institutos Federais. Uma das metas da SEEC, anuncia, é ter, em 2022, pelo menos 50% das unidades de ensino médio em regime de tempo integral profissionalizante. Para melhorar o desempenho dos alunos e os indicadores do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) a pasta vai apostar em parcerias com todas as instituições de ensino, "trazendo a contribuição forte das universidades e instituições federais".  Getúlio Marques aborda ainda o novo piso salarial do magistério, as articulações para evitar o fim do Fundeb em 2020 e as prioridades na reestruturação física da rede de ensino. Confira a entrevista.

Adriano Abreu
Getúlio Marques Ferreira, secretário de Educação do RN

Getúlio Marques Ferreira, secretário de Educação do RN

Getúlio Marques Ferreira, secretário de Educação do RN

Como o atual governo recebeu a pasta da Educação? Algum projeto da antiga gestão será continuado?
Recebemos [o Estado] exatamente como esperávamos. Com as dificuldades que sabíamos que existiam e indicadores que precisamos melhorar. Se tivéssemos recebidos todas as informações, teríamos feito um plano mais detalhado durante a transição. Não estou culpando a secretária anterior ou o grupo de trabalho que por aqui passou, pois sabemos das dificuldades. Porém esse atropelo, esse período sem receber tantas informações atrasou um pouco o nosso planejamento. Daremos sequência a tudo que for de bom, o que tiver sido discutido por nossas equipes vamos continuar. Uma delas é a educação em tempo integral, que começou a ser aplicada e trabalhada no governo anterior e devemos dar continuidade.

Exatamente sobre as escolas de tempo integral, de que forma será feita essa ampliação? Quais as metas definidas?
Devemos ser leais ao nosso programa de governo e lá fala sobre utilização e ampliação da rede de escolas de tempo integral. Para isso, precisamos dar sequência ao planejamento estratégico com reuniões pedagógicas integrando equipes gestoras, passar para novas implementações e, ao final de 2019, avaliar o que foi feito. Em um segundo momento, programar ações para os três anos seguintes, garantindo a sequência da ampliação para que, no último ano desse primeiro mandato da governadora [em 2022], possamos estar com pelo menos 50% das escolas de ensino médio em regime de tempo integral.

O RN segue com índice baixo no Ideb e avançou muito pouco nos últimos anos. Como o Estado pode reverter esse quadro?
Isso é uma questão histórica de todo o Brasil. O caso é mais preocupante aqui no RN e precisamos pensar o que fazer. Temos planos de fazer melhorar projetos que serão aproveitados da gestão anterior. Devemos alterar o modus operandi, fazendo algo mais discutido, com mais participação. Entendemos que quanto mais as pessoas se sentirem pertencentes, mais esse projeto será vitorioso. O que vamos apostar é em uma parceria com todas as instituições de ensino, trazendo a contribuição forte das universidades, institutos federais. Com esse caminho, podemos aprender com eles e sair dessa incômoda posição.

Que parcerias estão sendo pensadas para melhorar esses resultados?
Durante a elaboração do plano de governo já conversamos com muita gente e, a partir disso, sentimos como várias partes da sociedade sentem a vontade de fazer parte do projeto. Foram ouvidos reitores de universidades,  presidentes de federações de comércio e indústria, além dos próprios deputados da ALRN, onde teríamos minoria, mas que hoje são apoiadores por entenderem que o Estado é prioridade. Apostamos na capacidade da governadora de dialogar para que o nosso projeto continue sendo implementado da melhor forma.

A educação tem um orçamento projetado em R$ 1,4 bilhão. É suficiente? Que prioridades estão sendo elencadas?
O ideal em educação é que tenha mais recurso. Porém, estamos preparados para trabalhar com o que existe. As metas vão ser compatíveis ao nosso orçamento, com uma gestão compartilhada através do apoio de parceiros, fazer, digamos, uma revolução parecida com a que tivemos anteriormente nos IFs, saindo de duas unidades de institutos federais para 21. Tudo foi feito com um trabalho apoiado por prefeitos, vereadores, redes estaduais. A educação não é do Estado, do município ou do País. A educação é de todos.

O novo piso da educação sera implantado de imediato? Haverá dificuldades?
Vamos cumprir. Nosso compromisso é pagar o que é direito do nosso servidor. Sei da realidade de diversos estados do Brasil que sequer cumprem o piso, mas aqui não só cumprimos, como iremos reajustar de acordo com a lei. O que precisamos, agora, é do instrumento legal. Já estamos fazendo os estudos, enviaremos para a Assembleia para que seja aplicado o reajuste.

O governo já pensa em iniciar articulações para evitar o fim do Fundeb em 2020?
Sim. A experiência da governadora Fátima é fundamental para isso. É possível que ela lidere esse processo, até porque já liderava enquanto senadora. Já temos projetos no senado, articulações com a Câmara dos deputados para que em 2020 seja renovado e ampliado o Fundeb.

Que diagnóstico o senhor tem da rede estadual de educação? Quais os problemas mais críticos e como serão atacados?
A rede hoje é enorme. São 608 escolas e muitas delas apresentam problemas de infraestrutura. Tal ponto que os órgãos controladores estão sempre nos cobrando que melhoremos as estruturas das nossas escolas. Nosso plano de contingência está revendo critérios e, talvez, possamos inverter as pautas visando as escolas que estão em pior situação, podendo ser atacadas primeiro.

Há planejamento para reformas, ampliações e construção de novas unidades de ensino?
Sim, existe. Estamos trabalhando as prioridades e precisaremos de um pouco mais de tempo para  que possamos receber e ouvir diretores dessas escolas. Temos contratos de manutenção de forma permanente para que equipes de engenharia resolvam, de imediato, alguns tipos de problemas. A reestruturação, que é deixar a escola com cara de escola, também está em nossa pauta. A partir daí, deixando nossas escolas com a qualidade necessária para que os alunos possam estudar.

Como enfrentar o problema da distorção idade-série que ainda é alta no RN?
Um dos caminhos é o mecanismo da busca ativa dos alunos que abandonam a escola. Nós temos que tentar buscar o uso da tecnologia para ter mais agilidade nesses processos. Hoje possuímos cooperação do Metrópole Digital que, na medida que formos fechando esses processos, pode se fazer uma busca georeferenciada. Conforme trazemos essas ferramentas pra dentro da escola, o diretor pode, a todo dia, saber quais os alunos deixaram de frequentar a sala de aula e buscar os motivos para que isso seja coibido.

Que nível de prioridade terá a UERN?
A UERN é outra questão prioritária. Agora, para nosso governo a educação não é feita em um só nível. A educação vai da creche ao nível superior. Os mesmos esforços que teremos no nível mais básico, teremos para a UERN. Para nós, o que se investe por lá tem retorno para o Estado sim. Sem a UERN, teríamos 80% a menos de professores na rede básica do Estado. Então aquelas cidades mais distantes só têm professor porque o Rio Grande do Norte tem a Uern. Significa que é um centro de excelência? Não. Mas a Uern vai ter todo o nosso apoio para que a instituição cresça e alcance indicadores cada vez melhores.

Como preparar melhor os alunos da rede pública para enfrentar o Enem?
Na minha visão, se tivéssemos um sistema educacional bem sólido, não precisaríamos de uma preparação suplementar, que é o cursinho. Sempre fui estudante de escola pública e acabei não precisando dessa modalidade de apoio, pois a preparação era tal, que conseguimos a aprovação. O natural seria isso, mas infelizmente não é assim para a grande maioria. Existem atualmente projetos específicos (e que daremos continuidade) para que, aquilo que ficou em falta na sala de aula, possa ser complementado em algum momento. No Estado, existe essa preocupação de que o aluno precisa ascender. Como o Enem é a porta de entrada para grande parte das instituições, nós precisamos cuidar desses alunos do Estado, para que eles não fiquem de fora da educação superior.

Como o senhor avalia toda essa polêmica da escola sem partido, que pede fim da chamada 'doutrinação ideológica nas escolas'?
Isso é um fake político. Se existisse isso, nós teríamos todos (ou quase todos) os advogados, engenheiros, professores, marxistas. Isso nunca existiu. O que existe, principalmente depois da constituição de 1988, é a possibilidade da escola ser plural. Você chega na Unicamp, tem um grupo que defende, de fato, a questão marxista na economia, mas tem outro grupo que defende a versão capitalista. A partir da discussão acadêmica, cada um cresce intelectualmente.


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