Natal
Veja como Porto de Natal virou rota internacional do tráfico
Publicado: 00:00:00 - 28/11/2021 Atualizado: 15:52:13 - 29/11/2021
Ícaro Carvalho
Repórter

Era por volta de 15h de uma tarde ensolarada no Porto de Natal. A fiscalização de rotina, mesmo num sábado, fazia parte da checagem das cargas que passam pelo espaço. Era o último de cinco conteineres vistoriados durante aquele dia e todos estavam “limpos”. Após duas checagens no scanner, o auditor fiscal Maurício não se sentiu satisfeito e ordenou: “Vamos abrir esse aqui”. Era a verificação invasiva da carga. O faro da suspeita se confirmou logo em seguida com os cães: um lote de 265kg de cocaína estava no meio das mangas para ser enviada à Holanda. Há quase três anos, o Porto de Natal vem sendo utilizado para o escoamento da droga à Europa, por um ou mais grupos criminosos. Parte ou a totalidade dessa atividade é chefiada pelo “Pablo Escobar Brasileiro”, como é conhecido Sérgio Roberto Carvalho, um dos maiores narcotraficantes do mundo, segundo a Polícia Federal.

Cedida
Uso do porto por quadrilha de alcance internacional fez com que mais de 17 mil quilos de cocaína tenha sido apreendida no mundo com passagem por Natal

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O Major Carvalho, 63, como é conhecido, atualmente está desaparecido e procurado pela Interpol. As últimas informações são de que ele tenha fugido para a Ucrânia numa aeronave própria. Segundo as investigações, ele utiliza  de um grandioso esquema em portos do Brasil, incluindo o de Natal, para transportar drogas à Europa. A Justiça estima que o Major Carvalho exportou 45 toneladas de cocaína, o que resulta em R$ 2 bilhões em drogas.

O papel do Rio Grande do Norte no esquema internacional comandado pelo Major Carvalho ocorre com métodos e técnicas para driblar a Receita e Polícia Federal. O principal método é o Rip On/Rip Off, que consiste na quebra do lacre do conteiner, inserção da droga (Rip On) e colocação de outro lacre, sem conhecimento do exportador/importador da carga lícita. Na descarga no destino, há o movimento inverso e o contêiner é reaberto para retirada da droga (Rip Off). 

“Não se tem um padrão único. Há mudanças de metodologia na medida que as drogas são apreendidas. A Receita vai olhando isso e vai tentando identificar novas formas de contaminação de cargas”, explica o chefe da Equipe de Vigilância e Repressão da Receita Federal, o Auditor-Fiscal Maurício Santos. 

Nestes casos, a droga já entra no Porto através dos caminhões dos contêineres, isto é, a carga já contaminada. Em alguns casos, a droga é embalada a vácuo e misturada com mostarda, para enganar cães farejadores. 

Como o Porto de Natal exporta apenas frutas e pescados, a droga é ocultada nas cargas refrigeradas. As investigações apontam que nesses casos é necessário o aluguel de galpões para esconder a droga e preparar a ocultação no contêiner. Segundo a denúncia, o aluguel desses galpões e barracões (com compartimentos ocultos e subterrâneos) são feitos mediante documentos falsos. O esquema, portanto, precisaria da participação do exportador ou da empresa estufadora e do caminhoneiro que leva o contêiner.

Isso aconteceu em pelo menos duas situações no Rio Grande do Norte. Em novembro de 2018, a Polícia Federal apreendeu 1.400 kg de cocaína no subterrâneo de um galpão em Parnamirim. A droga seria escoada pelo Porto em direção à Europa.

Em outro caso, em Emaús, a PF apreendeu uma carga de 283 quilos de cocaína, escondida na carroceria de um caminhão que estava no Porto de Natal para pegar um contêiner vazio. O caminhão foi seguido por policiais federais de um galpão localizado em Emaús, na Grande Natal, até o terminal na Ribeira.

Quatro pessoas sem relação com o Porto foram presas em flagrante. Os policiais federais encontraram lacres de contêineres com esses suspeitos presos. A Polícia Federal investiga a participação de funcionários do Porto no esquema. 

A reportagem procurou a Polícia Federal para repercutir o assunto, mas foi informada que a PF não se pronuncia sobre investigações em curso. 

Rota
Desde 2019, Natal passou a ser uma das rotas utilizadas pelo crime organizado para transportar a droga para a Europa. No entanto, boletim recente da Receita Federal enviado à TRIBUNA DO NORTE mostra que essa droga já passava pelo Porto desde 2017, mas só foi apreendida ao chegar em solo europeu. É a chamada análise de risco. 

“O trabalho não para quando o navio sai. Fazemos uma reanálise e às vezes recebemos novas informações que não foram consideradas na análise anterior”, explica o chefe da Equipe de Vigilância e Repressão da Receita Federal, o Auditor-Fiscal Maurício Santos. 

Em números absolutos, foram apreendidas 17 toneladas de cocaína de em quatro anos. Dessas 6.190 kg foram apreendidos ainda em Natal, enquanto o restante na Holanda, Bélgica e Espanha, após alertas emitidos às aduanas dos países.

O auditor fiscal Maurício Santos aponta que a localização do Porto e a proximidade de Natal com a Europa são fatores que explicam a capital estar na rota do tráfico. “Natal é o último Porto antes do navio ir para Europa. O navio passa pouco tempo aqui, média de três dias”, acrescenta.

Além disso, até outubro do ano passado, o Porto de Natal operava sem scanner de conteiners, situação que só mudou após uma empresa que atua no local bancar a instalação do equipamento. 

A TN visitou o Porto na última quinta-feira (25), numa visita guiada pela Receita Federal. O scanner tem capacidade de vistoriar 15 conteiners por hora. Por semana, um navio passa pelo Porto. Uma carga só é aberta para inspeção invasiva quando a vistoria via scanner não é satisfatória. “Antes de tirar a carga utilizamos ainda os cães de faro”.

A Companhia Docas do Rio Grande do Norte não respondeu os questionamentos da TN até o fechamento da reportagem. 

Cocaína renderia R$ 178 milhões para o tráfico
As apreensões de cocaína no Porto de Natal geraram, em 2021, um prejuízo de pelo menos R$ 178 milhões ao tráfico internacional. Ao todo, foram apreendidos 815 quilos da droga saindo do Porto em direção à Roterdã, na Holanda. No último sábado (20), 265 quilos foram apreendidos numa carga, em caixas de manga. A quantidade é avaliada em R$ 58 milhões, segundo estimativa da Receita Federal.

O prejuízo ao crime organizado aumenta para R$ 440 milhões quando se somam apreensões de 1.198 quilos na Holanda e na Bélgica, mas que passaram por Natal, ao longo do ano, após alertas emitido pela Receita Federal à aduana europeia. O cálculo feito pela TRIBUNA DO NORTE pega como base as estimativas sobre os valores da droga no mercado disponibilizados pela Receita e Polícia Federal.

Em 2021, outras quatro cargas foram apreendidas, três delas, segundo a Receita Federal, resultados de interceptações das autoridades aduaneiras da Holanda e Bélgica. As cargas eram de 398 (março, na Holanda); 550 quilos (abril, na Holanda), 250 quilos (junho, na Bélgica).  Em junho, 550 quilos de cocaína foram apreendidas durante uma inspeção das autoridades federais no Porto de Natal. Portanto, 765 quilos foram interceptados antes de embarcar em Natal e outros 1.198 quilos após o embarque. As quantidades constam no mais recente boletim da Receita Federal com o histórico de apreensões, envido à TRIBUNA.

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