Velhos negócios se garantem

Publicação: 2018-08-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França-Repórter
Colaborou: Cinthia Lopes-Editora

Alugar um DVD na locadora  ou curtir um disco do começo ao fim num aparelho de CD ou toca-discos, são práticas nunca feitas por boa parte da nova geração ou relegadas à memória de quem já passou dos 30. O que não quer dizer que não existam mais. Velhos negócios que foram atropelados pela tecnologia dos últimos 10 anos  conseguem se manter em funcionamento, justamente por apostar em seu produto “fora de moda” como um diferencial num mercado contemporâneo que gira em torno da internet e suas facilidades. O antigo sabe como se  adaptar com  charme e inteligência.

Com 23 anos de mercado, Planeta Vídeo deixa local atrativo com café vintage e novos produtos
Com 23 anos de mercado, Planeta Vídeo deixa local atrativo com café vintage e novos produtos

Cinema e café
A Planeta Vídeo, em Petrópolis, vai completar 23 anos em dezembro, sem a menor intenção de sair de cena. “Vez por outra entra um curioso impressionado por estarmos funcionando. E sempre com a pergunta 'por que?'. Para mim isso nem é uma questão. Se tem gente que ainda nos procura, por que eu deveria fechar?”, afirma o proprietário João Batista Júnior. A locadora mantém o seu acervo de 10 mil filmes, entre DVDs e discos blu-ray – e não abre mão de receber os lançamentos, mantendo-se atualizada.

A clientela, claro, diminuiu com o passar do tempo, mas acabou formando uma outra mais seleta, que não abre mão do material original e com qualidade. E que gosta de falar sobre cinema. “Quem se manteve alugando filmes gosta de se sentir como se fizesse parte de um clube. Quando essas pessoas se encontram rolam altos papos sobre cinema. Sempre houve esses grupos informais de conversa, mas agora está mais forte porque o mercado das locadoras encolheu”, diz.

João Batista Júnior diz que clima de cineclube atrai a clientela mais antiga
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Júnior ressalta que o acervo de clássicos da Planeta – que é bastante rico e diversificado – é o segmento mais procurado pelos clientes. A locadora também sempre recebe relançamentos, novas edições, raridades e filmes de arte que não se acham facilmente nos torrents ou em sites de streaming. “Os clientes de hoje levam de cinco a dez DVDs de uma vez. É vantajoso para nós, já que temos menos associados do que alguns anos atrás”, explica. O blu-ray se manteve forte pela qualidade superior da imagem.

Os constantes bate-papos na locadora fortaleceram a decisão de  criar um café anexado ao local. Surgiu assim o Cine Vintage Café, espaço charmoso com poucas mesas, balcão, e uma chamativa varanda decorada por um painel onde Marilyn Monroe, Elvis Presley, James Dean e Humphrey Bogart se encontram numa animada conversa. “A clientela pediu muito esse espaço para conversar. E vem gente que nem pede vídeo na locadora”, diz. O café ainda está em processo de formalização. A partir daí terá um cardápio com mais opções em bebidas e quitutes.   

Mudanças no roteiro

A Vídeo Laser Locadora é referência há 27 anos no mercado natalense. Mesmo assim, também sentiu o peso do mercado, e há dois meses fechou seu antigo endereço e se mudou para Lagoa Nova. Boa parte do acervo de mais de 20 mil títulos foi posta à venda (para a felicidade dos colecionadores). O acervo atual é menor e mais seleto, focado nos clássicos e em alguns títulos mais comerciais. O locadora segue recebendo os lançamentos, ao lado dos filmes de arte, cinema europeu, e títulos raros em geral. “Sempre vai ter gente que não tem paciência pra baixar filmes ou comprar piratas. Esse é o nosso público atualmente”, afirma a proprietária Fátima Alves.

Locadora tem acervo diversificado que inclui dvds de filmes clássico à boa música
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A comerciante também percebeu a mudança do perfil do público. “Locadora não é mais aquele lugar frenético de antigamente. É um espaço mais reservado, bom para conversar”, diz. Por isso mesmo, ela adianta que até outubro a Vídeo Laser vai abrir uma nova loja num espaço comercial de salas em Lagoa Nova. O local contará com um café, visando receber a clientela que gosta de bater papo e ser acolhida. “Depois de tanto tempo, eu mesma quero uma coisa mais light”, brinca. A VL trabalha com DVD e blu-ray. E ainda tem uns exemplares à venda.

Veterana moderna
A Canal Um já viu esse filme. Uma das mais antigas locadoras do Nordeste, com 34 anos de estrada, também precisou se reinventar para sobreviver na área. Há 15 anos passou a investir em equipamentos de áudio e vídeo e hoje é especializada em montagem de “Home Cinema”, para quem deseja a qualidade do cinema em casa. Mesmo assim não abriu mão das origens: ainda tem um acervo de DVD e blu-ray para aluguel, além de comercializar toca-discos e CD players novinhos para quem não abriu mão dessas maravilhas do século XX.

Com um acervo de 7 mil bolachas, Sebo Toca Disco é referência para fãs de raridades em vinil
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O proprietário Ronaldo Miranda conta que a questão da segurança fez muita gente investir  no material em casa. “As pessoas estão com medo de sair, e aí procuram um material de alta qualidade para ver em casa”, afirma. O 'home cinema' consiste em televisão, caixa de som, receiver, subwoofer ativo e DVD (opcional). A pessoa pode ver os streamings da internet, canais pagos, e tudo que quiser, com conforto e alto padrão de imagem e som.

A Canal Um se modernizou, mas conservou parte de seu público atrelado às raízes. O perfil da maioria da clientela, ressalta Ronaldo, é acima dos 40 anos. “Tem sim a nostalgia, mas eu também acho que é mais do que isso. É um pessoal que conhece a qualidade do que se fazia antigamente. Gostam de tocar num disco ou CD, de ouvir o 'verdadeiro som'. Eu tenho um público audiófilo que é muito seleto. Os arquivos de MP3 ainda não se comparam ao som do vinil. O som analógico ainda é o perfeito pra mim”, diz. A loja também dispõe de discos de vinil para vender, entre relançamentos e antigos bem conservados.

Bolachas on line

O Sebo Toca Disco, na Cidade Alta, é um paraíso para apreciadores do vinil. Seu acervo de sete mil discos atende a todos os gostos. Basta ter a vitrola em casa para achar algo nas prateleiras da casa. Geraldo Marques, o proprietário, é filósofo e ex-professor universitário, fã de classic rock e MPB. Coleciona discos desde os 15 anos de idade, e desde então pensava em ter um lugar como o sebo. “Quando me aposentei, fiz questão de trabalhar com algo que eu conhecesse e gostasse. Só poderia ser com música”, diz.

O sebo recebe consumidores de vinil de todos os estilos: desde o expert em rock progressivo até quem procura um disco da Xuxa. “Recebo muito jovens, gente de 18 anos, à procura de Gal, Caetano. A Tropicália é cultuada por essa galera. Eu fiquei impressionado com isso, não esperava”, conta. O que mais sai é rock dos anos 70 e 80. Geraldo cadastra todo o acervo no site Mercado Livre, de onde saem a maioria de suas vendas. “Gosto de ter o espaço físico como base, mas realmente vendo mais pela internet. É assim que esse mercado sobrevive hoje em dia”, afirma.


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