Venezuelanos refugiados no RN temem por familiares

Publicação: 2019-01-25 00:00:00 | Comentários: 0
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A crise na Venezuela ganhou novo capítulo após o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Juan Guaidó, ir às ruas para fazer o juramento e se declarar presidente. Países como Brasil e Estados Unidos já o reconhecem como novo presidente venezuelano, uma vez que o mandato de Nicolás Maduro é considerado ilegítimo. No Rio Grande do Norte, vários venezuelanos aguardam com apreensão o desenrolar e, principalmente, o desfecho do imbróglio político no país.

Venezuela teve uma semana repleta de protestos a favor e contra o governo Maduro
Venezuela teve uma semana repleta de protestos a favor e contra o governo Maduro

Caicó se tornou o principal ponto para receber venezuelanos refugiados no Rio Grande do Norte. Desde o ano passado, a Children’s Villages SOS (Aldeias Infantis SOS), que  é uma organização humanitária global de promoção ao desenvolvimento social e atua desde 1949, tem recebidos pessoas que fogem da situação de miséria e insegurança na Venezuela. São  famílias inteiras, o que totaliza 84 pessoas, que buscam recomeçar suas vidas no Brasil, mas não descartam a possibilidade de, um dia, retornarem ao seu país Natal.

Uma dessas pessoas é a psicóloga Tereza Del Carmen, de 25 anos. Em Caicó com dois filhos e o marido, ela trabalhava na venezuela com educação infantil, voltada às crianças de 3 a 5 anos de idade. Porém, com a crise político-econômica, Tereza viu suas condições de sobrevivência junto aos familiares diminuírem a cada dia, até que resolveu abandonar tudo e seguir para o Brasil. “Vivíamos extremamente mal porque não podíamos nem comer. Todo o meu trabalho, que eu tanto gostava, não era suficiente para me dar o dinheiro que precisávamos para enfrentar a realidade. Estávamos passando fome, vivendo muito mal, e então tomamos a decisão de vir para o Brasil”, diz.

Acompanhando de longe a situação na Venezuela, Tereza e o marido, que ainda não conseguiram trabalho no Brasil, dizem que o momento é de tensão também devido aos familiares que seguem no país natal. A disputa política, acirrada com o reconhecimento de Guaidó como presidente por outros países, é o principal fator de medo no momento. “A situação agora está muito complicada, mais do que já estava. Através desta briga que está ocorrendo, que está passando a Venezuela, eles (parentes) estão desesperados, vivendo um tormento. Dou graças a Deus porque estamos sobrevivendo aqui. Eles estão vivendo muito mal. Torço para que a situação possa melhorar”, disse Tereza Del Carmen.

Também em Caicó está a policial venezuelana Alesandra Delgado, de 31 anos. Desde outubro, quando chegou junto ao marido – que também era policial na Venezuela – e dois filhos, Alesandra busca meios para melhorar a sua vida e de sua família, que passava por dificuldades extremas no país natal. “A vida que é vivida aqui no Brasil tem sido muito dura, mas é melhor do que em nosso país. No último ano que vivi na Venezuela, coisas terríveis aconteceram porque não tínhamos comida, as crianças não tinham como ir à escola. Passamos muita fome em Venezuela. E o nosso país foi caindo, caindo e chegou um momento em que nós, que trabalhávamos como policiais, não conseguíamos comida, manter a casa, nada. Então decidimos vir para cá”, disse Alesandra Delgado.

Apesar da distância de casa, a família Delgado segue acompanhando o noticiário sobre a Venezuela. Os protestos nas ruas, às vezes violentos, são motivo de apreensão tanto para os venezuelanos que estão no país quanto para os que estão fora, que temem pelo bem estar de seus familiares. Contudo, Alesandra acredita que a mudança no comando deveria ser confirmada e vê como positivo o apoio de outros países à posição de presidente de Juan Guaidó. Na opinião da família Delgado, a melhoria das condições de vida na Venezuela passam pela saída do presidente Nicolás Maduro do poder. “Penso que é um bom passo (reconhecimento de Brasil e EUA de Guaidó como presidente). Tanto para outros países que fazem parte do continuente, como para a Venezuela. São dois países financeiramente melhores que reconhecendo Guadió como presidente, porque é isso o que diz a Constituição, e assim deve ser. Eu penso que é importante que nos apóiem neste momento. Se Maduro não vai embora do comando do país, cada vez mais se pioram as coisas na Venezuela”, analisou Alesandra Delgado.

Apoio
A Aldeia SOS é o lar de 84 venezuelanos, entre adultos e crianças, desde outubro de 2018. A Organização não-governamental, que atua sem fins lucrativos, faz trabalho humanitário internacional, na proteção integral de crianças e adolescentes em 135 países do mundo. No Brasil há 50 anos, a Aldeia SOS atende mais de 5 mil pessoas em programas em 24 cidades, mais o Distrito Federal.

Em Caicó, as Aldeias Infantis SOS prestam serviço de acolhimento institucional às crianças e aos adolescentes desde 1979, na modalidade “Casas Lar”. Além dos venezuelanos refugiados, a Aldeia também abriga e atende crianças na faixa etária de 0 a 18 anos incompletos, que perderam o cuidado parental provisoriamente ou permanente.

Com a maior parte dos recursos oriunda de doações de empresas e pessoas físicas, famílias completas de venezuelanos são mantidas no local, com atividades variadas disponibilizadas a todos. Enquanto as crianças estudam, os pais fazem cursos profissionalizantes oferecidos através de parcerias, colaborando para que eles tenham a certificação brasileira para as profissões em nível técnico disponíveis. "Muitas vezes, essas pessoas chegam ao país com uma profissão, mas sem a certificação para poderem atuar. Com esses cursos, eles conseguem também essa qualificação", explicou a responsável pelas parcerias estratégicas e sustentabilidade da Aldeia, Leiane Régia.

Com o agravamento da crise política e econômica na Venezuela, alguns estrangeiros já estão atuando de maneira definitiva em Caicó. Assim, quando conseguem a autonomia, abrem espaço na Aldeia para que mais pessoas possam ser recebidas no local, que está com a capacidade máxima. "Quando ocorrem os desligamentos, seja por autonomia das famílias ou por decisão deles de deixar o local, as vagas são abertas. Em dezembro chegaram mais quatro, por exemplo", explicou Leiane Régia, informando ainda que duas famílias conseguiram autonomia recentemente e deverão se desligar nos próximos dias.

Entenda
A situação na Venezuela se agravou após a eleição de Maduro para novo mandato, o que é contestado pela comunidade internacional. Ele tomou posse em 10 de janeiro na Suprema Corte.

Para Brasil, o Grupo de Lima, que reúne 14 países, e a Organização dos Estados Americanos (OEA), o mandato é ilegítimo e a Assembleia Nacional Constituinte deve assumir o poder com a incumbência de promover novas eleições. No Brasil, o Governo Federal reconheceu Juan Guaidó como presidente da República.

Guaidó chegou a ser preso e liberado. A Assembleia Nacional, então, declarou "usurpação da Presidência da República" por Maduro.

Juan Gerardo Guaidó Marquez, principal nome da oposição da Venezuela, tem  35 anos e é desconhecido no exterior. Porém, como presidente da Assembleia Nacional Constituinte, classificada plo governo Nicolás Maduro como ilegítima, o Parlamento virou a principal referência de força contrária a Maduro no país.

Várias cidades da Venezuela estão em clima de tensão. Protestos contra o governo do presidente Nicolás Maduro tomaram conta das ruas de Caracas e regiões ao redor da capital. De acordo com ONGs, mais de 30 manifestações se espalharam por todo o país desde o dia 23



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