Verão e cálculo renal, qual a relação?

Publicação: 2021-01-17 00:00:00
Tádzio França
Repórter

É consenso que se manter hidratado é essencial para a saúde. E quando chega o verão, a ingestão de líquidos, junto com a leveza alimentar, ganham ainda mais importância. Não é à toa que a estação mais quente do ano tem uma insuspeita conexão com as pedras nos rins, uma das DRC (Doenças Renais Crônicas) mais comuns no mundo. Na medida em que o indivíduo se descuida da alimentação e da hidratação durante esse período, as chances de desenvolver cálculos renais são potencializadas. No Brasil, uma em cada dez pessoas sofre de doenças renais.   

Créditos: Magnus NascimentoNa medida em que se descuida da alimentação e da hidratação durante esse período de verão, quando o risco de desidratação é maior, as chances de desenvolver cálculos renais são potencializadasNa medida em que se descuida da alimentação e da hidratação durante esse período de verão, quando o risco de desidratação é maior, as chances de desenvolver cálculos renais são potencializadas

Na maioria dos casos há uma predisposição genética para que se formem cálculos renais. No entanto, como a pouca ingestão de líquidos é uma de suas causas principais, o verão proporciona um cenário propício aos mais desatentos com a própria saúde. “Não é que o verão desenvolva cálculo. O verão apenas aumenta a incidência em quem já tem a predisposição para o problema”, afirma o urologista Maryo Kempes. Ele ressalta que algumas doenças também podem precipitar o cálculo, como a doença do ácido úrico (gota), mas estas são minoria.

No verão a incidência aumenta por vários motivos, segundo o médico. O primeiro deles se relaciona com o calor que leva a pessoa a se  desidratar mais, perdendo mais líquido e concentrando a urina, o que favorece o cálculo. Outro motivo é que, na época do verão, aumenta o consumo do álcool, que é diurético, contribuindo para aumentar a diurese. Depois do consumo dessas bebidas, a pessoa acaba ficando desidratada e novamente concentrando a urina.

Aliás, a amada cervejinha gelada do verão, em excesso, pode ser a parte problemática da hidratação. Maryo Kempes ressalta que sim, ela pode favorecer o surgimento do cálculo. “O álcool leva o paciente a se desidratar, porque é diurético e mexe com os cálculos que estão dentro do rim, fazendo um turbilhamento com que eles possam descer, junto com a urina”, explica. Ele ressalta, no entanto, que esse risco é maior para quem já tem histórico do problema.

Menu de verão
A alimentação também tem um papel importante na prevenção da doença. O consumo elevado de sal e proteínas é um dos grandes causadores de cálculo. Segundo Kempes, pessoas que abusam das proteínas, não comem fibras, estão com excesso de peso e não fazem atividade física terão mais cálculo. Já os que fazem o contrário, que ingerem bastante líquido, mantêm peso equilibrado, fazem atividade física, comem bastante fibra, não abusam do sal e do açúcar e não fazem dietas hiperproteicas, terão menos cálculo.

No calor, o organismo precisa de alimentos que hidratem e auxiliem a proteção das células contra os danos causados pelo sol, e que sejam ricos em vitamina A, complexo B, C, licopeno e luteína. São eles: cenoura, abóbora, manga, mamão, pêssego, chá verde, pimentão vermelho, tomate, couve, brócolis, espinafre, ovos, oleaginosas, laranja, limão, abacaxi, morango, goiaba e uva.

O organismo precisa consumir mais alimentos ricos em nutrientes que compensam as perdas de água e sais minerais decorrentes da transpiração. “No verão, as pessoas que têm histórico de cálculo precisam fazer uma dieta equilibrada, mas repito: mesmo fazendo tudo isso, o paciente não terá garantia de que vai ficar livre do cálculo. Ele apenas terá menos probabilidade de formar cálculo. O que interfere é mesmo a predisposição genética”, diz.

O médico afirma que não existem alimentos específicos que “formem” cálculo, já que toda alimentação desequilibrada pode levar a isso. O maior (mau) exemplo seria uma dieta hiperproteica, com abuso do churrasco, da carne vermelha, do camarão, do álcool e dos açúcares. “Não existe vilão nos alimentos. O vilão é o abuso na alimentação. É aquela história: tudo demais é veneno”, analisa.

Maryo Kempes ressalta que todas as doenças de verão que levam à desidratação podem precipitar o cálculo renal. Um exemplo é a insolação, quando o paciente tem queimaduras. Abusos de alimentos na praia, mal acondicionados, também geram intoxicações alimentares e, por consequência, diarreias, que por sua vez provocam desidratação e maior formação de cálculo. Aquelas doenças de ambientes pouco higiênicos também levam a infecções e desidratação.

Tratamentos
As pedras nos rins são conhecidas pelas dores que vão do incômodo ao insuportável. O médico explica que depois de formado, o cálculo só tem dois caminhos: aumentar de tamanho ou ser eliminado. Os principais fatores que vão determinar o tipo de tratamento são o tamanho e a localização. Quando o cálculo é de até meio centímetro, o profissional só acompanha o paciente, pois há mais de 96% de chances do cálculo ser expelido espontaneamente. No entanto, quando o cálculo é maior que isso, o tratamento vai depender muito da localização, da dureza deles e da condição do paciente para receber o processo.

Maryo Kempes explica que o tratamento mais simples é a ‘litotripsia extracorpórea’, que é o bombardeamento renal, procedimento para cálculos entre meio e dois centrímetros, com classificação de até 1.200 Unidades Hounsfield (UH) — índice que mede a dureza do cálculo — e, ainda, a localização dele. É o procedimento menos invasivo. Ele ressalta que o paciente obeso, por exemplo, não pode fazer a litotripsia.

Se o cálculo for maior que meio centímetro, com até um ou dois centímetros, e estiver dentro do rim, o procedimento mais recorrente é o  ‘ureterorrenolitotripsia flexível’. Acima de dois centímetros, a indicação geralmente é uma cirurgia percutânea, que perfura as costas e permite que se faça a cirurgia por trás do paciente, por meio de câmeras. “Mas hoje em dia temos optado cada vez menos pela modalidade percutânea, por ser mais agressiva. A modalidade flexível, mesmo sendo menos eficaz, é mais simples e acaba ganhando a preferência dos pacientes”, ressalta o urologista.

“O nosso papel é achar a melhor solução diante das circunstâncias apresentadas em cada caso. Que fique claro, porém: para cálculo, o tratamento é cirúrgico. Não existe tratamento com medicamentos, nem com chá ou xarope para dissolver cálculo. Lembro que cálculo, dependendo do seu tamanho, tem maior chance de ser expelido naturalmente”, enfatiza Kempes.