Verão

Publicação: 2019-01-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Dácio Galvão
daciogalvao@globo.com

Tendo o privilégio de morar perto do cordão de dunas que plasma paralelo a Via Costeira acordei e escutei um canto familiar. Aferi surpreso, que era mesmo o canto da Mãe da Lua.  O pássaro-coruja que Luiz Gonzaga e Zé Dantas compondo imprimiu no imaginário popular.  A sonoridade monótona soa como um quase-mantra acalentador. Um dia amanhecendo. Acordei em Sampa e ouvi para depois ver inúmeros sabiás cantando e saltitando urbanamente no chão entre árvores no bairro de Itaim Bibi. Deleite total. O canto dos pássaros não é direcionado para nós humanos nem para cidade. Infelizmente é de outra natureza. Escreveu  Ferreira Gullar que “a cidade está no homem / mas não da mesma maneira / que um pássaro está numa árvore”. Esse tal deleite sentimental é apropriação sumária.  Humanamente subjetivo. Mas como a vida é invenção...

A sociedade desorientada segue rumos. Há quem diga que em nos marcos de virada social e econômica as bases teóricas e especulativas antecederam as transformações. Filósofos, políticos...  Protagonizavam. A exceção da pós-industrial que vivemos. A era digital pintou e se fez. Por si.  Sem se saber em que porto vai ancorar.  Os laboratórios de direita neoliberais estão em plenos voos. O socialismo, descendente. No fosso. O campo progressista em eterna coalizão com segmentos conservadores abandonou comodamente os movimentos sociais (eufemismo para assimilação de práticas pequeno-burguesas) e depois de mais de dez anos governando o Brasil deu no chão que deu. Democraticamente derrotada. No Rio Grande do Norte tivemos um governo do Partido Socialista Brasileiro ungido por Miguel Arraes e agora temos o Partido dos Trabalhadores com a chancela de Lula da Silva. É esperar para ver. Eleição acabou. Os palanques, físico e virtual, desarmados.

O ócio criativo não deve ser confundido com a pilantragem criativa. É preciso trabalhar. Os infames que saiam das tocas, das zonas de confortos, das acomodações. Há espaço para recomposição. Há generosidade e recepção. E é preciso. Nelson Rodrigues inoculou que pertencia a um “tempo em que canalhas choravam” ou que “os ladrões eram elegantes”.  Esse time acabou. Nem choro nem autocrítica? Muito oportunismo e embustes? Não. Não mais funciona. É preciso perdoar e alentá-los. Esta dor é canalha e dilacera. Precisamos aplicar o kaos no caos. Portanto todas as tribos, guetos (geração Y, portadores de transtorno de ansiedades, fobias, pânicos, mauricinhos, descolados, alternativos, alienados, ricos, pobres...) estão convocados para o chá das cinco! Vamos transgredir e somar.

Mas não esqueçamos que é verão. As praias estão luminosas. Solares. Os corpos malhados e bronzeados banhados em águas verdes azuis ray-bans.  Selfies dentes e músculos.  Muita gente bonita explodindo dentro da sensualidade tipológica de Gilberto Freyre. Amada por uns. Odiada por outros. Tesura. A maré pode não está para peixe. Mas os tubarões estão soltos. Na espreita de presas nas barbatanas da usura. Baixa e alta gastronomia. Já não conseguimos distingui-los no espectro do consumo pelo consumo. E com ficam os que estão abaixo da linha de pobreza? Os sertões dentro do agronegócio? Os itens ligados aos comportamentos: a moral a ideologia de gênero...

O epistemologista português Boaventura Sousa Santos distribui sugestões indicando receituário para o esquerdismo brasileiro. Em primeiro lugar a união dela própria como ocorreu em Portugal. No Brasil nunca foi possível. Não creio. Ato contínuo um longo e profundo aprendizado metodológico utilizada na doutrinação, pregação neo pentecostal destinada às camadas populares. Será que nossos ideólogos vão adotar mesmo essa estratégia? Também não acredito. Mas... Frei Betto já havia observado e comentado há algum tempo o trabalho do missionário RR Soares. Eu gosto de assisti-lo.  O lado atuação: impostação de voz, gestualidade, interpretação bíblica, comunicabilidade, retórica, postura corporal, expressão facial...

Bom, essa tarefa não é fácil. Para nos ajudar a compreender essa fase pós-industrial sem embasamento compartilhado ficamos a deriva sem saber situar a “verdade da mentira, o bem do mal, a beleza da feiura” diz o sociólogo Domenico de Masi, acrescentando que ainda é possível pintar dependendo de nós mesmos “uma classe dirigente honesta, criativa, profissionalmente preparada. Nelson Rodrigues dizia “O Brasil não é popular no Brasil”. E então? Seremos otimistas? Enquanto isso o verão...

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