Versos ao sabor de Areia Preta

Publicação: 2017-07-25 00:00:00
Ramon Ribeiro
Repórter

Mais conhecida como pianista, instrumento que pratica desde os quatro anos de idade, Nalva Nóbrega segue dedilhando as teclas de piano, mas suas mãos leves também tem sido utilizadas nos últimos anos para passar a limpo escritos antigos, grande parte poemas de fases importantes da sua quase nonagenária vida. Aos 89 anos, a seridoense de Caicó estreia em livro com “Arroubos Poéticos e Sentimentais”, cujo lançamento acontece nesta terça-feira (25), às 19h, no Clube dos Rádio Amadores (Tirol).

A obra reúne poemas que compreendem três das quatro décadas em que viveu na praia de Areia Preta, em Natal. É sobre a praia, seu mar, sua areia, suas pedras pretas, seus coqueiros, seus banhistas que a autora dedica seus versos, todos carregados de lirismo. Nalva foi morar em Areia Preta assim que chegou a Natal, no início da década de 1960. Na época, a praia estava distante dessa atmosfera elitista e isolada de hoje. Naquele período a região ainda guardava um jeitão de praia de veraneio de anos passados.

Créditos: Maria Dália FonsecaPoeta e pianista Nalva Nóbrega retrata em versos pessoas, memórias e paisagens com as quais conviveu no tempo em que morou na praia de Areia PretaPoeta e pianista Nalva Nóbrega retrata em versos pessoas, memórias e paisagens com as quais conviveu no tempo em que morou na praia de Areia Preta

Poeta e pianista Nalva Nóbrega retrata em versos pessoas, memórias e paisagens com as quais conviveu no tempo em que morou na praia de Areia Preta (Foto: Maria Dalia Fonseca)

“Areia Preta tinha uma beleza incrível. As pedras pretas do local formavam piscinas naturais. A Via Costeira ainda não havia sido construída. A estrada nem chegava até o Farol. Ali só havia casas, uns barzinhos, na rua nem tinha energia elétrica. A gente comprava peixe na porta de casa. Existia um ar romântico e inspirador”, recorda a autora, que atualmente vive num apartamento em Petrópolis, onde mantém dois pianos, um de calda e outro menor, herdado da casa de Areia Preta. No lançamento do livro, ela dará uma canja no teclado.

“Foi em Areia Preta que eu voltei a estudar, depois de ter casado. Vi o desabrochar dos meus cinco filhos. O mais velho tocava violão, trazia os amigos pra casa, fazia festas. Então também presenciei a a movimentação da juventude da época, que promovia ações na Praia dos Artistas”, comenta.

É o ar romântico do passado que Nalva registrou em seus poemas. Seus escritos falam do amanhecer, do crepúsculo, de sonhos, do mar, até o icônico coqueiro solitário, um dos símbolos de Areia Preta – e que inclusive estampa a capa do livro –, ganha destaque aos olhos da autora. Todos os poemas trazem a data de quando foram feitos, às vezes, com informações memorialísticas. “O livro é um tributo ao mar e a Areia Preta. Foi a maneira que escolhi para homenagear e preservar a memória daquele pedaço tão bonito de Natal”, comenta.

A orelha do livro é assinada pelo poeta e médico Napoleão de Paiva Sousa, que quando jovem universitário, amigos do filho de Dona Nalva, frequentou a casa de Areia Preta. A apresentação é do poeta José Lucas de Barros (já falecido). Sobre a autora ele escreve: “Quem domina a arte musical facilmente sonoriza os versos com aquela harmonia do ouvido educado e afeito ao alinho das notas”.

Nalva concorda. Música e literatura são duas coisas muito presentes em sua vida. Mesmo trabalhando e cuidando dos filhos, ela não se afastava das artes. Formou-se em Contabilidade, Serviço Social e Direito, foi concursada do Tribunal de Conta do Estado, ao mesmo tempo a dedicação ao piano a fez lançar seis discos. Nesse tempo, ela também escrevia bastante, mas sem a pretensão de publicar.

“O que escrevo tem uma certa cadência musical, ritmo, melodia”, comenta a autora. Suas referências na poesia passam por Fernando Pessoa, Cruz e Sousa e alguns da geração romântica brasileira, como Castro Alves. Dentre os potiguares que aprecia, um exemplar com a obra completa de Othoniel Menezes ocupa a mesinha de centro da sala de estar. Na música, seus favoritos são Carlos Gardel, Francisco Alves, Orlando Silva e Vicente Celestino. Mas há espaço para outros artistas. Numa coisa ela é inexorável, gosta de estudar, conhecer coisas novas, novos lugares, novas pessoas.

Assim como as poesias publicadas agora no livro, Nalva guarda muitos outros escritos antigos, como crônicas, memórias, diários, correspondências. Tudo pode render publicações futuras. Mas por enquanto, sua atenção está voltada para “Arroubos Poéticos e Sentimentais” e a vida que leva entre Natal e Rio de Janeiro. Nas duas cidades, se a convidam, ela mostra seus talentos ao piano. Já tocou no Midway Mall e, no Rio, não é raro ela sentar para tocar em algum piano nos arredores da praia do Leblon.

Trecho/Poema

Coqueiro Solitário
“Coqueiro eu quisera
seguir o seu conselho:
- olhar serenamente pra tudo o que se dá
e nunca revelar
sequer pra um espelho
as coisas que eu sinto
contemplando o mar” (1966)

Serviço
Lançamento do livro “Arroubos Poéticos e Sentimentais”, de Nalva Nóbrega
Dia 25 de julho, às 19h
Clube Rádio Amadores do RN (Av. Rodrigues Alves, 1004, Tirol)