Vestidas de poesia renda e mamulengos

Publicação: 2009-08-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Michelle Ferret - repórter

Os traços formam casarões, bonecos, poemas de Zila Mamede, flores do sertão, rendas e bonecas de pano. No lugar das tintas, linhas de costura formando desenhos estampados nas vestes idealizadas por um grupo de estilistas que juntos montaram o projeto “Natal Pensando Moda”, coordenado pelo estilista Ronaldo Fraga e transformado em um cuidadoso catálogo de moda que inspira qualquer poeta.

Coleções de estilistas potiguares que chegam às lojas em setembro com estampas e texturas inspiradas em Zila Mamede, mamulengos, fauna e flores do rio grande do norte

Logo ao abrir, as fotos coloridas e as imagens do RN aparecem de uma maneira sutil. E é só desbravarmos as páginas para perceber a importância de um projeto como esse, que é também uma ponte, uma maneira de levar a cultura para o mundo.

“Um país se desenha pela linha da cultura. Acredito que a moda, muito mais que um forte segmento gerador de emprego e renda, é na sua essência um eficiente instrumento de reafirmação cultural”, escreveu Ronaldo Fraga no texto de abertura do catálogo.

Dividido em títulos, a Ribeira aparece como personagem quando os casarões e o vigor da arquitetura colonial constituem o cenário, retratando a boemia, a nostalgia e o lado bucólico do bairro estampado nas roupas. Nas fotografias, as modelos vestem se de arabescos feitos por linhas coloridas, quando as imagens ganham um sentido muito maior, é a moda impregnada pela força de uma cultura.

Para a coordenadora do projeto, Auxiliadora Sales, a ideia é pensar na valorização dos produtos lá fora e levar a cara do RN para outros lugares. “Como a gente está sempre próximo às feiras internacionais e nacionais, percebemos que faltava algo mais na moda. E o desejo foi o de levar a cultura para outras pessoas. O RN não é visto como um Estado que faz moda. E isso é ruim, porque nos tornamos desconhecidos em todos os lugares. Com esse novo passo, podemos chegar com um caráter diferencial e primordial, que é a própria cultura”.

Para a execução do projeto, houve uma seleção feita pelo Sebrae e Senai que convidaram quatro estilistas potiguares sob a coordenação do estilista mineiro reconhecido internacionalmente Ronaldo Fraga. “Ronaldo fez a coordenação da coleção e sugeriu para a visibilidade algo que reunisse num só ponto e chegamos aos ícones do RN. Nossa iconografia é muito rica. A partir de leituras, trabalhamos com a Ribeira, mamulengos, os bordados e as rendas do Seridó, as flores do Cerrado, as areias coloridas e a poesia de Zila Mamede”, contou Auxiliadora gerente geral do projeto.

Estilistas  se inspiraram no bairro da Ribeira

As quatro estilistas selecionadas são Amanda Rosa, Dóris Lisboa, Tilie silva e Ana Lúcia Neves, que juntas pesquisaram a fundo os ícones escolhidos e levaram suas inspirações para a coleção.

A coordenadora lembra, que o ponto alto da história foi a visita pelo bairro da Ribeira. “Passamos pelos mercados, os casarios, pelos museus e as ideias foram surgindo. Depois mapeamos 30 lugares e cada uma teve sua inspiração individual, resultando no catálogo, como um livro”, contou.

Ao todo, foram três meses de pesquisa e execução do projeto e os desdobramentos da coleção estão ocorrendo agora com o convite para feiras no Rio de Janeiro, São Paulo, Paris e Madri, no próximo mês.

A coleção inteira, com a palestra de Ronaldo será apresentada no próximo dia 24 de agosto, no Teatro Alberto Maranhão, às 19h.

Zila Mamede em movimento

Um dos ícones interessantes escolhidos para compor a coleção é a poesia de Zila Mamede. Dentro do catálogo aparece um pequeno livreto contendo os poemas, “Banho (rural)”, “Soneto triste para minha infância”, “Para Manuel Bandeira”, “Arado”, “Marcha para o jumento passarinho”, “O Edifício”, “A Mudança” e “Elegia”.

A inspiração nesse mar de miragens resultou uma coleção delicada onde o branco e as flores tem vez. A solidão, as lembranças da infância no Rio Grande do Norte e o mar foram temas recorrentes de Zila e nas roupas e acessórios. Assim como os mamulengos de Chico Daniel estampados nos vestidos das crianças e também nas camisetas dos meninos, quando até a característica dos bonecos marcam a pala da roupa.

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