Vestindo Hamlet

Publicação: 2018-01-30 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Um vestuário que aproxima o clássico do contemporâneo, trazendo com sutileza ao palco referências à realidade política do Brasil. Para o potiguar João Marcelino, o figurino de “Hamlet” (2017), espetáculo da Armazém Companhia de Teatro (RJ/MG), foi o mais difícil que ele já desenvolveu nos quase 30 anos de parceria com o grupo. O trabalho, assinado ao lado da fluminense Carol Lobato, rendeu a dupla indicações de melhor figurino da temporada em dois importantes prêmios nacionais, o APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro) e Cesgranrio – este último, com resultado anunciado hoje, em grande cerimônia no Copacabana Palace.

Hamlet com Ofélia, papel que deu a Patrícia Selonk, indicação de melhor atriz
Hamlet com Ofélia, papel que deu a Patrícia Selonk, indicação de melhor atriz

“O Paulo de Moraes (diretor) me pediu algo diferente de tudo que já tinha feito para o Armazém. Ele propôs vestimentas que, ao mesmo tempo revelassem os personagens e contribuíssem para uma reflexão sobre o Brasil atual. Visualizar esse figurino dentro do texto foi algo difícil”, lembra Marcerlino, que acompanhou os primeiros ensaios no Rio de Janeiro. “Depois dos ensaios eu saía com o Paulo para dar uma volta pela cidade, tomar umas cervejas, observar o que as pessoas estavam vestindo na rua. Desses passeios as ideias foram amadurecendo”.

Marcelino comenta que o texto de Shakespeare gira em torno de muitos valores e que alguns desses valores foram parar no vestuário trazendo a época elisabetana. Mas ele afirma que a referência temporal é pequena. “No palco há um clima de conspiração de nobres, muitos segredos, um rei que rouba a coroa do irmão. Trabalhamos muitos desses elementos somados a referências não diretas do Brasil de hoje”, explica o figurinista potiguar, dando significado atual a uma das famosas frases do dramaturgo inglês: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”.

Foram quase dois meses para entregar o figurino. No meio do processo Marcelino precisou retornar a Natal e foi quando a jovem Carol Lobato entrou para somar no projeto, dando suporte local na montagem das peças. Reconhecida no Rio de Janeiro pelos premiados figurinos de musicais, ela deu continuidade ao trabalho de Marcelino sem o conhecer pessoalmente. “A surpresa desse processo é que a gente conseguiu se complementar mesmo sem se conhecer”, conta Carol. Ela destaca a armadura de Hamlet e o figurino de Ofélia como as peças mais representativas do trabalho. “A armadura é vestida e tirada em cena. Foi algo difícil de fazer dando essa mobilidade”.

Personagem conversa com o fantasma do pai. Figurinos colocam Shakespeare nos tempos modernos
Personagem conversa com o fantasma do pai. Figurinos colocam Shakespeare nos tempos modernos

Na paleta de cores do figurino, o tom é soturno, com predominância de preto, marrom e verde musgo. De acordo com Marcelino, uma das características do texto traduzido e adaptado por Maurício Arruda Mendonça é a sua nova ordenação. “A peça é muito rock'n roll, contemporânea. As cenas estão fora de órbita. O papel de Hamlet é interpretado por uma mulher (a atriz Patricia Selonk). O espetáculo é resultado de um processo totalmente coletivo, com diálogo entre os vários setores da montagem”, comenta Marcelino, que atualmente está envolvido com a direção de arte de um documentário local. “Ver a peça sendo indicada à vários prêmios já é um triunfo pra nós. Vivemos um período de tanta dificuldades e conseguir despertar o interesse das pessoas é algo muito bacana”.

Articulação
Essa é a segunda investida do Armazém na dramaturgia de Shakespeare. A primeira foi em 1994, com “A Tempestade”, que trazia Paulo Autran no elenco e Marcelino assinando o cenário, figurino, maquiagem e adereços. De acordo com o potiguar, o grupo Armazém está articulando apresentações de “Hamlet” no Rio Grande do Norte. Mas por enquanto não há data definidas. “Natal e Mossoró sempre foram paradas obrigatória do grupo nas turnês do Nordeste. Com o Teatro Alberto Maranhão fechado essa vinda deles está complicada, mas estamos vendo a possibilidade de apresentarmos o espetáculo no Teatro de Parnamirim”, diz o figurinista.


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