Natal
Veterinário trata animais com cannabis medicinal
Publicado: 00:00:00 - 23/05/2021 Atualizado: 12:09:29 - 24/05/2021
Mariana Ceci
Repórter

Em agosto de 2020, dois meses depois de ter sido resgatado da rua, Negão, um gato de cerca de 2 anos de idade, começou a apresentar crises convulsivas. Preocupado, seu tutor, Rogério Bandeira, de 25 anos, levou  o gato, que encontrara na rua de casa em junho daquele ano, ao veterinário. Apesar de medicado com uma alta dosagem de medicamentos à base de fenobarbital, princípio ativo com propriedades anticonvulsionantes, os episódios não conseguiam ser controlados. 

Magnus Nascimento
Interesse na administração de cannabis medicinal em animais veio da vontade de substituir substâncias com efeitos colaterais

Interesse na administração de cannabis medicinal em animais veio da vontade de substituir substâncias com efeitos colaterais


As convulsões de Negão estavam relacionadas a estímulos excessivos para liberação de neurotransmissores excitatórios no cérebro. Os neurotransmissores funcionam como "mensageiros químicos", responsáveis por transportar e equilibrar os sinais entre os neurônios e o resto do corpo. Esse excesso do qual ele sofria provocava um desequilíbrio, que contribuía com os episódios epiléticos. 

O diagnóstico foi feito pelo médico veterinário Tarcísio Barreto, ao qual Rogério recorreu em busca de um diagnóstico para Negão. “O diagnóstico foi realizado através de eliminação de possíveis causas - inflamatória, infecciosa, degenerativa, anomalias congênitas, traumas, doenças metabólicas e câncer”, listou Rogério.

A busca pelo médico não foi à toa. Rogério conheceu Tarcísio durante o evento Delta 9, um dos maiores eventos sobre a temática da Cannabis no Brasil. Tarcísio integra um grupo de profissionais da saúde e pesquisadores que investigam as propriedades da cannabis de forma medicinal, para o tratamento de diversas condições. “Muitas vezes, essas pessoas já procuraram tratamentos com diversos outros fármacos antes de chegar à cannabis”, como no caso de Negão, explica o veterinário. 

No final de março de 2021, terminado o processo de diagnóstico, teve início o tratamento com o uso da cannabis. A medicação teve de passar por ajustes até encontrarem a dosagem correta, relata Rogério. “Somente no começo de abril que encontramos a dosagem e a concentração correta para ele. Desde então, ele ficou mais de um mês sem apresentar nenhuma crise convulsiva”. O cenário impressionou os tutores: antes do tratamento, mesmo sob efeito das outras medicações, o intervalo entre as convulsões de Negão eram de, no máximo, um dia. 

“A cannabis vai agir de várias formas: inibe os neurotransmissores excitatórios, diminui o limiar convulsivo e desinflama o sistema nervoso central. Ou seja, é completo, tem ação direta e indireta”, afirma Tarcísio. 

De acordo com o veterinário, ao analisar o organismo de um cão, por exemplo, há receptores canabidinoides em todos os tecidos do animal, o que permite regular e ajustar o medicamento de acordo com a maior ou menor presença de receptores em determinadas áreas e de acordo com os objetivos do tratamento. "A cannabis entrou muito na vida desse animal como uma maneira de aliviar determinados problemas sem tantos efeitos colaterais como tínhamos como algumas medicações. Os resultados são muito positivos.", diz. 

O interesse do veterinário pela utilização da cannabis medicinal surgiu a partir de uma curiosidade sobre como oferecer qualidade de vida mesmo diante de condições crônicas e do envelhecimento. "De tantas patologias que cães e gatos apresentam, percebemos que se a gente trabalhasse um fármaco ou fitoterápico que substituísse as substâncias psicotrópicas que traziam muitos efeitos colaterais, estaríamos no caminho certo", continua. 

Para Moleque, cachorro resgatado aos três meses de idade pela professora aposentada Maria Beatriz Picolli, de 68 anos, o uso do medicamento lhe garantiu qualidade até o fim de sua vida, aos 14 anos de idade. "Cerca de quatro anos atrás, quando o Moleque tinha 10 anos, ele começou a apresentar um quadro de dor aguda", relata Maria Beatriz. "A gente não conseguia tocar nele sem ele chorar. Ele perdeu a força nos membros, não conseguia mais ficar em pé, foi bem complicado", completa. 

Após os exames iniciais, os prognósticos não eram positivos. "Os resultados foram tão ruins que quando o levamos de volta para clínica pensávamos que ele passaria pela eutanásia. Mas aí foi feito o diagnóstico a partir do exame neurológico que relacionava as dores com a hiperatividade e ansiedade que ele apresentou ao longo de toda a vida". 

Moleque foi medicado com uma combinação de gotas de óleo de cannabis medicinal, vitamina D e ômega 3. A combinação estabilizou seu quadro e, aos poucos, ele foi começando a recuperar a força nas pernas e nas articulações. "Começamos com uma dose maior e fomos diminuindo à medida em que ele ia se estabilizando, até chegar a uma gota por dia do óleo puro. Ele morreu por outras causas, mas a qualidade de vida dele até o fim foi excepcional. O que a cannabis fazia por ele era tranquilizá-lo, ele parou de ter crises de dor. Era nosso Molequinho, então foi bom ver que ele viveu bem até o fim", completa. 

Entraves legais dificultam acesso a remédio
A utilização da cannabis de forma medicinal não é uma novidade no mundo médico e científico internacional. Ela já é utilizada como paliativo para pacientes com dores crônicas, Alzheimer e câncer. A regulamentação para produção e comercialização de medicamentos à base de Cannabis foi aprovada no Brasil em dezembro de 2019 e regulamentada em março de 2020. Entretanto, o plantio nacional permanece proibido, o que dificulta o acesso a preços não tão altos para pacientes. 

“A política vem atrapalhando há muito tempo o avanço de nossos trabalhos na área de saúde. O Brasil hoje está muito atrasado em relação a esse tema. Quando você olha para o mundo e o quanto de benefícios que esse trabalho com os fitocanabinoides estão oferecendo a humanos e animais, a gente fica até envergonhado. Há um potencial médico enorme sendo desperdiçado”, diz Tarcísio. 

Ele destaca que um dos entraves para o tratamento é a obtenção de forma legal do produto no país. Atualmente, as opções envolvem a importação ou a aquisição em algumas poucas associações nacionais que conseguiram autorização para produção, como a Abrace Esperança, em João Pessoa.

 "Infelizmente, há poucas formas de obtenção desse produto de forma legal no Brasil. Por isso precisamos que os juristas e políticos entendam esse processo médico. Precisamos ser respeitados enquanto profissionais da saúde que estão estudando, pesquisando de forma profissional.”. 

Mesmo diante da insegurança jurídica, no entanto, pacientes com dores crônicas e tutores de animais estão dispostos a buscar os caminhos para garantir o tratamento. “Várias famílias que têm crianças com epilepsia refratária, por exemplo, pacientes de Alzheimer, pacientes de câncer que buscam paliativos... os relatos são reais. São pessoas que estão juridicamente inseguras, mas que estão com tanta sede de ficarem melhores que estão passando por cima disso”, relata Tarcísio. 

“Chegamos ao limite dessa lógica que impede que as pessoas cultivem em casa algo que efetivamente vai melhorar os sintomas que elas apresentam. Na medicina veterinária é do mesmo jeito”, completa.  

Em Natal, o Insituto do Cérebro oferece um serviço a fim de permitir analisar a composição do óleo caseiro, o que é uma das alternativas para os pacientes. Eles analisam quais são os componentes presentes naquele óleo e em quais porcentagens, assim, é possível saber exatamente o que está sendo oferecido e ter maior controle sobre o tratamento. 

Fórum debate temática da cannabis 
Considerado um dos maiores fóruns voltados para a temática da Cannabis no Brasil, o Delta 9, produzido por entidade do Rio Grande do Norte, se prepara para uma nova edição nos dias 7, 8 e 9 de junho. Em sua sexta edição, o fórum terá palestras com nomes como o neurocientista Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro, e o médico veterinárioTarcísio Barreto. As inscrições podem ser feitas pelo site do evento, delta9brasil.com. 









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