Viagem ao coração do Cordel

Publicação: 2018-10-12 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

O Cordel do Fogo Encantado chega a Natal para se apresentar nesta sexta-feira (12) dentro do Festival MADA e traz na bagagem um show novo, construído em cima do disco recém-lançado “Viagem ao coração do sol”. O álbum de inéditas mantém a estética do grupo, mas não de forma engessada. Há um frescor atual nas músicas e um link temático com o que se vive no mundo hoje. A apresentação também reserva momentos para os fãs matarem a saudade dos sucessos da banda – afinal, o grupo está voltando a ativa depois de oito anos de pausa.

Após oito anos de pausa, Cordel do Fogo Encantado estreia no MADA
Após oito anos de pausa, Cordel do Fogo Encantado estreia no MADA

Segundo o vocalista Lirinha, a banda tem uma relação forte com Natal. Ele lembra muito bem de shows no Anfiteatro do Campus da UFRN e no próprio MADA, quando a chuva deu um efeito especial justamente à canção “Chover”, um dos sucessos do grupo. O cantor também guarda memórias de uma época anterior ao Cordel, quando seu fascínio pela poesia dos repentistas o trouxe ao interior do Rio Grande do Norte. “Eu frequentava festivais de violeiros pelo RN. Sou fã de Severino Ferreira e de muitos outros daqueles antigos cantadores que viveram no Estado”, diz em entrevista por telefone à TRIBUNA DO NORTE.

Lirinha comenta que o espetáculo continua sendo tratado com cuidado especial pela banda. E nesse sentido ele avisa que o público pode esperar uma grande apresentação. “O disco 'Viagem ao coração do sol' une uma nova mensagem à história da banda. Estamos mostrando isso nesta turnê. Mas também estamos mostrando um pouco da nossa memória, lembrando canções de todos os discos anteriores, até para marcar esse retorno depois de oito anos”, conta o artista. Além de Lirinha, o Cordel é formado por Clayton Barros (violão) e os percussionistas Emerson Calado, Nego Henrique e Rafa Almeida. “Depois de trabalhos longe da banda, eu percebi que algumas coisas só são possíveis quando a gente se encontra e através do som que a gente faz”. Confira a entrevista com Lirinha.

A formação do Cordel é de três percussões e um violão. E as referências estão muito ligadas à cultura popular. É complicado caminhar com a estética de vocês dentro de uma cena nacional tão pop e eletrônica?
O Cordel participa muito de festivais, até dentro de grades com bandas de rock. Somos uma banda de origem diferente das outras por conta de nascermos como recital. A música foi sendo composta depois, para nos guiar nesse recital. Acredito que a nossa contribuição é essa, a diferença, trazer o elemento diferente para a música. O espetáculo como o principal objetivo.

Dentro dessa identidade estética do Cordel, vocês conseguiram dar uma arejada nesse novo disco.
Somos os mesmos integrantes do início e com a mesma ideia de base percussiva com apenas um instrumento harmônico, que é o violão. Mas você falou do eletrônico... trabalhamos com elementos eletrônicos desde a origem. Já trabalhamos com fitas K7 disparando gravações da nossa memória. Depois é que fomos entender que aquilo era samples. Mas na época, lá em Arcoverde, a gente não fazia a menor ideia de que aquilo era um elemento bastante utilizado na música. Ao longo da nossa história fomos ampliamos esses elementos. Essas escolhas, no começo, não foram uma escolha, foram os elementos que nos rodeavam em Arcoverde quando construímos o espetáculo “Cordel do Fogo Encantado” e que rapidamente entendemos como uma característica que nos dava originalidade. Outra coisa, no começo da banda o Naná Vasconcelos foi muito importante pra gente também.

Legal você lembrar do Naná Vasconcelos. Ele produziu o primeiro disco de vocês, o “Cordel do Fogo Encantado”, de 2001.
Mais do que produzir o nosso disco, Naná viajou com a gente e nos trouxe ensinamentos exatamente no momento que uma parte da imprensa especializada de São Paulo identificava nosso som como “anti-pop” e no momento que fizemos nossa primeira turnê europeia e nos deparamos com músicas de todos os lugares. Naná nos trouxe confiança sobre a origem e a presença da percussão na música mundial. Inclusive nos trouxe consciência política do lugar da percussão na história da música, do seu símbolo de resistência nos países considerados subdesenvolvidos onde a estética europeia se sobrepunha. Desse contato com ele, nos apaixonamos por essa pesquisa que fundamenta nosso som.

Se o Naná foi importante para a percussão do Cordel, o que dizer do guitarrista Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que assumiu a produção do disco novo de vocês?
Catatau foi incrível. Nos trouxe muitas referências para a parte percussiva. Desenvolvemos linhas de baixo através da percussão, por exemplo. E também sabíamos que ele teria um cuidado especial com os violões do Clayton, já que tem grande conhecimento nessa área. Os dois optaram por trazer um elemento do primeiro disco da banda, um violão acústico. Gravamos quase todas as músicas com violão de 12 cordas, de aço. Também utilizamos cordas de nylon e alguns elementos elétricos.

O disco reúne canções recentes e composições incompletas de antes da pausa de vocês. Foi difícil dar uma unidade ao material?
Metade do disco era de canções que foram produzidas nos bastidores da turnê do “Transfiguração” (2006) e que não chegaram a ser gravadas. Trouxemos essas canções inacabadas para o processo e construímos novas coisas em cima delas. Todas as letras foram escritas nesse momento de reencontro da gente. As letras são um elemento muito importante do nosso trabalho, está na origem da nossa composição.

“Viagem ao coração do sol” tem um conceito narrativo. Fala de uma jornada em busca de uma personagem chamada Liberdade. Seria uma metáfora para o cenário político brasileiro?
A Liberdade é o grande tema desse nosso retorno. É ela que conduz essa ficção que criamos, em que cinco personagens acordam de um sono profundo dentro do centro da Terra. Ao sair, eles encontram um novo mundo, numa referência às transformações na sociedade que aconteceram durante os oito anos de pausa da banda. Falamos de alterações em várias áreas, inclusive na nossa, a música, em decorrência das novas formas de comunicação. Esses integrantes começam uma jornada em busca de onde mora a personagem Liberdade, a filha do Vento, que mora no coração do Sol. Todas as canções são etapas dessa caminhada. Sem dúvida esse trabalho dialoga com o momento que vivemos hoje, não só do Brasil, mas da humanidade.




continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários