Viagens antes e depois da pandemia

Publicação: 2020-07-11 00:00:00
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Ivan Maciel de Andrade
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)

Os brasileiros gastaram no exterior, em 2019, 17,593 bilhões de dólares. Ainda assim, os gastos foram inferiores aos de 2018, da ordem de 18,265 bilhões de dólares. São dados do Banco Central. Pena que a vontade de viajar para o exterior seja turbinada por um consumismo insaciável e obsessivo. Essa compulsão é compartilhada por grande parte da população mundial. Agora com a pandemia há uma boa novidade – muita gente quer viajar simplesmente pelo prazer de viajar.  

Os antigos navegadores diziam que “navegar é preciso, viver não é preciso”, como está em poema de Fernando Pessoa. Esse era o lema da Escola de Sagres que inspirou os argonautas portugueses. E viajar é realmente preciso? Não digo no sentido vital, épico, glorioso com que navegar era “preciso” para os navegantes que expandiram os limites da Europa nos séculos XV e XVI. Mas como exigência psicológica de renovação de perspectivas, observação de outras culturas, contato com pessoas de costumes e valores diferentes dos nossos. Fernando Pessoa não via sentido nas viagens. O viajante se desenraíza e ao invés de conhecer países, os perde: “Viajar!/ Perder países!/ Ser outro constantemente,/ Por a alma não ter raízes/ De viver de ver somente”. 

O nosso maior escritor, Machado de Assis, raras vezes saiu do Rio de Janeiro e nunca fez qualquer viagem ao exterior. No prólogo da terceira edição das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado se refere a alguns escritores e afirma: “Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do quarto, Garret na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás Cubas se pode talvez dizer que viajou à roda da vida”. E a mesma coisa se pode dizer a respeito de Machado de Assis. 

Ele também preferia “viajar à roda da vida” – na intimidade doméstica, na repartição pública, na convivência com amigos (em livrarias), dedicado à atividade jornalística e, sobretudo, à criação literária. Argumenta Brito Broca de forma convincente: “Não podemos duvidar de que, se ele quisesse realmente ir à Europa, teria conseguido, sem grandes dificuldades. Olavo Bilac foi dezesseis vezes, Artur Azevedo, José do Patrocínio, França Júnior, Valentim Magalhães e muitos outros lá estiveram e nenhum era rico, todos estavam mais ou menos na situação de Machado”. 

O grande memorialista Gilberto Amado tinha especial motivação ao viajar pela primeira vez à Europa. Revela em “Mocidade no Rio e primeira viagem à Europa”: “Eu ia, na Europa, encontrar uma coisa que só havia visto nos livros – o passado”. Afinal, a Europa, diz ele, “representa séculos”: “A Inglaterra é construída sobre pedras romanas. Uma rua de Paris é um rio que vem da Grécia”.

Por enquanto, as viagens ao exterior sofrem proibições e restrições em razão das medidas de contenção da pandemia impostas por países para onde se destinam os maiores fluxos turísticos. Além disso, é difícil acreditar que a crise econômica mundial, que assume proporções mais graves entre nós, permita aos brasileiros a gastança de dólares que ocorreu nos anos de 2019/18. O fato é que mais adiante poderemos ter o sofisticado, raro prazer de redescobrir o planeta que habitamos.