Vicente Serejo: 50 anos de jornalismo

Publicação: 2019-12-03 00:00:00 | Comentários: 0
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Thiago Gonzaga
Escritor

Vicente Serejo é um dos bons cronistas que o Rio Grande do Norte doou ao Brasil, e já faz parte do cânone literário potiguar, inclusive está na antologia Literatura do Rio Grande do Norte, de Diva Cunha e Constância Lima Duarte. Macauense de nascimento, Serejo dedica-se há cinquenta anos ao jornalismo político e cultural, contribuindo, de modo singular, para a nossa literatura através de textos nitidamente poéticos.

Em 1982, o escritor publicou pela Editora Universitária uma coletânea de crônicas, cujo título – Cena Urbana – era o mesmo com que assinava coluna no jornal “Diário de Natal”, então, um dos principais órgãos da imprensa natalense. De forma criativa e inovadora, a obra apresenta textos curtos que versam sobre diversos temas com que nos deparamos, por vezes, no dia-a-dia, e que, de certa maneira revelam o que somos, além de outras temáticas.

Vicente Alberto Serejo Gomes nasceu (em 1951) e se criou na terra das salinas, veio para a capital, estudou no Ginásio São Luís e  no Atheneu Norte-rio-grandense, graduou-se em Jornalismo pela UFRN, foi professor do curso de Comunicação Social na mesma universidade. Trabalhou nos mais importantes jornais do Rio Grande do Norte, como repórter, editor, chefe de reportagem, editor geral e diretor comercial. Dois anos depois de lançar Cena Urbana, publicou Cartas da Redinha (1984), um dos livros de crônicas mais poéticos surgidos no Estado. Em 2000 reuniu novas crônicas no livro Canção da Noite Lilás.

Em vários dos seus textos, Serejo reflete, critica, questiona, faz revelações, deixa vir à tona detalhes da vida cotidiana, cultural e política da província. A partir da observação de fatos rotineiros, ele expõe, com engenho e arte, a dor, a alegria, o desejo, a negação, os problemas sociais e conflitos humanos, em todas as esferas, a tradição, a ruptura, sempre com sensibilidade e um olhar poético em sua prosa repleta de muito lirismo, uma das suas marcas registradas.

 A possibilidade da temática é inspiradora, parece nunca se esgotar quando se trata da crônica de Vicente Serejo. São milhares delas ao longo de mais de quarenta  anos de jornal.  O livro Cartas da Redinha é de um lirismo muito peculiar, até porque compõe-se de crônicas, em forma de carta, ou seria ao contrário?  A coletânea teve ilustrações de Dorian Gray Caldas, e prefácio do poeta Luís Carlos Guimarães. A capa foi criada por Nei Leandro de Castro, que, aliás, é autor das capas dos três livros de Serejo. Cartas da Redinha foi publicado pela “NossaEditora”, do saudoso escritor Pedro Simões Neto.

O seu terceiro livro – Canção da Noite Lilâs, mantém-se no mesmo nível qualitativo dos anteriores. O poeta-cronista produz seu texto no ritmo e nos limites da indústria jornalística, limites de tempo para produção, de durabilidade do texto, de espaço nas páginas dos jornais, e de adequação vocabular e temática voltada para seu público alvo. Mas, mesmo sendo uma história contada em limites de tempo e espaço, sobre um determinado tema, seguindo uma certa lógica de produção, a crônica sobrevive ao longo dos anos e está ancorada na impossibilidade de esgotamento da narrativa.

Vicente Serejo está aí para provar o que a arte da crônica pode nos oferecer.  Curiosamente, o autor publicou apenas três livros. Pode ainda contribuir muito mais, com esse gênero, para a nossa literatura como tem dado significativa contribuição para o nosso jornalismo.

Em suma, Vicente Serejo consegue transpor para o papel e para a organização literária, recortes de vida e de história que se transformam em crônicas, verdadeiramente, modelares.

O jornalista macauense é bibliófilo, dono de uma mais completas bibliotecas particulares do Rio Grande do Norte.  É membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras e de outras instituições culturais.  Atualmente escreve para esta Tribuna do Norte.



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