Vida e obra de Lima Barreto em livro de fôlego

Publicação: 2017-06-24 00:00:00 | Comentários: 0
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Há pelo menos 20 anos, a antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz vem flertando com a obra do escritor Lima Barreto (1881-1922). Mas foi em 2007 que ela iniciou o que viria a se tornar seu trabalho de maior fôlego e que reforçará sua imagem de uma das mais importantes pesquisadoras brasileiras - Lima Barreto: Triste Visionário, esperada biografia que traça não apenas a trajetória artística do autor, mas também seus dissabores pessoais. Trata-se do mais completo mapeamento sobre o escritor desde o pioneiro trabalho de Francisco de Assis Barbosa que, em 1952, lançou A Vida de Lima Barreto, que resgatou a importância da escrita do autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma, injustamente esquecida desde sua morte, em 1922. Esgotado há alguns anos, o volume ganha agora oportuna reedição pela editora Autêntica.

Ciente da importância da pesquisa de Barbosa (dedica-lhe até um capítulo), Lilia oferece um olhar original ao traçar a trajetória do biografado a partir da questão racial - mulato, filho de pais com instrução, mas de humilde situação financeira, Lima Barreto, a partir da adoção de um estilo seco e direto, lutava para que a literatura fosse um meio de levar ao homem comum a mensagem de sua libertação e um estímulo para continuar lutando para o reconhecimento de todos os seus direitos fundamentais.

Obra traça a trajetória artística e a vida de Lima Barreto
Obra traça a trajetória artística e a vida de Lima Barreto

Lilia fará a palestra de abertura da 15.ª Flip, dia 26 de julho, pois o evento vai homenagear Lima - uma honra há muito esperada. Afinal, apesar de ser o grande romancista da geração pós-machadiana e pioneiro do romance moderno brasileiro, Lima via com olhar muito crítico a obra de Machado, além de ter esnobado a geração dos modernistas. Dono de uma linguagem rica de comunicação e de recursos expressivos, Lima tinha a escrita como plataforma social. Não reconhecido devidamente em sua época, Lima revelou-se um homem do futuro, como constata Lilia nesta entrevista.

Lima tinha um projeto de vida que era a literatura. Por que não deu certo?
Durante um certo tempo, tratou-se de Lima Barreto sob a perspectiva da vitimização. Ele era de fato uma vítima, mas tinha um projeto, e isso é muito importante de a gente destacar. Brinco que era o projeto do contra, ou seja, "vou me inserir sendo do contra". Ele era contra a Academia de Letras, apesar de ter tentado entrar três vezes. Era contra o futebol, numa época em que o esporte já fazia muitas paixões. Era contra um certo feminismo, mas contra o assassinato de mulheres. Contra a literatura de brindes, de sobremesas e de toaletes, e a favor de uma literatura realista. Também foi anarquista num momento que era complicado ser anarquista. Então, ele tinha um projeto? Tinha. Ele era contrário às políticas de exclusivismos da República. Qual era o projeto do Lima Barreto? Era o de contrariar. Isso não deu certo porque o primeiro livro dele acusava um tipo de jornalismo, que silenciou diante de Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909). Mais adiante, sai Numa e a Ninfa (1915), contrário aos políticos, ou seja, em pouco tempo, conseguiu ter contra ele jornalistas e políticos. E aí foi acumulando desafetos até terminar a vida isolado, mas não vitimizado.

O fato de ele ser negro e não ter recursos contribuiu para não ser aceito?
Contribuiu e ele também agenciou muito isso, a partir da ideia de que não é um figurante passivo - vai construir sua persona. Parte dessa construção é de um Lima Barreto que faz um Rio de Janeiro mais amplo, que inclui o centro e os subúrbios, onde ele vivia. Ele sempre morou em Todos os Santos. Então, a partir desse trajeto pelo trem da Central do Brasil, Lima descreve a pobreza com imensa dignidade, assim como observa a aristocracia do subúrbio com muito escárnio, concentrada sobretudo em Botafogo e Méier, bairros que desprezava solenemente. Lima foi uma pessoa pobre, mas de uma classe média de funcionários públicos do Rio de Janeiro.

Ele sofreu?
Sofreu. Ele não era da linha da pobreza, mas, como amanuense, teve de ser arrimo de família muito cedo - em 1902, o pai teve acessos de loucura que seriam diagnosticados como neurastenia e, a partir de 1903, Lima é arrimo de família. Então, teve uma vida difícil? Isso explica? Não. Outro ponto: o fato de ser negro. No Brasil, sabemos que as pessoas manipulam a questão da cor. O que fez Lima Barreto? Trouxe a questão da cor para o primeiro plano, sobretudo nesse momento, início do século 20, quando era assunto secundário. Ele trouxe para frente, sobretudo nas crônicas, nas quais fez uma denúncia muito forte e fundamental contra o racismo existente no Brasil. Lima não chamava de racismo institucional, como hoje chamamos, mas já diagnosticava como pós-abolição, um momento que ele viveu. Um momento em que se tentou perpetuar as diferenças pautadas primeiro numa instituição perversa, como era a escravidão, e depois na cor da pele. Ele mesmo se descrevia da cor de uma azeitona escura, uma forma de usar essa régua da cor social que, ao mesmo tempo, pode incluir, mas também é exclusivista e cria uma série de discriminações.

LIMA BARRETO: TRISTE VISIONÁRIO
Autora: Lilia Moritz Schwarcz
Editora: Companhia das Letras (704 págs., R$ 69,90 versão impressa, R$ 39,90 e-book)

A VIDA DE LIMA BARRETO
Autor: Francisco de Assis Barbosa
Editora: Autêntica (432 págs., R$ 54,90)

Agência Estado

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