Vida rural com sotaque "pra ralê!"

Publicação: 2018-09-23 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Não foram poucas as vezes que o locutor Riva Júnior colocou uma galinha para cacarejar ao vivo para sua audiência no rádio. As aves são um tipo bem comum de presente que os ouvintes costumam entregar para o radialista não importa a emissora em que ele trabalhe. Mas nem sempre o presente é deixado na rádio. Muitas vezes o agrado é um convite para saborear um galinha caipira na casa de alguém. De tanto falar dessas galinhadas em seus programas, Riva ganhou um apelido que o ajudou a torná-lo ainda mais conhecido: Raposa do Nordeste.

Apresentador de programa voltado para a cultura sertaneja, com um sotaque típico e trilha sonora de raiz, lembra as muitas histórias e personagens que lhe inspiram nesses 18 anos de carreira
Apresentador de programa voltado para a cultura sertaneja, com um sotaque típico e trilha sonora de raiz, lembra as muitas histórias e personagens que lhe inspiram nesses 18 anos de carreira

Raposa do Nordeste – ou Riva Júnior –, é um dos locutores mais queridos de Natal. Prestes a completar 45 anos de idade, ele está desde os 18 atuando nas principais rádios da cidade. Atualmente ele a voz que abre a programação matinal da Rádio Rural de Natal. A emissora comemorou 60 anos de transmissões em 2018 e neste mês de setembro começou a operar oficialmente na frequência FM (faixa 91.9).

O programa de Riva é o “Bom Dia Rural”, que vai ao ar de segunda à sexta, das 5h às 8h. O estilo é o que ele vem desenvolvendo desde 1999, quando estreou na 98 FM um programa popular, de forte sotaque sertanejo e com conteúdo voltado para a valorização da cultural nordestina. Então pegue forró, causos e declamação de poesia, tudo apresentado com bom humor e a presença dos ouvintes, de um jeito que só a Raposa sabe conduzir.

Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Riva conta um pouca da sua trajetória pelas rádios natalenses, sua ligação com a cultura sertaneja, lembra algumas histórias curiosas, fala do seu lado cantor e até da recém inciada carreira de ator. Confira o bate papo.

De ouvinte a locutor
Nos anos 70 e 80 era comum aqueles gravadorezinhos de brinquedo. Eu adorava. Gostava de ouvir minha voz. Mas eu só fui me interessar por rádio mesmo em 88, quando conheci um locutor de perto, o Jean Fernandes. Eu tinha 15 anos. A partir dele, passei a visitar outros locutores em outras rádios, participar ao vivo dos programas. Tanto que quando eu comecei a trabalhar como locutor, em 1992, eu já conhecia o pessoal todinho, porque eu já era um ouvinte daqueles de viver em rádio.

Do pop rock ao forró
Quando eu comecei no rádio, era difícil emplacar um programa de perfil muito popular. Tocar forró antigo, falar com muito sotaque, diziam que era brega, coisa de locutor de AM. Como o que eu queria era participar daquele mundo das rádios, eu topava o que me pediam pra fazer. Comecei num programa de pop rock. O estilo de programa que faço hoje na Rádio Rural eu só fui começar a fazer em 1999, quando estava na 98 FM. A rádio não gostou muito mas deixou. Teve uma turma que criticava bastante. Dizia que era programa de pião, que eu botava todo tipo de gente no estúdio. Mas em pouco tempo o programa estourou. Cresceu em audiência e em patrocínios. Ai não teve quem segurasse. Não importa a rádio que eu for, os ouvintes vão comigo.

Da cidade ao interior
Eu fui criado entre o Alecrim, as Quintas e São Gonçalo do Amarante, terra do meu pai. Esse meu lado popular e regional que o pessoal vê na rádio vem da minha família, quase toda do interior. Eu sempre viajava com eles para o sertão. Adorava. E nessas viagens eu aprendia muitas coisas. Mas também sempre fui de ler sobre as coisas sertanejas. Todo dia leio algo do tipo no celular. Pesquiso sobre cultura nordestina, música, história do Rio Grande do Norte. Sou apaixonado coisa antiga. Dói quando vejo alguma casa desabando. Outro dia fui em São Rafael e vi a Fazenda do Barão de Serra Branca. Está num estado horrível.

Inspiração nas rádios do interior
Programas no estilo do meu tem muitos pelo interior. Sãos os que se propagam mais. Em Caicó tem o Lúzio Alves, “O Sertanejo Feliz”. É um grande comunicador. Paraibano que mora aqui no RN há uns 40 anos. Me espelhei muito nele. Posso dizer que eu sou um Lúzio Alves com pitada de FM. Em Pau dos Ferros tem o Chico Cobra D'água, fez muito sucesso em Fortaleza também. Em Santa Cruz tem o Romualdo Silva. Em São José de Mipibu tem o Renan Silva. Nova Cruz, Robson Gomes. Tudo no estilo nordestino. Se eu tivesse uma rádio, eu ia pegar esses comunicadores do interior tudinho.

É pra ralê!
As expressões que falo vêm do dia-a-dia. Alguém que diz alguma coisa interessante e eu pego. Esse bordão, “Pra Ralê!”, foi de 98, eu estava na 96 FM. Peguei por acaso. Mas só vim massificar ele tem uns oito anos. Na época eu não massificava os bordões como hoje. Quando o pessoal me encontra na rua diz muito “Obrigado pela força”, outro bordão que fez um sucesso grande. Tem expressão que eu falo sem perceber. O público que nota e descubro que pegou quando chego na rua e vejo o pessoal falando. Antes locutor só faltava falar chiando. Eu mesmo chiei muitos anos. Diziam que era pra ter uma linguagem padrão.

Raposa do nordeste
O apelido surgiu em 2004. Antigamente eu era bem farrista, ia comer na casa do povo, viajava muito. E eu falava essas coisas nos programas, dizia que ia comer galinha na casa de fulano ou que ontem comi não sei aonde. Ai num programa às 4h40 da madrugada, na 98 FM, um senhor, lembro até hoje o nome dele, Seu Abel, fez uma participação ao vivo. Ele disse que eu comia galinha demais. “Você é a raposa do nordeste”. Eu achei engraçado na hora, mas passou. Quando vi, os ouvintes já estavam  falando. Virou uma bola de neve. Eu fui numa cidade e era tanta gente me chamando de raposa que decidir adotar.

Proximidade com os ouvintes
Nos meus programas eu deixo o estúdio aberto pra todo mundo. Frequente muitos lugares populares. Adoro feira livre. Quase todo domingo vou a feira de Lagoa Seca, na rua São José. Temos uma confraria lá. A gente chega às 6h da manhã pra tomar café e conversar e só sai às 10h. Esse contato direto com o público as pessoas gostam, repercute na audiência. E eu sou um cara que gosta de está no meio do povo. No dia que não vou pra feira o pessoal reclama.

Presentes inusitados
Já ganhei muita galinha viva. Normalmente, quando estou no ar, ponho ela pra cacarejar no microfone para os ouvintes. Quando é meu aniversário eu recebo bode, carneiro, guiné, morto ou vivo, é uma festa no estúdio. Semana passada teve um que trouxe uma galinha cozida com macaxeira. Comeu todo mundo aqui.

Figuras
Nos meus programas gosto de botar o pessoal pra falar. Tem um ouvinte que aparece nos meus programas faz tempo. Valmir Doçura, figuraça, fala muito, o pessoal gosta. Mas tem outros: Ninho de Joana (Joana é a mãe dele), Pecilho das Pinha, João Gambá. Tudo eu ponho para contar história ao vivo.

Poesia popular
Além de história abro espaço para os nossos poetas também. Durante 20 anos participava do programa o poeta Bob Motta. Faleceu ano passado. Durante 12 também participou comigo o Ademar Macedo, falecido há seis anos. Depois desses, não apareceu mais nenhum pra ficar fixo. Mas sempre tem. Ontem veio aqui o poeta Paulo Medeiros, de Extremoz. Outros que já apareceram foram Geraldo da Zona Norte E Palito da Beija-flor, de Macaíba.

Ouvinte
Eu era locutor da 98 FM, lá começava às 4h e ia até às 8h. Na época tinha as festas no Clube Cosern. Já sai muito de show direto pra rádio. Mas teve um dia que cheguei cedo e fui tirar um cochilo na recepção. Já tinha ouvinte esperando na rádio pra assistir o programa comigo. E num é que o vigia me acorda dizendo que tem alguém apresentando o programa. Era um dos ouvintes. Mandei sair na hora, esculhambei. Ele passou uns seis meses sem aparecer, mas depois eu o perdoei. O dono da rádio só está sabendo disso agora porque eu estou dizendo pra você.

Cantor de forró
Eu cantava por brincadeira. Ai num dia um cara me chamou pra comer uma galinha numa casa de forró em São José de Mipibu. Coisa pequena. Ele me chamou, chamou o Cabeção do Forró, o Zé Barros e outros amigos. Quando chegamos lá, estava lotado. O cara tinha anunciado como um show da gente. Decidi que ia começar a fazer show ai. Criei a Caravana do Riva Júnior, eu, Cabeção do Forró, Zé Barros, outros cantores locais e um grupo de músicos por trás. Fiz o primeiro show em Lagoa de Pedras. Depois foi só sucesso. Era show de quinta a domingo direto. Mas de 2015 pra cá diminui muito. A lei seca, crise financeira e violência fez diminuir as festas.

Ator
Comecei como ator faz quatro anos. Uma vez eu estava na rádio e encontrei um panfleto de curso de ator em Natal. Fui lá fazer. Curso de três meses. Conclui participando de uma peça. Também atuei no filme “Além do Plano”. Já gravei vários curtas, fiz cursos no Rio de Janeiro e em São Paulo, fiz cadastro na Globo. Gravei recentemente o curta “Beco da Quarentena”, com a participação do ator Ancelmo Vasconcelos. Está participando de festival. Estou gostando muito de atuar.

Colaborou: Cinthia Lopes, editora


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