Violência iconoclástica

Publicação: 2020-07-05 00:00:00
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Diógenes da Cunha Lima  
Escritor, advogado e presidente da ANL


O vandalismo é uma das características devastadoras do nosso tempo. Protestos são seguidos de saques e destruições. O alvo agora é a danificação ou, às vezes, ruína total de estátuas representativas de personagens importantes, sob o equivocado   pretexto de que elas representam o politicamente incorreto. Foi por pensarem assim que os vândalos, de plantão, na Virgínia/Estados Unidos, jogaram, em um lago, a estátua de Cristóvão Colombo, navegador e explorador europeu que chegou ao continente americano em outubro de 1492. Já em Boston, a estátua do navegador foi decapitada. 

Em Londres, o prefeito da cidade, Sadiq Khan, junta-se à turba para destruir a imagem do Patriarca da Cidade, que fora mercador de escravos por ordem do rei no século XVII. Julgam o passado com o ponto de vista de hoje. A imagem do ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Winston Churchill, ganhou pichação acusando-o de racista. 

Não se observa o contexto sociocultural. Esquecem de que a história, aquela a que nos referimos aqui, não é feita por santos nem anjos, mas por protagonistas que pensavam e agiam de acordo com seu o tempo. Não se lembram de que o artista tem o direito de ter preservada a sua obra. Desprezam a lei e quem fez a história, bom ou mau, o patrimônio público e o fazer artístico. 

Espantosamente, ainda há gente que justifica tão deplorável ação.  Exemplo disso, cita-se o escritor, jornalista inteligentíssimo Sérgio Augusto. Ele nega que haja vandalismo, será: “Purificação urbanística de revivicação histórica”.

A fúria “purificadora” foi tomada pelos nazistas de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, como ato simbólico. Queimaram milhares de exemplares de livros, entre os quais, Thomas Mann, Bertolt Brecht, Nietzsche e até mesmo um dos livros de predileção de meu pai, de autoria de Erich Maria Remarque. Graças a Deus eram todos cópias. Não foram originais como os da Biblioteca de Alexandria ou como as tabuinhas da escrita cuneiforme, que foram liquidadas por bárbaros soldados norte-americanos na invasão do Iraque.

Em vez de derrubar para fazer uma nova história, certamente, seria bem melhor que se dedicassem a escrever e colocar na mídia universal os vícios e erros dos protagonistas do passado tornada imagens.

Se os iconoclastas radicalizarem, poderão destruir a mais bela estátua do mundo, o David de Michelangelo, em Florença. O rei David tinha escravos como todos os reis da época e foi assassino de um fiel soldado, Urias, para lhe tomar a mulher, a bela Betsabá. Além disso, aliou-se aos inimigos de seu povo, os filisteus, atuais palestinos, tradicionais inimigos de Israel. Outro David pintou a coroação de Napoleão, um dos maiores destruidores de homens. São obras-primas, patrimônio da humanidade. 

Não se pode e nem se deve apagar a história. É importante preservar essas obras, apesar da reprovação de alguns. Melhor do que destruir, atitude reprovável, seria outra obra, com outro ponto de vista, ser colocada e, assim, formar uma história-monumento para que as gerações possam compreender e debater o passado.

Voltar-se ao passado, mesmo o que se nos apresenta através dos monumentos, olhando-o com criticidade, melhor se atuará no presente e, assim, vislumbrar-se-á com inteligência o futuro. NÃO à destruição! NÃO ao vandalismo, sob qualquer pretexto.