Violencia contra a mulher: vítimas e autoridades falam sobre necessidade da denúncia

Publicação: 2019-12-01 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

A cada dois segundos, uma mulher é vítima de violência física ou verbal no Brasil, segundo o Instituto Maria da Penha. Essa reportagem levou 1 hora, 5 minutos e 56 segundos para ser escrita. Nesse tempo, 1.978 mulheres sofreram violência.


Na calçada do posto de saúde do bairro Felipe Camarão, zona Oeste de Natal, Alexsandra Cândido recebe a reportagem com entusiasmo. Agente de saúde da unidade, conduz a equipe até uma sala com ar-condicionado e, antes de iniciar a entrevista, pede para as fotos serem feitas próximo às plantas do local – quer um cenário luminoso. Alexsandra é mãe de três filhos, tem os cabelos negros e longos, usa maquiagem e ama o teatro. É uma mulher que tem orgulho de si. Imagem oposta a de 13 anos atrás, época em que foi agredida fisicamente pelo marido uma noite e esfaqueada em duas situações após se divorciar. Tudo em 2006, ano em que a Lei Maria da Penha foi aprovada.

Alexsandra Cândido, 44, passou 14 anos vivendo sob violência dentro do casamento. No início, como ela conta, eram agressões verbais até que foi esfaqueada

Naquele ano, 61 mulheres foram mortas no Rio Grande do Norte, segundo os registros do Sistema Único de Saúde (SUS). Aproximadamente 20 delas, após serem esfaqueadas, como Alexsandra foi. Havia três meses que estava divorciada do primeiro casamento e o esfaqueamento aconteceu ao recusar o pedido de retorno pela quarta vez. “Foi quando ele pegou uma faca e disse 'se você não vai ser minha, não vai ser de mais ninguém'”, relembra.

As agressões contra a mulher não eram registrados pelo SUS em 2006. Passaram a ser a partir de 2009, quando Alexsandra já estava no Fórum de Mulheres do Rio Grande do Norte falando sobre o seu caso por todo Brasil. Desse ano a 2017, último ano compilado nas estatísticas do SUS, 10 mil mulheres agredidas foram atendidas no Rio Grande do Norte e 791 foram mortas. A estatística foi reunida pelo Instituto Igarapé, do Rio de Janeiro, que estima que os números são maiores. Muitas mulheres ainda são agredidas, mas não procuram ajuda.

Com Alexsandra Cândido não foi diferente. Hoje, aos 44 anos, ela reconhece que sofreu violência durante 14 anos. As primeiras agressões eram verbais, resultado de crises de ciúme do marido. “Ele tinha ciúme até de irmãos e das minhas amigas mulheres”, conta. “Primeiro, era só ciume. Depois, começou a dizer que ia cortar o meu pescoço fora e que se descobrisse que eu estava tendo um caso me mataria. Mas eu não via isso como agressão”.

O marido era considerado por todos como pai presente, amigo e um homem trabalhador. Por causa dessa imagem, Alexsandra diminuía o que acontecia em casa durante as crises de ciúme e não contava para ninguém. Depois começou a sentir que não devia pedir divórcio por conta dos três filhos. Os presentes após as brigas e as promessas de que iria mudar também desencorajavam a mulher a se separar. Para ela, a situação chegou ao extremo quando a agressão saiu do verbo e passou ao corpo.

Era noite, Alexsandra havia chegado de um curso de agente de saúde e foi acusada de estar em um motel com um amante. “Aí ele pegou meu cabelo, amarrou e me jogou no chão”, relembra. A cena ocorreu na frente do filho caçula, que fingia que estava dormindo. “Anos depois, eu soube que ele estava fingindo e viu tudo. Foi nesse dia que eu decidi que teria que me separar”.

A denúncia de agressão não ocorreu de imediato. A decisão aconteceu após a primeira facada, que causou ferimentos nas costas e nos braços. Sobreviveu graças ao socorro de duas vizinhas, que invadiram a casa dela, expulsaram o agressor e acionaram o Samu. Temeu ser morta e foi à delegacia no dia seguinte. Mas, enquanto esperava o ônibus, o ex-marido a esfaqueou de novo. Dessa vez, dois homens de uma oficina a socorreram. O ex-marido também foi pego pelos homens e preso em flagrante pela polícia.

Foi a partir dessa denúncia que a vida da agente de saúde mudou. O ex-marido e agressor de Alexsandra foi condenado pela Lei Maria da Penha, em vigor há pouco mais de seis meses. Por uma colega de trabalho, conheceu o Fórum de Mulheres, do Coletivo Leila Diniz, e tomou consciência dos direitos das mulheres. Passou a viajar pelo Brasil para palestras, conheceu Maria da Penha, casou pela segunda vez e se graduou em serviço social. Atualmente, fala abertamente sobre o assunto e mantém o contato com o ex-marido, hoje solto, somente no que diz respeito aos filhos, já adultos. “Mas se ele era um bom pai quando estava junto de mim, hoje não liga para eles”, ressalva.

“A maioria das mulheres não denuncia porque tem medo. Eu também tinha e não contava para ninguém, mas quem me salvou quando eu fui esfaqueada foram duas vizinhas que sabiam que eu estava separada. A rua estava cheia de gente que escutou meus gritos, mas quem me salvou foram as únicas que sabia de alguma coisa. É por isso que tem que falar sobre”, conta. “Hoje eu sou uma mulher livre, mas mesmo depois dele ser preso eu sofria outros tipos de violência. As pessoas julgam que você foi agredida porque fez alguma coisa de errado, mereceu. Isso vinha de vários lados. Me preocupava muito, mas eu percebi que não posso viver olhando o julgamento da sociedade”.

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