Violentando palavras

Publicação: 2020-05-22 00:00:00
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Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Créditos: Divulgação


Nem a mais bondosa entre as carolas ousou duvidar de que a Arena das Dunas seria um cancro financeiro e moral para o Rio Grande do Norte. Nem a mais fiel entre as beatas foi convencida de que ali, naquele trambolho enfiado à força na paisagem de Natal, estaria o legado da modernização de uma terra de crédulos quando o assunto é forasteiro tomando dinheiro público. 

Enquanto não engomava a calça, pois não sei passar roupa nem cantar como Ednardo, tampouco preciso tirar a bermuda no isolamento do Coronavírus, pensava em dois estupros cometidos com palavras sagradas do nosso vocabulário. 

Profissional deixou de ser sinônimo de qualidade, inteligência, cumprimento de missões no ofício de cada um, para virar verbete informal de safadeza. Por exemplo: “Fulano conseguiu vender uma casa que valia 150 mil por 400 mil reais. Só na lábia. O cara é  profissional”. 

Do ramo imobiliário para o oceânico: “Comprou um navio que valia 3 milhões de dólares por 800 mil reais. É ou não é um profissional?” Na vaidade da testosterona, a roda comentava no bistrô antes do Coronavírus:  ” Romão tem três mulheres. A legítima, a cunhada e mais uma novinha, de 20 anos. Romão é um profissional!” 

A construção da Arena das Dunas foi obra de profissionais. É entrar no Google,  digitar Arena e uns dez anos passados que você não irá encontrar um só cristão, ateu ou blasfemo, ligado ao futebol nem que pela tomada da televisão para assistir a uma pelada qualquer, envolvido no pandemônio. 

Eram todos engravatados, olhinhos brilhando por orçamentos e dispensas de licitação. Nunca chutaram uma bola. De couro. Se gostavam da roliça de outro tipo, meu é que não é o problema.

Assemelhados eram à Grã-Fina das Narinas de Cadáver, do fantasma  Nelson Rodrigues, ao entrar nas especiais do Maracanã antigo e perguntar, petulante: “Quem é a bola?”. Esse era o padrão de conhecimento dos peregrinos da Arena das Dunas. 

Puxei a calculadora, saí a somar, tremendo erro no violentado profissionalismo, no qual o importante é sacar. Os quatro jogos realizados no que parecia ser Natal - A FIFA assumiu todos os poderes legítimos e constituídos da cidade - levaram 158.033 pagantes a ver México 1x0 Camarões, Gana 1x2 EUA, Japão 0x0 Grécia e Uruguai 1x0 Itália. Natal ficou famosa não por gols, dribles ou defesas, mas pela dentada do uruguaio Luís Suárez no italiano Chiellini. 

Nenhum dos quatro jogos ultrapassou a plateia de clássicos inesquecíveis no Castelão(Machadão). O maior público do festim-butim de 2014 foi o de Gana x Estados Unidos: 39.760. 

Está abaixo das 10 maiores concentrações de massa do derrubado Machadão. “Na FIFA, só tem profissional”, ouvi de muito colega, homem, que fez selfie com o intragável assessor de imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, ligadíssimo ao capo Ricardo Teixeira e ex-namorado de Maitê Proença. Marmanjo não faltou pedindo autógrafo ao jornalista. Provinciana subserviência. Nada profissional.

Tirando o profissional do campo, dos carnavais, dos forrós, das feiras, dos shows, do exibicionismo e da empáfia da empreiteira, o episódio da Arena das Dunas faz ressurgir outro adjetivo injusto e deturpado: fulano de tal é um Pelé. 

Apenas amostras grátis: fulano vendeu um carro com defeito no câmbio e ainda conseguiu um ágio de 15%. É ou não é um Pelé? debatem marmanjos ostensivos ouvindo forró de 18a categoria. 

Pelé é alegria, mundo aos seus pés, é matada encaixada no peito, foi atleta sem defeito. A lindeza de suas partituras em campo levava encantamento ao povo, o oposto de trambicagem. Ou trampolinagem. 

Nunca me enganei com a Arena das Dunas. Um entulho. Uma demonstração vira-latas de controle de uma empreiteira sobre aquilo que pertence ao Estado e ao povo, embora este saiba apenas em discursos que é dono dos direitos em tempo algum lhe assegurados. 

Profissionalismo e Pelé são expressões positivas, não podem ser usadas como lema de vigarista. A Arena das Dunas está mais para Covid-171, esperteza de enganação sorrateira, vantagem desleal dos malandrões  sobre o otário chamado Rio Grande do Norte. 

Bola, não Segundo o infectologista Antônio Araújo, contratado pela FNF, até agosto, nada de futebol pois a doença não teve a queda esperada. Ao contrário. Talvez setembro ou  outubro. Que são mais próximos de novembro e dezembro do que de maio. Simples: pode ficar tudo para  2021.

Recomeçar  
Duvido que algum boleiro entre tranquilo em campo se voltar o campeonato estadual. Um espirro num escanteio e corre até quem não foi ao estádio. 

Fernandes 
O técnico do América, Roberto Fernandes, está doido para voltar. Para segurança dele e dos atletas, é aguardar o que dizem os médicos. 

ABC 
A saída de João Paulo requer um novo camisa 10. 
 
Gesto 
Apolônico Palmas para o craque Marinho Apolônio, que não canso de exaltar como talentoso e artilheiro. Aposentado, Marinho resolveu continuar pagando sua mensalidade à Associação dos Atletas Profissionais(AGAP). 
 
Gratidão Marinho 
Apolônio resolveu manter-se filiado para ajudar  colegas dominados pelo vício alcóolico  e  pelo trabalho realizado pelo ponta-esquerda Edmilson, excelente driblador do Alecrim das antigas. 

Exemplo 
O exemplo de Marinho Apolônio reacende a luz da crença clareando o ser humano. Marinho, na minha opinião, foi o melhor jogador potiguar desde Alberi. Mesmo nível.






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