Vivendo igual caranguejo – a resistência Catu

Publicação: 2019-02-08 21:38:00 | Comentários: 0
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Agência Lide/UFRN
Isabella Oliveira

“Antigamente eu andava aqui tudo, onde tinha brincadeira, onde tinha jogo eu tava… Agora chega um branco com um papel escrito umas coisas e diz que essa terra é dele… ” relembra Nino Caninana, enquanto guia mais um grupo de visitantes para a trilha pela mata às margens do Rio Catu, rio este que dá nome e vida à Comunidade Indígena do Catu, no município de Canguaretama, Rio Grande do Norte. Em 2010, o IBGE registrou 2597 índios espalhados pelo estado, menor número em todo o país. Essa diminuição foi gradual e dolorosa para a comunidade do Catu, e diante disso, as comunidades resistentes necessitam lutar com ainda mais força para afirmar sua cultura e garantir sua terra e sua sobrevivência.Antes da chegada de qualquer sinal de sociedade externa, viviam na ponta do mapa do Brasil, um grande número de índios; eles se comunicavam unicamente em tupi, viviam da agricultura de milho, amendoim, feijão, abóbora, da mandioca e da batata-doce, da caça e da pesca e mantinham contato direto com sua mãe tão rica e protetora, a Natureza.

Comunidade do Catu, em Canguaretama
Comunidade do Catu, em Canguaretama

A espiritualidade do povo indígena é diretamente ligada à natureza, e é através dela que eles se guiam até os dias de hoje e colecionam histórias sobre a floresta e seus encantos. Para eles, todas as suas necessidades podem ser atendidas por sua mãe natureza, com sua enorme abundância de plantas e animais, rios e montanhas. A chegada dos colonizadores no Brasil causou estranhamento por parte dos nativos, por se depararem com uma cultura totalmente oposta do que se vivia na época, mas que de imediato acolheram, deram alimento e local para descansar, segundo relato dos ancestrais dos Potiguaras. “Quem disse que eles descobriram essa terra? A gente já estava aqui!”, exclama Luiz Katu, cacique da tribo.

Historiadores afirmam que antes da chegada dos europeus à América havia aproximadamente 100 milhões de índios no continente. Só em território brasileiro, esse número chegava a 5 milhões de nativos, aproximadamente, e de acordo com o senso de 2010, esse numero caiu para pouco mais de 800 mil. Como o domínio de uma cultura conseguiu retirar os espaços de sobrevivência de outra? A resposta para isso seria a lógica mercadológica já implementada nos portugueses e europeus que chegaram ao Brasil em 1500. Estudiosos relatam que os primeiros contatos entre índios e brancos se davam através do escambo, que consiste na troca de produtos, mas que logo se transformou em escravidão, transformando o indígena em força de trabalho e, assim, lhes retirando suas características culturais.Nos dias de hoje, a existência de comunidades indígenas é sinônimo de resistência e de necessidade de se organizar politicamente, a fim de garantir sua terra e seu reconhecimento enquanto cultura. A comunidade do Catu, que já quase desapareceu, se reorganizou e desde os anos 2000 lutam junto aos órgãos competentes por território e políticas públicas. De acordo com o professor Luiz Katu, cacique, morador e representante da população local indígena junto a FUNAI, o território cultural da população apresenta uma grande área de abrangência, sendo ao todo três catus localizados nesta região. Segundo ele, a existência de tal território é importante para manter a identidade do lugar bem como a preservação do espaço sócio-ambiental. Medidas internas tem sido tomadas como a criação de trilhas ecológicas, que visam não somente a apreciação da paisagem mas principalmente a conscientização da população externa acerca da comunidade existente e os problemas por eles enfrentados. Ao receberem visitantes externos, a partir da Escola Indígena João Lino da Silva, primeira escola indígena do estado, oferecem trilhas nas matas da região, oficinas de pintura corporal, arco e flecha, língua Tupi, degustação de alimentos tradicionais, venda de artesanato e a apresentação do Toré, dança ritual indígena.

Os indígenas sofrem com o genocídio, o preconceito, a perseguição, o desenvolvimento predatório e a invasão dos territórios, mas garantir seu espaço é garantir a existência de sua cultura e o desejo de passar para frente seu conhecimento de mundo. “O nosso povo celebra com muita alegria, sabendo que a gente faz memória da nossa ancestralidade, dos nossos antepassados, de todos os guerreiros e guerreiras que morreram na luta pra defender o nosso povo, para que um dia pudéssemos ter terra garantida pra vivenciar nossa cultura, identidade, costumes e tradições”, afirma Vando, morador da comunidade. O nordeste abriga hoje 24% dos povos indígenas brasileiros. A comunidade do Vale do Catu, onde habitam cerca de 110 famílias, vêm nestes últimos anos desenvolvendo atividades de fortalecimento de sua identidade indígena a fim de garantir sua existência frente à chegada de usinas e industrias na região, que hoje, representam o maior risco à vida indígena.Nino Caninana é mangabeiro e conta que é cada dia mais comum encontrar animais mortos na região por envenenamento com substâncias vindas das usinas que ficam próximas à comunidade, e isso causa um choque muito grande. “A gente não pode caçar senão o IBAMA até prende índio, mas as usinas matam milhares de animais e ninguém fala nada, sempre encontro muito bicho morto por aqui. A gente caça pra comer, a gente não caça sem a mãe natureza deixar, o índio respeita a natureza, o branco destrói”, comenta. Os maiores desafios da co-existência ao lado de uma cultura totalmente oposta ainda é garantir seus direitos de vida e de terra, por isso, a Comunidade do Catu comemora tanto a criação da Escola Indígena. “Muita gente diz que isso de ter escola é coisa de branco, mas pra gente ter uma escola é garantir que os curumins [crianças] aprendam o tupi, aprendam sobre a nossa história, nosso sangue” conta Nino.

Dois mundos
“Aqui são dois mundos, de um lado, o agronegócio, com suas maquinas, irrigação, plantações gigantes de cana de açúcar, muita tecnologia, aqui em baixo, um povo vivendo igual caranguejo, resistindo, lutando pra continuar plantando batata. Não quer mais do que isso, quer coletar batata, coletar caju, coletar mangaba, mas mesmo assim o agronegócio quer tirar a gente daqui. Sabe porque? porque estamos em cima do ouro de Canguaretama, o maior manancial de água mineral dessa região. Os potiguaras estão protegendo com a vida” revela Luiz Katu no emocionante discurso durante o dia de comemorações da 15a Festa da Batata, tradicional festejo da comunidade, que comemora a colheita do principal alimento da agricultura Potiguara. Ele conta dos ataques à comunidade e da resistência que empregam para não terem sua história apagada e poderem finalmente recontar, da ótica de quem viveu ela.


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“Precisa vir aqui, falar com a gente, ver como a gente vive”, comenta Luiz Katu. A comunidade do Catu vive hoje em ameaça constante por parte do governo, que frequentemente retira direitos antes garantidos constitucionalmente, como por exemplo o Decreto nº 9.010, de 23 de março de 2017 do Governo Federal, que tem como objetivo desmontar a FUNAI e fechar a Coordenação Técnica do Rio Grande do Norte, que foi uma conquista dos povos indígenas no ano de 2011, e que muito contribui para o desenvolvimento da política indigenista, onde historicamente é colocado a situação de não mais existência dos povos indígenas no estado, causando a invisibilidade e o preconceito institucional cotidianamente.

Por parte do agronegócio, não é diferente. Investimentos em fazendas de carcinicultura (criação de camarões em cativeiro) passaram a se desenvolver a partir da década de 1990. O fluxo turístico alcança igualmente a região. Desde o final do século XIX até o início do século XX, a região sul do Rio Grande do Norte passou por um período de expansão econômica, baseada no extrativismo vegetal. Coletou-se, por muito tempo, o látex da mangabeira, cujo líquido, transformado em borracha, teve grande importância como produto de exportação. Os engenhos de cana se modernizaram em grandes usinas de biocombustíveis na região, atividade que destrói a terra e que gera necessidade de ocupar novas propriedades, a fim de manter a produção. A dominação política consolidou-se com a chegada da base aérea estadunidense na cidade de Parnamirim, próximo a Natal, no ano de 1941. Identificado nos mapas estratégicos estadunidenses como “Trampoline of Victory”, Parnamirim Field foi a base de um triângulo que apontava para o “teatro de operações” (o norte da África e o sul da Europa), agravando ainda mais a exploração da natureza e da humanidade local. Os indígenas do Catu ainda denunciam sobre a qualidade da água e do solo, e contam que sofrem constantemente despejos de vinhoto, agrotóxicos e fertilizantes oriundos das plantações de cana-de-açúcar da megacorporação, hoje francesa, Louis Dreyfuss Commodities Bioenergy, instalada próximo à comunidade. Diante desse cenário, o massacre contra todos os resistentes das terras locais foi intenso e sangrento e continua acontecendo.

Após anos de silêncio, nos quais estas populações foram dadas como extintas no estado, desde o inicio dos anos 2000, diferentes grupos étnicos reivindicam publicamente sua identidade indígena em território potiguar: Comunidade do Catu de Canguaretama, Mendonça do Amarelão de João Câmara; Caboclos de Açu; Comunidade de Banguê e Trapiá, também em Açu; Comunidade de Sagi, cujos antecessores Potiguara vieram da Baía da Traição na Paraíba. Apesar do etnocídio, ou da tática do desaparecimento para não serem mortos, configuram culturas altamente resistentes e em processo de constante recriação, através da militância política para reconhecimento identitário, legitimados pela tradição, genealogia, educação e apoio de instituições como Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). “Agradecemos a todos que lutam pela nossa causa, que escrevem sobre a gente, que nos representam junto aos políticos… Tem muito branco que veste a causa indígena e a gente reconhece a importância disso”, conta Luiz Katu, sobre as muitas visitas de antropólogos, jornalistas, estudantes e militantes às comunidades indígenas do estado. “Quer saber como ajudar a gente? É vindo conhecer de verdade como a gente é, como a gente vive, isso já ajuda demais”, complementa.

Educação indígena
Os saberes indígenas estão presentes na memória dos índios idosos da comunidade, que se materializam nas formas de vida como a linguagem, as superstições, a religiosidade, a culinária e a agricultura. As crianças e os jovens também são convidados cotidianamente para integrar o movimento indígena de fortalecimento da identidade dos Eleotérios do Catu. No esforço de estabelecer um diálogo com as novas gerações, a reatualização das festas tradicionais tem sido o foco das lideranças, como por exemplo a Festa da Batata que esse ano comemorou sua 15a edição, em parceria com o IFRN Campus Canguaretama. A festa surgiu pelo motivo do plantio de batata doce, a maior cultura agrícola do local, e vem sendo comemorada todo dia primeiro de novembro. Na ocasião, a comunidade comemora o Dia de Todos os Santos, uma forma estratégica de resgatar as características culturais da comunidade, e se tornar um atrativo cultural para propagação do turismo na localidade.

Na festa são apresentadas diversas manifestações da cultura como o Toré e o artesanato. Além da festa da batata, a reatualização do ritual Toré nas comemorações da comunidade tem sido prioridade do cacique e lideranças, que inclusive, buscam parcerias com outros povos indígenas do nordeste, com a intenção de ampliar suas ações socioculturais, como processo de aprendizagem da língua Tupi, incluindo esse saber como componente curricular na escola indígena presente na comunidade, no lado do município de Canguaretama.A Escola Municipal Indígena João Lino da Silva foi a primeira escola indígena do estado do Rio Grande do Norte, com currículo diferenciado para o Ensino Fundamental. A unidade oferta turmas do 1º ao 5º ano e tem capacidade para atender aproximadamente 60 alunos em tempo integral, no horário das 7h às 16h. Dispondo de três refeições por dia, a estrutura ainda conta com biblioteca, brinquedoteca e laboratório. O brasão da escola traz a imagem de um maracá intercruzado com um lápis sobre um livro aberto, simbolizando saberes e tradições integradas na formação dos curumins. “Para nós, ter essa escola é um orgulho, ver as crianças falando o tupi e sabendo da nossa cultura é gratificante” conta Vanda, diretora da Escola Indígena.

A escola tem se destacado pelos eventos que tem promovido para dar visibilidade a cultura indígena no RN. Tem tornado tradição a realização da Semana Intercultural Indígena, congregando os professores, alunos e comunidade para interagirem com a cultura indígena potiguara: confecção e exposição de artesanato, as rodas de conversa sobre tradições e memórias, oficinas de pintura, produção de maracás e a realização do ritual Toré. “É nossa maneira de recontar a nossa história, de continuar existindo, de não se perder e recuperar nossos irmãos que foram embora pra Rio [de Janeiro] e São Paulo, com medo, atrás de emprego e acabaram viciados em drogas sintéticas. E é culpa deles? Não é não. Se viciaram por não ter o que comer. E hoje estão voltando um por um, graças a Tupã”, se emociona Luiz Katu.

Quando questionados sobre o futuro da comunidade, o povo Catu se coloca reticente, mas afirmam que não têm mais medo. “Nossa mãe tinha medo de dizer que é do Catu quando ia à Canguaretama, havia muito preconceito, a gente tinha medo de morrer. Hoje não temos mais medo. Vamos lutar para que isso não se perca, para que nossas crianças continuem lutando. Nossa vida é resistência”, declara Vanda.

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IFRN — Campus Canguaretama
A comunidade tem sentido o impacto da implantação do campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte em Canguaretama, pela participação em projetos de extensão e pesquisa, envolvendo alunos e professores do Ensino Médio Integrado. A ação do Campus Canguaretama provoca, de forma mais intensa, a aproximação dos centros de pesquisa para a realização de estudos acerca de diversos temas, tendo como lócus a aldeia e o processo de emergência étnica e visibilidade indígena.

O campus foi inaugurado em outubro de 2013 e, desde esta data, tem apresentado um perfil diferenciado para a implantação de uma política de fortalecimento da educação do campo e para a diversidade étnico-racial. Durante esses quatros anos, foram criados cursos como: Licenciatura em Educação no Campo e a Especialização em Educação de Jovens e Adultos no Contexto da Diversidade. O corpo de professores e diretoria acadêmica contabilizam ações de extensão e intervenções socioculturais por meio do desenvolvimento de projetos que abordam a sustentabilidade, turismo ecológico e a identidade indígena do Catu. Nesse sentido, a revitalização de trilhas em matas da região tem recuperado a interação do povo com o meio ambiente, catalogando sua fauna, flora e mananciais. Desde novembro de 2016, o campus vem motivando e apoiando a realização da Feira da Agricultura Familiar e promovendo encontros na comunidade, além de ter organizado toda a Festa da Batata, que ocorreu no último dia 1 de novembro.

A criação do IFRN Campus Canguaretama maximiza os estudos sobre a cultura indígena no RN, investe em pesquisas e dedica esforços para a construção de um acervo de documentos sobre a diversidade histórica e cultural da nação Potiguara resistente em terras norte-rio-grandenses, além de criar alunos-cidadãos que se interessam pela questão indígena e luta pela defesa desse povo. Esse foi um marco significativo para a consolidação de estudos, pesquisas e intervenções no âmbito da educação do campo e da diversidade, com destaque para as políticas de afirmação das etnias e pessoas do campo. Nesse contexto, a educação dentro da comunidade e o apoio de instituições como o IFRN, se apresenta como um diferencial institucional que pode contribuir no processo de emergência étnica e inclusão social dos povos indígenas.












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