Viver da praia: série mostra histórias de pessoas que tiram sustento do litoral

Publicação: 2020-01-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

Foi debaixo de uma cobertura feita de lona  e estrutura  de madeira na praia da Redinha que Márcia Guimarães morou, criou o único filho e trabalhou ao longo de 12 anos, entre 1995 e 2007. Barraqueira na Praia do Meio nos dias atuais, a mulher mantém boa parte da renda ligada à praia, mas o tempo em que passou na Redinha é a expressão máxima da importância do litoral em seus 60 anos de vida. Carioca de sotaque miscigenado, Márcia possui uma trajetória que liga a Copacabana de sua infância ao presente das praias de Natal.

Márcia Guimarães trabalhou na Redinha por 12 anos
Márcia Guimarães trabalhou na Redinha por 12 anos

Há quatro anos, a barraqueira tem uma rotina que se inicia às três da madrugada com o preparativo do caldo de mocotó (especialidade da carioca), parte dos petiscos e lanches que vende na Praia do Meio. A barraca, também de lona e madeira, foi montada para ajudar na mensalidade da faculdade de Educação Física do filho, recém-formado, e é um retorno de Márcia à praia, de onde estava afastada desde que saiu da Redinha.

"Eu sempre trabalhei na praia. Quando eu era criança, ia com meu irmão para ajudar ele a vender a mercadoria na praia de Copacabana, lá no Rio. A gente saia a pé todos os dias e ele pedia para eu olhar a caixinha dele quando tinha que fazer alguma coisa. Sempre sobrevivi assim", contou na manhã desta quarta-feira (8), dia que amanheceu chuvoso e permaneceu nublado nas horas seguintes.

A mais nova de sete filhos, Márcia saía do bairro da Glória e percorria cerca de 8 quilômetros a pé até Copacabana ao lado do irmão. Muitos anos depois, em 1988, chegou a Natal, distante 2,6 mil quilômetros do Rio de Janeiro, para ir a uma vaquejada e não saiu mais. "Eu estava morando em Manaus, me separei e decidi fazer uma viagem descendo pelo Nordeste. E, nessas, eu vim para uma vaquejada em Natal e gostei da cidade, fiquei por aqui mesmo". Para permanecer na cidade, fez uso da experiência da infância e arranjou emprego na praia.

O primeiro emprego foi como garçonete de uma barraca, também na Praia do Meio. Na década de 90, a prefeitura estabeleceu uma lei que criou os quiosques e impediu mesas no calçadão. A carioca foi demitida, mas recebeu da proprietária do quiosque um carrinho para poder trabalhar como ambulante do outro lado do rio, numa Redinha isolada na zona Norte. Tempos depois, montou a barraca de lona, que serviu de emprego e moradia.

Márcia relembra que o barraco foi montado "na cara e na coragem" no local de saída da antiga balsa, que ligava a Redinha Velha à zona leste de Natal, antes da construção da ponte Newton Navarro. Mãe solteira de um filho pequeno, Igor, ela passou a morar na barraca, que não tinha sequer água encanada, para poupar dinheiro. Na mesma época, sofreu de hepatite por contato com água contaminada. Parte da criação de Igor foi nesse ambiente. "E ele permaneceu estudando, estudando, estudando… e agora eu estou dizendo que ele se formou. Foi um sacrifício, mas foi tudo válido", relatou.

Com a construção da ponte Newton Navarro, parte dos moradores afetados pela obra foram indenizados. Márcia recebeu em meados de 2007 uma casa por parte da prefeitura no bairro do Planalto, na zona Oeste – “lugar que eu nunca tinha ido” – e parou de trabalhar na praia pela distância. A renda de casa resultava do Bolsa Família, da pensão recebida pelo filho e de bicos como empregada doméstica.

O imóvel no Planalto foi uma escolha da carioca entre receber a indenização com uma moradia ou dinheiro. A decisão foi pensada no filho, assim como a decisão de montar o atual barraco também foi. "Meu filho é tudo. Minha família. A única que eu tenho aqui."

Se na primeira barraca em que foi dona o filho cresceu e conseguiu estudar, a segunda nasceu para dar continuidade a formação dele, com uma graduação em faculdade privada. A casa do Planalto foi substituída por uma de aluguel no bairro das Rocas e ao longo dos últimos quatro anos a rotina das três da madrugada foi sua vida. O papel da barraca foi cumprido: o filho de Márcia está formado e agora trabalha com crianças com síndrome de Down. Se ainda vai continuar com o local, "Deus é quem sabe. Eu estou com 60 anos. Não posso fazer muitos planos para o futuro. Eu tenho que viver dia a dia".

A TRIBUNA DO NORTE inicia uma série de reportagens para contar a vida de pessoas que, de algum modo, estão ligados à praia – sejam trabalhadores, moradores, turistas que utilizam a praia como lazer, atletas, pesquisadores. A cada reportagem, uma história vai ser relatada. As publicações serão nas edições de terça, quinta e sábado. 







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