Vivian Silbiger, da UFRN: 'Objetivo é ver se a genética interfere nos sintomas da covid'

Publicação: 2020-06-07 00:00:00
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Margareth Grilo
Editora Executiva

O genoma de pessoas que tiveram covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, será sequenciado para descobrir porque algumas pessoas têm os sintomas agravados, chegando a óbito, enquanto outras têm sintomas leve ou são assintomáticas. A hipótese é que a diversidade genética explique essa diferença, sendo algumas pessoas mais protegidas que outras. O trabalho acontece devido a uma parceria entre o Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas (DACT) do Centro de Ciências da Saúde (CCS/UFRN) e a Universidade de Santiago de Compostela (Espanha). Trata-se de um consórcio que envolve 45 instituições de pesquisa de 12 países. No Brasil, participam a UFRN e a UFRJ. No RN, a pesquisa é coordenada pela professora Vivian Silbiger que deu detalhes da investigação em entrevista exclusiva à TRIBUNA DO NORTE. Confira.

Créditos: Magnus NascimentoPesquisa em parceria com universidade da Espanha identificará se há marcadores genéticos que podem predizer o grau de risco da doençaPesquisa em parceria com universidade da Espanha identificará se há marcadores genéticos que podem predizer o grau de risco da doença

Como acontece essa pesquisa que vai sequenciar o genoma de pessoas que tiveram covid-19? 
A pesquisa se dá com a extração de DNA do paciente que foi infectado. No momento em que o paciente consente, a gente faz a coleta de sangue e, depois, no laboratório da Faculdade de Farmácia fazemos a extração. Esse material é enviado para a Espanha, não que a gente não tenha capacidade de fazer a análise aqui, mas como um projeto financiado por órgão europeu, mandamos fazer lá. O primeiro consórcio foi com 8 mil participantes e o segundo será com 12 mil. Em uma porcentagem menor, eles vão sequenciar o genoma humano. Serão duas técnicas para poder identificar alterações genéticas. Depois de feita essa análise em todos os pacientes, eles vão dividí-los em grupos, em pacientes assintomáticos, sintomáticos com poucos sintomas, sintomas leves, moderados e graves. E você compara as análises entre eles. Essa é a primeira pesquisa que vai analisar se há essa relação entre a genética e a covid-9.

E consegue identificar se há essa interferência da genética...
A partir dessa comparação entre grupos a gente vai conseguir identificar se têm alguns marcadores genéticos que podem predizer o risco do indivíduo ter uma doença leve, moderada ou grave.

No Rio Grande do Norte tivemos quantos recrutados e como foi feita a seleção?
Nessa fase inicial, o primeiro consórcio foi ativado com 8 mil pacientes, em todo o mundo. Daqui foram 300 pacientes. Então, o que a gente fez, criamos uma chamada pelo whatsapp e pelo instagram, disparando divulgação, inicialmente, nas redes sociais, para atingir os pacientes assintomáticos e leves, porque são pacientes que eu não veria no ambiente hospitalar, não que ele não vá lá, ele até vai, numa unidade de saúde, numa UPA, UBS, em um Hospital, mas eles não ficam. Entram, fazem exame, alguns SWAB, sorologia, mas vão embora para casa e só depois recebem os resultados. Não seria o melhor momento, porque é um momento muito rápido. Não seria o nível adequado para pegar esses pacientes assintomáticos, ou sintomáticos leves. Também fizemos a divulgação pelos meios de comunicação da UFRN, e já estamos chegando aos 300 pacientes. 

E qual foi a estratégia de coleta? 
Nós disponibilizamos, para quem tinha facilidade, a coleta em nosso laboratório na UFRN, onde temos uma equipe preparada para essa coleta. Mas também, nessa primeira leva, com pacientes assintomáticos e sintomáticos leves, nós estamos indo a domicílio fazer a coleta. Então, eu tenho uma equipe de alunos, mestrado e doutorado, e pós-doutorado, que me auxilia. Então, o paciente entra em contato através do nosso instagram ou mesmo do whatsapp e eles fazem o agendamento de acordo com as necessidades de cada paciente. A gente acerta o dia da visita e faz o mapa por região. E quem vai fazer a coleta sou eu mesmo. Eu como professora vou na casa dos pacientes, porque achei mais seguro eu ir do que mandar um aluno. E obviamente, os alunos e os outros professores me monitoram, através do whatsapp, para onde eu estou indo, por questão de segurança. E, na Faculdade, a gente tem um laboratório de análises clínicas e temos uma aluna, que é mestranda e é da área de Enfermagem, então ela já tem muita noção, já vem avaliando paciente com covid, e faz essa parte da coleta do paciente que se disponibiliza a ir ao laboratório. Alguns preferem por motivo de segurança.   

E como vocês chegaram aos pacientes graves?
Tem dois hospitais no momento que já assinaram o termo de anuência. O Hospital São Lucas e o Hospital Giselda Trigueiro. Além disso, as secretarias de Saúde de Macaíba e de Apodi, também já estão com termo de anuência aprovado. Podem vir mais unidades e hospitais parceiros? Sim E a gente vai precisar? Sim. Porque a próxima leva vai chegar em 1.000 pacientes até agosto. A gente vai definir se vão ser pacientes somente com PCR positivo, vamos ter um critério mais rígido. E a coleta terá de ser feita direto na Faculdade, porque eu preciso ficar mais tempo nos hospitais pegando dados dos pacientes. A demanda está cada vez maior, então a gente vai focar no laboratório e nos hospitais. 

Quanto tempo deve demorar essa pesquisa?
Essa primeira fase da pesquisa com 8 mil participantes, já está acontecendo em outros lugares. São 12 países. Na Espanha, eles já estão sequenciando. Então, a nossa meta é mandar amostras até 15 de junho, mas pode ter um atraso por questão de logística mesmo, que não é tão fácil. Então, a gente tem plano de mandar até final de junho as primeiras 300 amostras. 

Quando saem os resultados?  
Então, eles querem ter já alguns resultados até setembro/outubro, dessa primeira leva dos estudos, e até o final do ano dos 12 mil participantes. O projeto da Espanha tem recursos, planejamento e cronograma para um ano.

Já tem algum estudo que aponte a relação genética e a covid-19?
Não temos. Constantemente, a gente olha na literatura e está tentando buscar respostas. A gente tem apenas hipóteses. Acredita-se que tenha alguma relação genética. Porque? A gente sabe que o paciente que tem os fatores de risco que estão associados a covid – diabetes, hipertensão, obesidade – têm mais probabilidade de evoluir para quadros mais graves. Mas, a gente tem paciente que tem essas comorbidades e não evolui para a forma grave, e vê paciente que não tem nenhum fator de risco evoluir para a forma grave. Jovens, com 32, 35 anos, atletas, evoluindo para a forma grave da doença. Então isso é um forte indicador. Existem várias hipóteses e nenhuma delas é excludente. Uma hipótese é a intensidade da carga de vírus a que esses pacientes foram expostos. Então, independente da genética dele, do sistema imunológico dele, se se expor a uma carga de vírus muita alta tem maior risco de evoluir para a forma grave. A segunda é o estado imunológico. Se a pessoa não está bem nutrida, se está estressada, se está com alguns fatores de risco que façam com que, naquele momento, o sistema imunológico dela não esteja imunecompetente, ela pode ter a forma mais grave da doença. E o terceiro fator é o genético. E, talvez, seja o conjunto desses três fatores que possam justificar os diferentes graus da doença. Uma coisa que intriga muito é que, mesmo nos sintomas leves, você tem uma variação muito grande. Têm pessoas que sentem só dor de cabeça, têm pessoas que perdem o paladar, têm pessoas que só têm diarréia, têm pessoas que apresentam todos esses sintomas juntos, e têm pessoas que só sentem uma canseira, um cansaço um pouco maior e teve covid positivo. Há uma intensidade de sinais e sintomas muito grande, e a gente tenta entender isso também.

Os estudos vão apontar o porque dessas diferenças?
Acredito que sim. O objetivo do trabalho é que a gente encontre respostas que possam auxiliar os médicos. Vamos analisar a seguinte situação: o paciente deu covid positivo ou tem suspeita, você faz a avaliação genética desses pacientes e você diz se esse paciente tem o risco de ter a forma grave da doença, e ai você consegue acompanhá-lo melhor. Essa é a finalidade do trabalho, talvez no Brasil demore mais tempo, mas na Europa é uma finalidade completamente factível. Outra questão importante é pensar em saúde pública, porque quando você estuda genética, você pensa em grupos populacionais. Ela vai mostrar locais onde as pessoas têm mais risco da doença, e de que forma, e nesse local o poder público pode intervir de forma mais incisiva, diferente de outro local que a genética não favorece à doença.

O Brasil tem uma miscigenação muito forte. Como isso interfere? 
Nesse primeiro estudo, de 8 mil participantes, 7 mil são europeus e mil da América Latina porque como a gente tem uma população miscigenada os fatores de risco de doença são totalmente diferentes dos de uma população homogênea. Por isso, eles querem avaliar, primeiro, em maior número, uma população homogênea, que é mais fácil de fazer uma análise estatística e encontrar uma associação, e depois analisar a população miscigenada, como os genes se comportam nessa população. E a gente se questiona: será que ter uma população miscigenada é um fator de proteção ou ao contrário?

Qual a distribuição geográfica desses 300 pacientes recrutados?
É bem amplo, bem distribuído. Em Natal, fomos na Zona norte, Candelária, Tirol,  Petropolis, Capim Macio, Neópolis, Vila de Ponta Negra, mas atingimos também Macaíba, Apodi, e São Gonçalo do Amarante. Muita gente de Mossoró, Monte Alegre, de Areia Branca, Santo Antonio estão nos procurando, e está acontecendo de outros municípios que têm pacientes entrarem em contato para participar. A gente está mandando o termo de anuência, treinando os técnicos, por ferramenta web, e mandando todo o material inclusive os tubos de coleta.





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