Natal
Vizinhos de endereço, não de serviços
Publicado: 00:00:00 - 30/11/2014 Atualizado: 10:40:34 - 29/11/2014
A rua está tomada de lixo. A cena é corriqueira e os moradores já se acostumaram com a montanha de lixo que se forma na via localizada no bairro de Santos Reis. Crianças fazem o caminho de volta da escola para casa e caminham ao lado da imundice. Enquanto isso, um casal de catadores trabalha em cima  do lixo sem se incomodar com o calor que faz por volta do meio dia.
Em Santos Reis, zona Leste de Natal, não é difícil encontrar ruas que não foram projetadas e estão  sujas e com pouco iluminadas
A cena descrita acima é inconcebível se mudarmos o local de onde aconteceu para bairros como Tirol ou Petrópolis. Se no bairro menos favorecido é costume da população jogar lixo no meio da rua, em Petrópolis os moradores dos prédios da avenida Rodrigues Alves, por exemplo, resolveram contribuir com a Prefeitura e adotaram os canteiros da via. Plantas decorativas e gramado sempre verde e aparado dão boas-vindas aos transeuntes que passeiam pela região.

O chamado “Plano Palumbo”  tem ruas planejadas, avenidas largas e é fácil localizar-se no setor. Placas de identificação e sinalização de trânsito indicam por onde o motorista deve seguir. Bancas de jornal, lojas de grifes e outros comércios refinados estão a disposição dos consumidores.

A poucos quilômetros dali, nas proximidades da praia do Forte, moradores olham com receio para a equipe de reportagem que acaba de chegar. Um senhor bêbado vem ao encontro do repórter e avisa que “hoje está tranquilo”. Cachorros latem e o som alto revela que a música brega que faz sucesso atualmente também é preferência no local. A comunidade do Vietnã, com IDMH de 0.605, é um dos locais com mais problemas sociais na capital potiguar.

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O aposentado Plácido da Silva, 82 anos, conta que mora na comunidade há mais de 30 anos. Ele desconhece o estudo do PNUD e diz que gosta de morar no local. “Eu era pescador. Hoje, fico em casa. Não acho ruim de morar aqui. Acho bom. Não vejo problema”, conta.

Drogas
Plácido divide a casa com a esposa, a dona de casa Vicência Silva, 77 anos, e mais cinco netos. O casal tem 8 filhos, mas todos já moram em outro local. Diferente do marido, Vicência pensa em mudar de casa. O motivo seria a violência que predomina na região. “Tem muito consumidor de droga aqui. A gente acorda e vai dormir com o mal cheiro de maconha. É muito ruim por causa das crianças”, revela.

O casal de catadores citado no início deste texto mora no Alecrim, mas vai ao bairro de Santos Reis todos os dias em busca de papelão, plástico e qualquer outro objeto que possa ser reciclado. Luiz de Lima e Cosma Barbosa, ambos com 54 anos, vivem do que conseguem resgatar do lixo há pelo menos uma década. “Aqui sempre tem alguma coisa. A gente vem, pega o lixo e volta para o Alecrim. É assim todos os dias”, relata Luiz.

Antônio de Oliveira, 62 anos,  também é catador de lixo, ou “material para reciclagem”, como prefere falar. Ele mora em Brasília Teimosa e é exemplo de pessoas que tiveram pouca chance de acesso à escola ou mercado de trabalho qualificado. “Tive que começar a trabalhar cedo. Não estudei muito. Somente o suficiente para saber ler e escrever”, conta. Com o que arrecada, consegue R$ 130,00 por semana. Mora em casa alugada com um filho. Somente o aluguel de R$ 300,00 consome boa parte do que recebe.

Especialista do IBGE não vê surpresa nos dados do IDHM
O resultado do  Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil não foi visto como surpresa por técnicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para  Ivanilton de Oliveira, do setor de Disseminação de Informações do IBGE/RN, os números dos últimos censos corroboram para o que foi demonstrado pelo IDHM. Além disso, Oliveira afirma que a tendência é que os pobres sejam “expulsos” dos centros urbanos e busquem moradia nas periferias.

“Essa dicotomia que existe em Natal, entre pobres e ricos, já foi demonstrada nos censos do IBGE. É nítido que há essa divisão entre os bairros e o Atlas confirma isso”, pontua Ivanilton. De acordo com ele, um dos motivos de aprofundar a divisão é a possibilidade de acesso ao estudo. “O nível de instrução, conhecimento e estudo é fundamental para ter ascensão social. O que não acontece nos bairros com IDHM baixo”, afirma.

Ainda segundo Oliveira, estudos do IBGE apontam que existe a tendência de que esses bairros com concentração de pobres acabam se desfazendo com o passar do tempo. Ele conta que os pobres são “expulsos” para as periferias devido o alto custo de vida nas proximidades do Centro. “Existe esse movimento. Nossos dados demonstram que a população mais pobre acaba sendo expulsa para as periferias porque não consegue permanecer onde há mais oportunidades e qualidade de vida”, diz.

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