Vizinhos indesejados

Publicação: 2012-11-29 00:00:00
Roberto Lucena - repórter

“Se um tanque de Santos Reis explodir,
Praia do Forte vai bater lá na Ribeira
Nas Rocas não vai ter feira
E a cidade vai parar”

A letra da música “Tanques de Santos Reis”, da banda natalense Síntese Modular, faz referência às possíveis consequências geradas por uma explosão nos tanques de distribuição de combustíveis localizados no bairro de Santos Reis. O medo de um incêndio, vazamento de combustível ou mesmo uma explosão, faz parte do imaginário popular da cidade e, mais veemente, da vida dos milhares de moradores que  dividem o espaço urbano com os gigantes vizinhos de metal.

Com o anúncio da desativação dos tanques, prevista para o próximo mês, a população se divide. Alguns não acreditam, outros comemoram o fato de imaginarem o terreno dar lugar a uma área de lazer ou outro aparelho público. “Será a melhor coisa do mundo. Morar aqui já é muito bom. Se não fossem esses tanques, teríamos mais paz. Eu acredito que vão tirar e espero que seja logo”, disse o comerciante Geraldo Alves, 62 anos, morador na rua Décio Fonseca.

Da varanda, Geraldo observa alguns tanques que já estão desativados. Uma rua estreita e um muro alto dividem a casa dele com o espaço de 580 metros onde estão instalados os equipamentos. “O problema maior é quando estão colocando o combustível nos tanques. Fica um mal cheiro muito forte. Nos últimos meses, diminuiu um pouco porque tem menos caminhões chegando por aí, mesmo assim, incomoda”, relatou.

Nas histórias contadas pelos moradores, há sempre um espaço reservado para relatar o convívio com o “medo da explosão” e o tráfego intenso dos caminhões tanques. Não há registro de acidentes de grandes proporções, mas algumas tragédias são inesquecíveis. “Havia uma escola aqui perto e o movimento de crianças era bem maior que hoje em dia. Da mesma forma, o trânsito de caminhões era mais intenso”, explicou o petroleiro Robério Luiz, 52 anos. “Presenciei pelo menos dois acidentes trágicos aqui. Num deles, socorri o filho de um vizinho que foi atropelado e, infelizmente, ele faleceu”, contou o morador, há 52 anos, da rua João Carlos de Souza.

O local de entrada dos caminhões tanques mudou. O acesso atualmente é feito pela rua Otoniel Menezes. Bem próximo à entrada, mora a comerciante Josineide da Cruz, 39 anos. Ela é uma das pesoas que não acredita na retirada dos tanques de Santos Reis. “Essa conversa a gente escuta há muito tempo. Não acredito nisso. Essa bomba vai continuar aí”, comentou.

Josineide reclama da diminuição no fluxo de caminhões. A comerciante, que possui uma pequena lanchonete na frente de casa, disse que, antigamente, o movimento começava antes do sol nascer. “A gente acordava com o barulho dos caminhões. Por volta das 5h já estava acordada”, lembrou. Com a presença dos caminhoneiros, Josineide garantia uma renda extra. “Fazia refeições e vendia para eles. Ganhava um bom dinheiro. Infelizmente esse tempo já passou”.

A funcionária pública Sônia Bezerra, 46 anos, também lembra do passado no bairro de Santos Reis. Morada da rua da Esperança desde que nasceu, Sônia contou – da varanda que tem vista para  a área da Petrobras – que várias brincadeiras de infância aconteciam entre os tanques de armazenagem de combustível. “Não tínhamos tanta noção do perigo. O local era aberto e todo mundo tinha acesso aos tanques. Brincávamos de correr e esconder por aí”, relembra. Apesar de ter uma relação de 46 anos com o bairro, Sônia disse que pensa em sair do bairro. “Existe muita violência. Quero sair daqui. Não por causa dos tanques, é apenas por conta da bandidagem mesmo”.

Peti que atende 160 crianças será desativado dia 25 de dezembro

O futuro dos moradores do bairro de Santos Reis ainda é incerto. Eles não sabem o que será feito com a área onde hoje os tanques da Petrobras estão enfincados. Nem mesmo a futura administração sabe o que será feito. A única resposta da equipe de transição da Prefeitura do Natal com relação ao assunto, relata que o local passará por um processo de reurbanização. A única certeza é a de que os tanques serão desativados até o dia 31 de dezembro e, a partir de janeiro de 2013, a Petrobras tem o prazo de 18 meses para devolver a área tal como a encontrou.

Há outra certeza que vai mudar o cotidiano dos moradores da região. Uma unidade do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), que funciona num prédio anexo dos tanques, será desativada. Atualmente, 160 crianças são atendidas, de segunda a sexta-feira, no local. A direção da unidade já recebeu um comunicado da BR Distribuidora. “Eles nos deram o prazo até 25 de dezembro para desocupar o prédio. Não explicaram o motivo, mas disseram que o pedido de tirar os tanques daqui é uma reivindicação da população”, disse a coordenadora do Peti Transpreto, Lucineide Fontes.

A coordenadora avisou que já comunicou o fato à secretaria municipal de Trabalho e Assistência Social (Semtas) – responsável pelo projeto – e espera uma decisão sobre a continuidade das atividades no próximo ano. “Já me disseram que quem vai tomar conta dessa situação é a próxima gestão. Eles precisam decidir se vão alugar outro prédio e onde será esse novo local. As mães estão preocupadas com essa situação”, colocou.

No local onde hoje estão os tanques de Santos Reis, cogitou-se a possibilidade de serem erguidas casas ou condomínios populares para as comunidades carentes do Maruim, Vietnã e Brasília Teimosa. Um anúncio nesse sentido foi feito pela Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) em 2007. Porém, a ideia não prosperou. A atual administração municipal anunciou que a área de tancagem daria lugar a um parque temático e a um museu do petróleo, mas, segundo a equipe de transição do prefeito eleito Carlos Eduardo, o futuro do local será discutido posteriormente.

Tanques foram inaugurados em 1982

Os moradores de Santos Reis, ouvidos pela TRIBUNA DO NORTE, não lembram com precisão quando e como se deu a instalação dos tanques de combustível no bairro. A maioria nasceu no bairro e cresceu ouvindo histórias com enredo que misturam medo e cuidado com o vizinho indesejado. Mas o livro “História de Santos Reis – a capela e o bairro”, do professor e estudioso do bairro, José Melquíades, dedica um capítulo ao fato.

No livro, lançado em junho de 1999, ano em que Natal comemorava os 400 anos de existência, Melquíades relata que foi na área de Montagem – atualmente Esplanada Silva Jardim – que foi instalada a “Standard Oil”, que, mais tarde, passaria a ser conhecida como “Esso Standard do Brasil”. Não há registro do ano da instalação da empresa, no entanto, há relatos que o fato ocorreu no final da década de 40.

Em 11 de maio de 1958, o primeiro acidente na região. Um dos tanques de um caminhão pegou fogo. “O fato é que o fogo subiu e o pânico generalizou-se. Ao se levantarem as labaredas, fiquei apavorado. Fugi de casa em busca do mar, levando minha esposa e meus filhos pequenos”, relata José. “Após longos minutos de aflição e incerteza, as chamas foram baixando e dominadas, graças à iniciativa corajosa de Joaquim Ribeiro, um funcionário da Esso”, completa.

Anos depois, a Petrobras se instalou no bairro e a “Standard” deu lugar a Batal. O historiador conta que foi no ano de 1979 que deu início a terraplenagem para as instalações do tanque e da tubulação que ligaria ao pier do Porto de Natal. A base, tal qual conhecemos hoje, “foi inaugurada, com grande solenidade, precisamente no dia 17 de fevereiro de 1982”, conta Melquíades em seu livro.

O escritor revela ainda que sempre existiu protestos e reclamações para retirada dos tanques. O livro traz ainda uma informação que poderá ser importante no processo de reurbanização da área. A área pertence à Marinha e Aeronáutica  assim dividido: 230 metros da Marinha e 350 metros da Aeronáutica.