Você bebe vinho ou bebe rótulo?

Publicação: 2019-02-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Não há como negar que o preço do vinho, o nome do produtor (famoso) estampado no rótulo, a alta pontuação concedida pela crítica especializada internacional, e o prestígio de algumas regiões importantes influenciam nossas escolhas. Até aí tudo bem, somos todos sugestionáveis. Mesmo porque não há como não se render à sedução de um grande vinho, apreciado em sua plenitude, e em perfeitas condições de serviço. O problema é quando, com toda essa pompa, o vinho não nos agrada, e assumimos, em detrimento de outro rótulo (anônimo), e dos nossos pares, que ele é incrível apenas por suas credenciais. Isso pode até parecer estranho, mas é muitíssimo comum entre os apreciadores da bebida. Negar o mérito de um vinho que conquistou três dígitos na pontuação de Robert Parker, seria, afinal, assumir-se ignorante-confesso, e isso, às vezes, exige muita coragem para muitos de nós. No entanto é preciso entender que, a despeito de minhas preferências destoarem das do advogado do vinho, a safra em questão, a garrafa, e as condições da apreciação nunca serão as mesmas, e isso por si só já torna o meu vinho diferente do dele.

Degustação às cegas da Viña Cobos: Um exemplo de como qualificar vinhos sem se deixar influenciar por rótulos
Degustação às cegas da Viña Cobos: Um exemplo de como qualificar vinhos sem se deixar influenciar por rótulos

É por esta razão que sou adepto da degustação cega, aquela em que bebemos sem saber o que estamos bebendo. Só assim damos a devida importância a nós mesmos como protagonistas das nossas escolhas. Apenas quando os holofotes não incidem sobre as marcas (consagradas), deixamos sobressair o nosso inalienável gosto, e tornamo-nos mais verdadeiros e mais autênticos com o que pensamos e queremos. Pessoas que bebem rótulos não apreciam vinhos, e portam-se indiferentes a liturgia de Baco. Afinal é preferível o conforto das fórmulas prontas do que o desafio imprevisível das descobertas. Mas convém lembrar que não é o conforto, mas o confronto que nos faz crescer seja qual for a esfera da vida, e com o vinho não é diferente. Vinhos renomados, de grande força midiática são sempre caros, e não necessariamente agradam, porque nossa percepção é individual e intransferível, e ainda que agradem, não representam qualquer mérito no que tange a descoberta para quem os bebe. Afinal o dinheiro compra grandes vinhos, mas não a capacidade de saboreá-los. Por isso o meu conselho é: ouse, atreva-se, garimpe e descubra seus tesouros, pois é esse esforço de busca que dará valor e alegria aos seus encontros.

Tipos de Degustações
São muitos os tipos de degustação existentes. Degustação vertical (quando provamos vinhos iguais de safras distintas); Degustação horizontal (quando provamos vinhos da mesma uva ou estilo e mesma safra de produtores ou regiões produtoras distintas), etc. As degustações podem ser também às claras, quando se sabe o que se vai degustar; semicega, quando mesmo sabendo o que se vai degustar a ordem é aleatória e não revelada, e degustação cega, quando não se sabe o que se vai degustar. O sentido maior de uma degustação cega, não é que o apreciador identifique a casta, a safra, o produtor ou tampouco o CNPJ da vinícola. Em geral faz-se isso quando se quer que as pessoas digam do que gostaram sem se deixar influenciar pelo preço do vinho, pela importância do produtor ou pela marca em questão. Mas as vezes, com o uso da técnica, pessoas treinadas conseguem dizer qual o vinho mais velho, qual o vinho mais jovem, qual o mais alcoólico, qual o mais estruturado, o mais delicado, e até qual a variedade de uva. Esse é um bom exercício para treinar os sentidos na medida em que a técnica e o treino nos permitem transformar sensações (de natureza subjetiva), em percepções (de natureza objetiva). Isto, além de divertido, é de grande valor para apurar os sentidos, e promover o julgamento correto do vinho. 






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