Voltando ao Galo

Publicação: 2020-05-31 00:00:00
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Woden Madruga
[ woden@tribunadonorte.com.br ]

Entre as leituras estimuladas pelo confinamento encontrei esta semana, encadernados, vários exemplares de “O Galo,” o jornal cultural criado pela Fundação José Augusto, em 1988, e que foi mote desta coluna no fim de março com o título “O canto do Galo”. O jornal não existe mais. Despenaram-no.  Enquanto existiu foi apontado como um dos mais importantes jornais culturais do país chegando a ser agraciado pela União Brasileira de Escritores com o Prêmio Incentivo à Cultura, entregue na Academia Brasileira de Letras.
Nos seus oito primeiros números (de março a outubro) li em suas páginas matérias assinadas por   nomes importantes de nossas letras e artes como Américo de Oliveira Costa, Alvamar Furtado, Grácio Barbalho, Sanderson Negreiros, Augusto Severo Neto, Miryan Coeli, Marize  Castro  (a editora),  Socorro Trindad, Veríssimo de Melo,  Diva Cunha, Eulício Farias de Lacerda, Anchieta Fernandes, Jurandyr Navarro, Nelson Patriota, Manoel Onofre Jr., Nei Leandro de Castro, Dailor Varela, Alex Nascimento, Adriano de Souza, Volonté, Nivaldete Ferreira, João Gualberto, Luiz Rabelo, Francisco Ivan da Silva, Diógenes da Cunha Lima, Francisco Sobreira, Luís Carlos Guimarães, Gilberto Avelino, Deífilo Gurgel, Vicente Vitoriano, J. Medeiros, Edna Duarte, Franklin Jorge, L. Charlier Fernandes, Jaime Hipólito Dantas.

Jaime, jornalista, contista, cronista, crítico literário assinava a seção “Livros e Autores”. Pelo seu crivo passavam autores locais e nacionais. Na abertura da coluna (mês de julho), ele escreveu:

“Esta seção não promete muito. Mas se compromete com alguma coisa. Por exemplo, como a literatura que se faz nestas redondezas. Se tentará falar dos trabalhos dos nossos autores com uma visão crítica, quando couber. Ou com boa vontade, só. Que se pode fazer? As notas sobre livros ou autores de fora se justificarão como manobras para reduzir a monotonia de uma seção onde o tempo todo somente se tratasse duma coisa que quase não existe, a literatura potiguar” (...)

Entre as notas escritas por Jaime, destaco esta:

- O poeta Volonté ficou satisfeitíssimo com os resultados da noite de autógrafos do seu livro mais recente. Se intitula “Cara a Cara” e tem prefácio de Luís Carlos Guimarães. É o segundo livro do poeta, e não será, seguramente, o último. Volonté faz versos muito fluentes e aparentemente sem dificuldades. São de uma espontaneidade flagrante, longe do artificialismo a que outros se agarram para suprir a falta de inspiração. Não são versos de vanguardistas (e quanta baboseira há por aí a título de vanguarda), nem acadêmicos. São versos carregados de poesia. Basta. ”

Na estante aposentada encontro o livro de Jaime, “De Autores e de Livros”, publicado em 1992 pela Editora Queima-Bucha, de Mossoró. O prefácio é de Dorian Jorge Freire, outro nome maior de nossas letras. Temos aí um daqueles livros chamados essenciais, que deveria ocupar todas as estantes potiguares, começando pelos tais cursos de literatura. O livro reúne artigos que Jaime Hipólito publicou nesta Tribuna do Norte e em O Poti. Será a minha releitura neste domingo nos alpendres de Queimadas de Baixo.

O canto de Antônio Torres
Outra coisa boa de se ler no Galo, passando suas páginas, é a seção Cartas dos Leitores. Mensagens vindas de todas as partes do país. Entre tais leitores, aparecem grandes nomes da literatura brasileira. Todos elogiando o jornal. Uma unanimidade. Na coluna do dia 26 de março, com o título “Tribuna Boêmia”, publiquei a mensagem que o escritor e jornalista Ignácio Loyola Brandão, hoje imortal da Academia Brasileira de Letras. Ele disse que “O Galo está entre os melhores suplementos deste país”.

Nas releituras desta semana, encontro no “Galo” de junho de 1988 a mensagem de outro astro da nossa literatura, o romancista Antônio Torres, hoje também imortal da ABL, detentor de prêmios literários no Brasil e no exterior. Naqueles anos de 1980, aqui e acolá, Torres dava umas passadas por Natal. Conhecia bem a aldeia e sua gente, sabia esticar as noitadas. Transcrevo a sua mensagem publicada no Galo com o título “Acordar”:

“Quero agradecer pelo envio do simpático O GALO, que li de ponta a ponta, dando de cara com velhos amigos como Tarcísio Gurgel, Socorro Trindad, Ignácio de Loyola Brandão (na secção de cartas), Edla Van Steen, Sérgio Sant’Anna e tantos mais que aparecem, de uma forma ou de outra, neste 2º número que acabo de receber. ”

“Aí fiquei me perguntando: será que Woden Madruga ainda mora em frente de Luís Carlos Guimarães, o Poeta? Será que Newton Navarro já escreveu um livro tão bom quanto “Os mortos são estrangeiro”? Será que Dorian Gray ainda pinta? Será que Natal ainda engarrafa a mais límpida água benta nacional, aquele néctar chamado Murim Mirim? Será que a Redinha ainda está viva e ainda lá? Será que ainda venta em Natal como antigamente? Ou o vento sumiu, cansado de ser personagem de Newton Navarro? Será que Sanderson Negreiros já leu todos os livros do mundo? Será que Nei Leandro de Castro tem aparecido de vez em quando? Será que um dia eu ainda volto por lá? Só sei que O GALO está cantando. Acorda, pessoal. Vamos trabalhar. Vamos escrever. ”

Nei 80
Ontem, sábado, 30, dia consagrado à Santa Joana D’Arc, o poeta Nei Leandro de Castro chegou aos 80 anos de idade. Menino nascido em Caicó, criado em Natal, doutorado no Rio de Janeiro, onde caminha ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas, mas sempre saudoso de Natal. Poeta, cronista, romancista. 

É dele este poema “Epitáfio para o Grande Ponto”: “Aqui jazem/ as melhores lembranças, / os primeiros sorvetes, / o furto dos chocolates, / as conversas mais bestas, / os seriados do Rex, / os porres terríveis, / a adolescência apaixonada, / os comícios da esquerda, / os poetas sem juízo. / E na lousa de asfalto/ escrita a canivete/ a palavra solidão. ”  (Do livro “Autobiografia-Poemas”).


Murilo Melo Filho
Perdemos Murilo Melo Filho. O Brasil perdeu um de seus mais importantes jornalistas políticos. Uma de suas reportagens, “Vinte Dias Dramáticos”, que trata do atentado a Carlos Lacerda até ao suicídio de Getúlio Vargas (fatos ocorridos entre os dias 05 e 25 de agosto 1954), está incluído no livro “Reportagens que abalaram o Brasil”.  Nesse time estão incluído Joel Silveira, Otto Lara Rezende, Carlos Lacerda, David Nasser, Samuel Wainer, Francisco de Assis Barbosa, Darwin Brandão, Justino Martins, Edmar Morel e João Martins.  Um escrete.

Jornalista e escritor, Murilo foi imortal da Academia Brasileira de Letras e da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Natalense, nascido em 13/10/1928, seu jornalismo tornou-se nacional quando, mudando-se para o Rio de Janeiro aos 18 anos, foi repórter da Tribuna de Imprensa (fundada por Carlos Lacerda e Aluízio Alves), anos de 1950. Assinava a coluna “Tribuna Política”, que era transcrita na nossa Tribuna do Norte, a partir de 1951.

Murilo Melo Filho, um homem cordial, afável, gentil, excelente conversador. Um príncipe da cordialidade.







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