Viver
Voltz, o herói potiguar
Publicado: 00:00:00 - 03/06/2011 Atualizado: 20:01:05 - 02/06/2011
Yuno Silva
repórter

Em um futuro não muito distante, quando homens e máquinas estarão convivendo de maneira ainda mais próxima, fontes de energia serão alvo de grande conflito planetário. E, para tentar recuperar um pouco do que restou de um poderoso manancial energético, eis que surge o herói Voltz, um soldado espião infiltrado em uma base inimiga que luta para escapar das mãos do vilão Escarlate. À exceção do ‘Escarlate’ — o nome foi uma licença criativa  desta reportagem, pois o arquiinimigo de Voltz ainda não foi batizado — o enredo acima traduz o clima apresentado pelo curta metragem em 3D criado e produzido pelo publicitário natalense Abraão Carlos Freitas de Araújo, 24.

Publicitário e estudante de cinema potiguar cria primeira produção audiovisual de animação em 3DVoltz, meio homem meio máquina, foi apresentado como trabalho de final de curso na escola Melies de Cinema, 3D e animação de São Paulo, onde Abraão estudou durante o ano passado, surgiu a pouco mais de um ano inspirado em games de ação e em personagem como Homem de Ferro, Tron e Snake Eyes da equipe G.I. Joe (conhecida no Brasil a partir dos bonecos comandos em ação, muito populares nos anos 1980). “Quando estava em pleno processo criativo, pensando em vários nomes relacionados a energia e potência, soltei nossa gíria ‘votsss’ e decidi adaptar a expressão com a intenção de tornar o nome mais atrativo e forte. Além de homenagear o Nordeste, percebi que a pequena palavra poderia sintetizar o que pretendia”, lembra Abraão.

O publicitário contou que, logo no início do curso em São Paulo, os colegas “zoaram” bastante: “Chamaram de ‘Voltz, o herói nordestino’, mas depois perceberam o potencial do nome”, comemora.

Mas nem adianta procurar o curta metragem de três minutos e meio na internet, Abraão e a escola Melies querem lançar Voltz em grande estilo: uma página eletrônica está sendo criada sob medida para dar visibilidade adequada ao personagem. Para a TN, ele liberou trecho da cena 4 (ver na TN on line) “Depois que o site estiver no ar, o passo seguinte é inscrever o curta em festivais nacionais e internacionais”, planeja o rapaz, cujo sonho é trabalhar com cinema. “Acredito que o caminho até lá passa por muita publicidade. A criação de games, com o Volts claro, também estão planos. Quero continuar produzindo curtas, e também sei que muita coisa no roteiro deste primeiro curta precisa ser explicada”, adianta.

Trilha sonora

Realista, Abraão sabe que para desdobrar a saga de Voltz depende de apoio e patrocínios, pois a produção de animação em 3D demanda tempo e dinheiro. Até o resultado final, o publicitário trabalhou dez meses: oito de produção 3D (modelagem e animação), mais dois meses para pós-produção e sonorização. Para dar vida ao personagem, utilizou os programas Autodesk Softimage, After Effects, Adobe Premiere, Z-brush, Photoshop e Illustrator, e contou com ajuda de mais três amigos: os potiguares Reinir Barreto, envolvido na pós-produção, mais Willames Costa e Eli Santos, compositores da trilha sonora original – Eli também foi responsável pelos efeitos sonoros e mixagem de som.

Primeira safra de bacharéis em cinema sai este ano

Formado em 2008 no curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Potiguar (UnP), Abraão Araújo não chegou a alcançar a abertura da habilitação em Cinema, oferecida pela instituição a partir de 2010. “Abraão foi meu aluno em Publicidade, e sempre se interessou pelo segmento audiovisual. No começo imaginei que iria trabalhar nessa área dentro de alguma agência, mas fico muito satisfeito de ver que está buscando qualificação para atuar direto com cinema”, disse Fábio DeSilva, diretor do curso de Cinema da UnP.

Segundo DeSilva, a ‘colheita’ da primeira safra de cineastas potiguares está prevista para o fim de 2013, e só agora a turma está partindo para a prática. “Tudo faz parte de um processo gradativo de construção da linguagem cinematográfica, e neste semestre estamos entramos na fase de produção de curtas metragens”, explicou o professor. “Ainda este ano teremos resultados para mostrar, por exemplo, dentro do projeto interdisciplinar ‘Cinedoc’, onde as disciplinas de Produção Audiovisual e Cinema Documento estão desenvolvendo o tema cinema potiguar com os alunos. A meta é criar uma mostra para exibir esse material”, adianta.

Para Fábio, que se formou em Publicidade por ser um curso próximo à sétima arte, a grade curricular foi montada para abarcar todas fases: desde roteiro, linguagem, figurino, maquiagem e fotografia, até montagem, captação de áudio, elaboração de projetos e crítica cinematográfica. “Participei, agora em março na FAAP-SP, do ForCine (Fórum Brasileiro do Ensino do Cinema e Audiovisual) e cada vez fica clara a mudança no comportamento dos profissionais e do próprio setor. Foi-se o tempo de se trabalhar apenas com o instinto, hoje o cinema brasileiro passa por um período de amadurecimento com o advento desses cursos por todo o país”, analisa.

De acordo com o professor, apesar do curso na UnP ter uma câmera analógica (película), não dá para ignorar o avanço do cinema digital. “Seria uma utopia histérica não considerar essa nova tecnologia. Até por que muitas universidades já estão deixando de usar o filme tradicional, bem mais custoso”, verifica Fábio, que chegou a cursar cinema na Universidade Popular de Roma, Itália, e acumula no currículo trabalhos como diretor de VTs publicitários, de vídeo clipes e do documentário “Sangue do Barro” (realizado em parceria com a jornalista Maryland Brito), contemplado pelo DOC TV IV onde conta o trágico episódio ocorrido em São Gonçalo do Amarante quando Genildo França, conhecido como “Neguinho de Zé Ferreira”, matou 14 pessoas em menos de 24h em maio de 1997. Também foi assistente de direção do longa metragem “Federal” (2009), com Selton Melo e Carlos Alberto Riccelli.

Atualmente está envolvido na criação de um coletivo audiovisual para viabilizar produções como o curta “A Pizza”, ao lado de nomes como Buca Dantas, Jota Marciano, Maryland, Geraldo Cavalcanti e Mathieu Duvignaud. “Vem novidade por aí”, avisa.

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