Atravessar a porta do Centro de Educação Especial – localizado no Centro Administrativo – é entrar num outro mundo. A sensação é a de chegar em um lugar colorido quando a arte transforma o destino, a realidade e os sonhos, antes esquecidos. É lá que 400 alunos – em idades entre oito e 50 anos - que necessitam de reforços por dificuldade de aprendizado, recebem aulas de pintura, desenho, costura, leitura, entre outras, através de oficinas. São alunos especiais por existência. É lá também que Cícero Grino reconheceu-se enquanto artista. Com seus olhos de menino, mesmo carregando 35 anos no registro de nascença, ele descobriu quando criança que podia transformar tampas de garrafa, pequenos pedacinhos de ferro e outras inutilidades em objetos interessantes. “Eu pedia para minha mãe trazer da rua o que ela encontrasse e a minha diversão era criar bonecos, dinossauros e dragões”, contou Cícero que está no Centro há 5 anos. São dele, as obras expressivas encontradas na exposição que acontece hoje no Centro. Com técnica de pontilhismo, utilizando tinta guache e tinta em auto relevo, Cícero recria em forma de desenhos inúmeros dragões, peixes e grilos, fantasiando de cores um universo só dele. “Aqui é um lugar onde pude encontrar minha arte. Gosto muito de desenhar dragões, cobras e tudo é interessante para mim”, contou ao VIVER.
Emanuel Amaral
Cícero Grino desenha desde criança. Agora, aos 35 anos, se revela um artista promissor
Quanto aos seus sonhos, ele acredita “ter um pouquinho”. “Quero muito no futuro ter a oportunidade de ser um profissional para trabalhar com arte”, disse.
Dos brinquedos de ferro para a criações dos quadros, o passo principal foi ter entrado no Centro. Mas nada disso seria possível sem a coragem do seu professor Francisco Assis. Ele quem levou o primeiro lugar do III Salão Abrahan Palatnik (matéria publicada ontem no VIVER), consegue fazer da realidade que tem em mãos uma outra forma de trabalho. “Aqui no Centro, mesmo sendo do governo estadual, a gente não recebe material. Já entrei com três pedidos de material para a Secretaria de Educação, mas eles alegam que como não somos uma escola, não temos direito. E que fique claro que isso aqui não é uma crítica, é sim a nossa realidade”, contou o professor.
Não há orçamento para pepel e tintaA realidade que Assis tanto tenta expressar é visível aos olhos. Os papéis com os quais os alunos trabalham são todos recicláveis. Não existe por lá nenhum papel específico para desenho. Basta virarmos as folhas para nos depararmos com comerciais. “Eu reciclo tudo. De papelão aos papéis de anúncio. Se não fizesse isso não teríamos um aluno pintando nesta sala”, comentou.
As tintas também não constam no orçamento do governo, por isso os professores precisam fazer vaquinhas para que elas existam em cada quadro e em cada tela. Tela? Não, não existem telas apropriadas à pintura. “Eu uso material de cortinas já usadas que as pessoas jogam fora. Ando na rua recolhendo os materiais possíveis para que nós possamos utilizá-los”, completou.
E é assim, como a transformação de Cícero, de Assis e todos os outros alunos o que enxergamos no espaço. A sala de artes é colorida com o esforço e a dedicação de poucos, quando se tem como resultado, um mundo diferente. “É impressionante como eles mudam depois que começam aqui no centro. A gente percebe no olhar de cada um, no toque, na maneira como eles se comportam. A gente percebe que a arte é a forma possível de mudar tudo”, disse Irma Medeiros, diretora do Centro.
A exposição dos alunos, incluindo os trabalhos de Cícero está aberta hoje no Centro de Educação Especial localizada por trás da Emater no Centro Administrativo. Horário de visitação: das 8h às 16h