Werner Jost: "Precisamos ficar mais eficientes"

Publicação: 2019-06-23 00:00:00 | Comentários: 0
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

Os reveses no cenário econômico nacional e internacional, a baixa competividade do real frente ao dólar e a suspensão da entrada dos pescados brasileiros no mercado europeu, maior consumidor do camarão produzido no Rio Grande do Norte, extinguiu o envio desse tipo de crustáceo produzido no Estado ao mercado estrangeiro. As perdas financeiras desde então são consideráveis e não há prazo definido para a retomada desse tipo de comércio.

Werner Jost
Jost é diretor-geral da Camanor

De 2003 para 2018, por exemplo, a produção de camarão em cativeiro no Rio Grande do Norte saiu das 90 mil para pouco menos de 50 mil toneladas, cuja comercialização ficou restrita ao mercado interno. Ao longo desses anos, inúmeros produtores faliram e os que ficaram precisaram se adaptar ao cenário de vendas reduzidas, mancha branca e instabilidade climática.

Na entrevista a seguir, o diretor-geral da Camanor, Werner Jost, detalha como a então maior exportadora de camarão do Estado precisou se adaptar às mudanças impostas pela dinâmica da economia, pelo impasse entre a União Europeia e o Ministério da Agricultura e Pesca (Mapa) e avalia quais mudanças precisam ser adotadas para que o mercado internacional volte a consumir o crustáceo produzido no Rio Grande do Norte.

Qual análise o senhor faz hoje do mercado da carcinicultura no Rio Grande do Norte e no Brasil?
Sempre se fala numa retomada, numa recuperação. Mas a minha dúvida é: estamos realmente em fase de recuperação? Em geral, o setor tem muitas dificuldades de produção em razão das doenças. Se pensarmos em 2003, nós produzimos 90 mil toneladas. Hoje, com base em dados de 2018, estamos nos aproximando das 50 mil toneladas. Então, em lugar de termos tido um crescimento, estamos abaixo do que produzimos há 15 anos atrás. Isso é muito estranho. Naquela época, em 2003, o mundo achava que o Brasil fosse o maior produtor de camarão do mundo pelo potencial. As pessoas olhavam para a quantidade de terras, os insumos disponíveis, pela agricultura e tudo, e ninguém conseguiu entender como não deslanchamos. Mas acho que os problemas, ao longo desse tempo, tais como baixa produtividade, baixa tecnologia e conceitos errados em relação à saúde do camarão, e isso tudo, no final, refletiu em baixa produção. No verão, todo mundo se anima para ampliar a produção, mas há chuva, doenças e aparece a mortandade do camarão.

O problema para a expansão da produção na atualidade é a falta de investimentos em tecnologia?
Antigamente, havia dificuldade com o Ministério Público para poder conseguir licenças para a produção. O Brasil, em princípio, tinha milhões de hectares voltados à carcinicultura. Hoje, talvez tenha 20 mil hectares de produção de camarão, o que é muito pouco. Se compararmos com o Equador, que é um país muito pequeno em relação ao Brasil, ele tem 200 mil hectares. Na Indonésia, são 700 mil hectares. Mas, talvez essa parte de precisar de área para produzir talvez seja um pouco superado pelo nosso sistema 'AquaScience', no qual a gente trabalha uma intensidade muito alta com produção elevada de animais por metro quadrado. No  lugar de 10, 20 por metro quadrado, nós trabalhamos com 400 animais por metro. Daí se precisa de muito menos espaço para se produzir bastante camarão.

O objetivo da Camanor é, a partir dessa tecnologia, ampliar a produção sem expandir áreas?
O nosso objetivo é hoje, na Fazenda Canabrava, ter 100 hectares ocupados. Desses, 50 hectares são de produção alta de animais. E nos 50 hectares restantes, a gente vai produzir no futuro mais 50 mil toneladas, que é mais que o Estado produz hoje com todas as fazendas juntas. A tecnologia está mudando.

O senhor está no Rio Grande do Norte há muitos anos e participou dos processos de implementação da carcinicultura, do apogeu e da derrocada do setor. O que aconteceu para que houvesse essa queda tão significativa na produção e, principalmente, na exportação?
Eu acho que, principalmente, por causa das doenças. Ocorreram também decisões ligadas à política que prejudicaram o setor e bem maléficas para a produção. Se trabalhou muito a parte de informalidade, que no final tem um efeito, na ponta, tem um efeito para o consumidor, para a qualidade do produto. Há hoje um potencial imenso de consumo no Brasil. No Sudeste, no interior do país, todos querem consumir camarão. Mas é difícil ter acesso. Porque a logística que foi desenvolvida é muito informal, sem nota fiscal, o camarão é fresco e passa três dias viajando e quando chega ao destino não tem mais qualidade. Então, eu acho que infelizmente não existiu a priorização da qualidade do camarão beneficiado no sentido de congelamento. O camarão congelado é de muito maior qualidade. Pode-se transportá-lo para lugares mais distantes sem perda da qualidade. Hoje, cerca de 80% da produção de camarão é in natura. O cliente vai ao viveiro, com gelo, pesca o camarão coloca num recipiente com gelo e vai embora. Isso facilita muito para o produtor, porque ele contacta a pessoa que vai comprar o camarão, faz tudo lá no viveiro. Mas, no final, pro mercado isso é péssimo. Porque é difícil, hoje em dia, ter acesso a um camarão de qualidade.

Como é possível mudar esse cenário?
Nós, da Camanor, há muitos anos falamos que tem que se mudar essa maneira de processar e vender o camarão. Isso, com certeza, terá impacto sobre o consumo. Devagar, estamos convencendo a clientela que é melhor comprar o camarão congelado, pois há a possibilidade de armazenamento, há o controle via nota fiscal. Mas, isso demanda mais tempo até ele conquistar a nossa confiança.

O Rio Grande do Norte saiu de uma posição de destaque nas exportações de camarão e praticamente zeramos o envio desse pescado ao mercado internacional. O senhor acredita na retomada do envio ainda este ano pro exterior?
A Camanor foi a líder nas exportações nos anos 2000. A gente entregava cerca de 50% da necessidade do Carrefour na França através da nossa empresa. Éramos muito bem avaliados pela nossa qualidade do produto oferecido. O que acabou com nossas exportações foi o câmbio. Quando o governo Lula assumiu estava em R$ 3,80 e depois caiu para R$ 1,50. Isso fez com que a gente perdesse competitividade e fomos o último a sair do mercado de exportações em 2008. As perspectivas agora são complicadas, pois o câmbio está alto. Há muita inflação acumulada e continuamos sem poder de competição, pois os preços do mercado interno são mais caros que no mercado internacional. O mercado que mais se encaixa para o Brasil é o europeu. Mas, hoje, a gente não pode exportar para a Europa.

Por quais motivos?
Houve um desentendimento entre o Ministério da Agricultura e Pesca (Mapa) e a União Europeia. São problemas relacionados a barcos de pesca que atuavam na região Sudeste. Com esse desentendimento, o Brasil suspendeu as exportações de peixes e crustáceos para a comunidade europeia, que deu certo prazo para regularização do caso, que não foi cumprido. Isso culminou com uma suspensão pela União Europeia e hoje nós não podemos exportar para a Europa, que era o nosso principal mercado consumidor. Os melhores mercado para o nosso camarão com cabeça eram a França e a Espanha, que infelizmente estão fechados. Temos dois problemas: o preço e a impossibilidade de exportar. Os Estados Unidos têm um mercado diferente, pois querem o camarão processado, sem cabeça. O nosso custo de processamento é alto e não conseguimos competir com a Ásia nesse sentido. E a Ásia é complicado porque as exportações da China, que é um grande mercado consumidor, são feitas inteiramente pelo Vietnã. O camarão é enviado para lá, passa pela fronteira de maneira ilegal na China. Nós, no Brasil, não conseguimos exportar para o Vietnã porque tem que ser em caixas brancas. As caixas não podem ser identificadas com a logomarca do produtor, pois lá eles dizem que o produto é de origem vietnamita. E o Mapa não permite exportarmos para a China, cujo mercado está fechado. O problema da Europa deverá se revolver em mais seis meses ou um ano. E a parte do custo, do preço, só tem uma saída: precisamos ficar mais eficientes. Na Camanor, pensamos em baixar o custo em 40% com a aplicação de melhorias na genética e criação de animais mais saudáveis, com potencial de crescimento maior.

Como será possível?
Hoje, nosso camarão cresce cerca de 1.5 grama por semana. Então, ele tem um ciclo longo, de aproximadamente 120 dias a partir da colocação da lava no viveiro e a retirada como camarão crescido. Com uma lava mais saudável, a gente quer baixar esse tempo para 60 ou 70 dias. Com isso, o custo baixa muito porque teremos mais ciclos. Será consumida menos ração, pois serão dias a menos. Essa é nossa estratégia. A gente tem que voltar a ter, de novo, capacidade de exportação. O mercado brasileiro é limitado, consome cerca de 15 mil toneladas. Precisamos ter uma porta aberta para a Europa.

Hoje, basicamente, a produção é voltada ao mercado nacional?
Isso. Não existe exportação. Os líderes, as associações falam que o Brasil voltará a exportar, mas eu não vejo isso a curto prazo. São poucas fábricas que trabalham com beneficiamento de camarão, que congelam o crustáceo, que tem capacidade de exportar e possuem o selo para exportar. Com a crise, os maiores beneficiadores fecharam, deixaram o mercado.



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