Western, ficção e gêneros em Bacurau

Publicação: 2017-04-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Amilton Pinheiro

Há quase um ano atrás, "Aquarius" fazia sua pré-estreia mundial no mais importante festival de cinema do mundo, Cannes, que testemunhou não somente a primeira exibição pública do segundo longa-metragem do prestigiado cineasta pernambucano, mas também o protesto que parte da equipe do filme fez nas escadarias do "Palais des Festivals et des Congrès of Cannes" - com cartazes denunciando que estava havendo um golpe de estado no Brasil.

"A gente está em outro momento dramático. Em maio de 2016, o Brasil estava passando por um processo de golpe completamente fajuto que tinha sido iniciado três semanas antes (com o afastamento de Dilma Rousseff para ser julgada pelo Senado, que resultou no seu impeachment). Como cidadãos tínhamos que tomar uma posição, e nossa posição, naquele momento, foi fazer aquele protesto, muito simples na verdade, muito pacífico", explicou o diretor, em entrevista.
Diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho faz balanço de Aquarius e fala sobre novo filme
Além dos compromissos com "Aquarius" e do novo cargo de curador de cinema do Instituto Moreira Salles, o diretor está roteirizando seu terceiro longa, "Bacurau", que, segundo ele, será filmado no segundo semestre deste ano e se trata de um filme de gênero que terá elementos de western, aventura e ficção científica. Mas tudo isso pode ser uma pista falsa do próprio Kleber Mendonça Filho, que não fala de jeito nenhum sobre seus longas. "Rapaz, você não vai pescar coisas a respeito deste filme, porque nunca falo sobre nenhum deles", brinca ele com a insistência da reportagem em saber mais detalhes sobre seu novo filme.

Qual o balanço que você faz de Aquarius depois de sua estreia mundial no Festival de Cannes?

Eu estou há onze meses viajando com esse filme. Agora ele está em 77 países, dos quais fui a 23 deles, entre festival e lançamento. Foi uma experiência muito feliz. Fui jornalista e crítico, e acompanhei os festivais e os lançamentos de filmes, e sempre observei que isso tudo era muito trabalhoso, uma coisa complexa.

E com Aquarius isso não foi diferente?

Sim, não foi mesmo, pelo contrário. Sempre há uma grande tensão quando um cineasta acaba um filme. "Será que ele será visto, se vai acontecer, se vai viralizar?". E até agora tive a sorte de ver O Som ao Redor e Aquarius virarem esse organismo, que saiu "andando" por aí.

O que mais lhe surpreendeu nessas viagens para lançar o filme?

A forma como os problemas que estão em Aquarius dialogam com as pessoas em outros países. O filme foi rodado na praia do Pina, em Boa Viagem, em Recife, e a sua problematização repercutiu em Sidney, na Austrália, no Centro de Los Angeles, na periferia de Paris, e agora em Londres. Em todos estes lugares as pessoas entenderam perfeitamente o problema da personagem Clara (vivido por Sonia Braga), que tem o seu lar ameaçado de uma hora para outra chega, como se o "mercado" chegasse dizendo: "A gente quer este lugar, porque ele subiu de preço, e agora nos interessa. Portanto, quero que você saia".

Você fez dois filmes políticos, O Som ao Redor e Aquarius, e agora vai enveredar para o gênero terror no seu próximo filme Bacurau. Por que a mudança?
Na verdade se você olhar O Som ao Redor e Aquarius, lá vai encontrar elementos do cinema de gênero. Bacurau é mais escancarado. Eu não diria que ele é um filme de terror. Na verdade a gente só vai saber o que é de fato, depois que o filme ficar pronto. Eu diria hoje que ele é um western.

Western?

(Risos). É um western com elementos que podem ser chamados de ficção científica. Eu sempre termino um filme para tentar entender o que ele é.

Em que estágio se encontra?

Estou terminando o roteiro. Espero filmar ainda este ano. Melhor dizendo, vou filmar no segundo semestre, com certeza.

A questão política dos seus dois longas te desgastaram?

Sim. Francamente não, porque eu meio que deixo o filme ser o que ele tem que ser. Aconteceu uma sincronia muito inusitada do filme com o momento social e político do País. Qualquer pessoa lógica entende que é uma sincronia, porque os filmes são feitos no intervalo de três, quatro, anos. Aquarius foi feito (o roteiro) durante 2012, 2013, 2014. Eu acho lindo quando isso acontece. Se você olhar para a história do cinema, da música, do teatro, da literatura, isso aconteceu muitas vezes. Apenas tentei acompanhar da melhor maneira possível junto com meus amigos, que fizeram o filme comigo.

Aquele ato político em Cannes foi pensando? Faria tudo novamente?

Claro. A gente está em outro momento dramático. Em maio de 2016, o Brasil estava passando por um processo de golpe completamente fajuto que tinha sido iniciado três semanas antes (com o afastamento de Dilma Rousseff para ser julgada pelo Senado que resultou no seu impeachment). O Ministério da Cultura tinha sido extinto uma semana antes. Como cidadãos tínhamos que tomar uma posição, e nossa posição, naquele momento, foi fazer aquele protesto, muito simples na verdade, muito pacífico.

Mas em um lugar de extrema ressonância, que é Cannes?

Sim. Mas somos cidadãos, e podemos fazer isso. Aquilo foi para mim uma prova de cidadania.

O seu próximo se chamará Bacurau, que significa ave noturna..

Uma ave noturna e também o nome do último ônibus que você pode voltar para casa, apesar de que hoje tem o Uber. Mas antigamente, se você perdia o bacurau, tinha que dormir na rua.

O roteiro se baseia em alguma história?

É um roteiro original. É um western, um filme de aventura na verdade, filmado no sertão, que se passa daqui a alguns anos.

Quando você fala "particular" é em que sentido?

Rapaz, você não vai pescar coisas a respeito deste filme, porque nunca falo sobre nenhum deles. Na sinopse de Aquarius não se especificava muito a história, assim como foi com O Som ao Redor Mas é um elenco muito abrangente, principalmente na questão da faixa etária.

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