Whitman 1

Publicação: 2020-01-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Dácio Galvão
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As produções poéticas de Luís da Câmara Cascudo aconteceram entre o final dos anos de 1920 e início dos anos de 1930, sempre vinculadas ao espaço e ao tempo da modernidade literária do século XX. Mas a sua relação com o gênero poesia e o tema da modernidade permaneceu. Ao longo dos conturbados anos de 1940 se estriba no interesse da tradução de três poemas do norte-americano Walt Whitman (1819-1892), poeta de voltagem, aludido inclusive nas vanguardas históricas. Os poemas traduzidos foram publicados no jornal Natalense A República, nos dias de 18, 24 e 25 de abril de 1945, respectivamente. Na mesma década, Luís da Câmara Cascudo traduziu também Montaigne e o Índio Brasileiro (tradução e notas do capítulo “Des caniballes” do Essais, de Montaigne - São Paulo: Cadernos da Hora Presente, 1940).

O mergulhar em textos whitmanianos decodi?cadores de aspectos da modernidade literária se reverte na opção de tradução dos poemas: “I hear America singing” (“Eu ouço a América cantando”), “The base of all metaphysics” (“A base de toda a metafísica”) e o “For you, o democracy” (“Para você, democracia”).

O aceno pioneiro aos poemas traduzidos teria a perspectiva da leitura universalizada e intencionada na difusão local. Foi estampada inicialmente em periódico natalense, de circulação restrita. Doze anos depois, a tradução seria publicada em Recife, na Imprensa Oficial de Pernambuco (1957), numa plaquete, trazendo na edição caráter livresco. Acompanhava introdução autoral. Essa demanda acontece após a produção da chamada Segunda Fase Modernista, compreendida nos anos de 1930. A importância da publicação  é destacada por Ivo Barroso: “O interesse pela obra de Whitman entre nós pode ser assinalado desde 1945, quando Luís da Câmara Cascudo publicou n’A República, de Natal, três artigos que incluíam as traduções dos poemas I hear America singing, The base of all metaphysics e  For you, o democracy. Já nessa época, o nosso grande folclorista reconhecia em Whitman “um dos mais difíceis originais para tradução. Um Whitman traduzido é uma diminuição infalível. O grande, imenso poeta, só o será em inglês, na plenitude de sua originalidade poderosa, manejando os recursos do seu gênio, acumulador de nuvens e espalhador de ritmos maravilhosos”.

Ainda segundo Ivo Barroso, o poema “The Base Of All Metaphysics” foi traduzido também por Manuel Ferreira Santos e incluído em O Livro de Ouro da Poesia dos Estados Unidos (Ediouro, s/d). Acrescenta ainda, demonstrando a importância da tradução cascudiana: “Seguindo-lhe os passos, Gilberto Freyre, em uma conferência na Sociedade dos Amigos da América, em maio de 1947, referia-se à originalidade e ao pioneirismo daquele “anglo-americano que primeiro exaltou em poema a figura de uma negra” e, analisando a atuação poético-política do vate, dizia que, “não obstante sua confiança no homem comum, Whitman enxergou sempre a necessidade, nos postos de comando – de puro comando, nunca de domínio – do homem incomum.” Toda a digressão de Freyre é focada na conceituação de Democracia e nas interpretações políticas de Whitman, para quem o “barco democrático não devia ser feito só para os ventos bons”, mas para enfrentar igualmente as tempestades (Ship of the hope of the world – Ship of Promise / Welcome the storm – welcome the trial)”.

No estudo já citado, Ivo Barroso (2011) ressalta a leitura de Gilberto Freyre sobre esse tema e afirma que o sociólogo pernambucano não se inibe de abordar a questão-chave do homossexualismo de Whitman, como neste trecho em que cita Freyre: “O que teve parece que foi principalmente a coragem de grandes amizades com outros homens (algumas – admita-se – de remoto ou imediato fundo homossexual) ao lado de entusiasmos por ‘mulheres perfeitas’. O que põe em destaque seu bissexualismo de atitude; e o ‘narcisismo’ de exaltar a beleza do corpo humano – a do homem tanto quanto a da mulher – e não apenas a graça e o encanto do corpo da mulher visto com olhos de ho mem. Um homossexual inveterado dificilmente teria escrito poema tão compreensivo do sexo oposto e, ao mesmo tempo, tão masculino em sua atitude como A woman waits for me. Apenas, a mulher por ele idealizada não era a lânguida, a frágil, a excessivamente delicada das civilizações caracterizadas por um tal domínio econômico do Homem sobre a Mulher em que esta é antes um sub-sexo do que o sexo oposto”.

Percebemos, na leitura dos poemas, as recorrências ao “Cristo Divino”, ao “devotamento do Homem ao seu Companheiro” e ao cantante continente “América”. Apontamentos de leituras da Filosofia Clássica, a América fraterna, a democracia, os barqueiros, carpinteiros, Hegel, Kant, Platão, Shelling cabiam nas muitas vozes de Walt Whitman. Repercutidas em versos supunham, utopicamente, as “cidades inseparáveis”. Cidades idílicas dos devotamentos. Cidades “do fiel marido pela esposa / dos filhos pelos pais / da cidade pela cidade, da terra pela terra!”.

As traduções supracitadas aperfeiçoam práticas poéticas. Tem largo sentido reelaborar noutro idioma poesias do norte-americano responsável por adiantar estéticas contemporâneas entre a prosa e a poesia. Whitman cantou libertariamente a “esposa”, a “democracia”, a “América” e subempregados: marceneiros, mecânicos, lenhador e sapateiro. Associou-se à quebra de tabus comportamentais, implicando o homossexualismo (“À noite a reunião de jovens compa nheiros, fortes, afetuosamente.”). Temas ligados ao bissexualismo, feminismo e preconceito de cor.

Um dos poemas “I hear America singing” foi interpretado no CD “Brouhaha” em música por José Celso Martinez Correia, ator e diretor do Teatro Oficina, da compania teatral Uzyna Uzona, utilizando a versão traduzida por Luís da Câmara Cascudo. Com tratamento sonoro de Cid Campos: “Eu ouço a América cantar! / Ouço os variados cantos, os dos mecânicos, cada um cantando como se fosse jovial e forte! / O carpinteiro cantando e medindo vigas e pranchas! (...)”


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