Woden: 63 anos de história no jornalismo

Publicação: 2017-11-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Com tanta experiência para compartilhar, Woden e seus anos de trabalho são tema de conversa hoje no FLIN, na Tenda Moacy Cirne, a partir das 18h, na qual ele contará com a presença da filha e  escritora, Beatriz Madruga e dos colegas de profissão Tácito Costa e Franklin Jorge.

O jornalista Woden Madruga possui uma longa experiência no jornalismo
Ao lado da máquina de escrever, a primeira obra do jornalista Woden Madruga

Dizendo que não é mais do palco, e sim da plateia, Woden conta que o plano esse ano era participar do festival apenas como ouvinte. “Eu tinha falado a Dácio Galvão que eu queria sentar numa cadeira, ouvir o debate e conversar nos arredores. Mas ele ligou para me convidar, e são 63 anos, né? Fiquei contente”, admite.

Ao relembrar dos primeiros  anos, ele diz que escolheu o jornalismo enquanto fazia um curso de contabilidade aos 17 anos e, novamente anos depois, após concluir o curso de Direito. “Era uma coisa que estava no meu destino, na minha estrada. Recebi bons convites para ser advogado, tentei, mas vi que não era minha praia. Eu sentia que minha vida era o jornal, que me atraía e me dá prazer”, diz. 

Ao escolher uma cobertura jornalística que mais marcou a carreira para compartilhar com a reportagem do Letras & Ideias, Woden lembra de sua primeira reportagem. “Não foi somente minha, mas eu participei dela”. “Um dia, eu estava no Diário de Natal, na redação, aí o secretário Xavier Pinheiro disse ‘Woden, corra lá pro Hospital Miguel Couto (atual Hospital Universitário Onofre Lopes), no Pronto Socorro, que houve um crime ontem, bárbaro, e a vítima está no hospital”, narra. A vítima era Lauro Maia, pai do ex-governardor Lavoisier Maia. “Fui a pé e quando cheguei no hospital, encontrei um grande jornalista do Diário, Luiz Maria Alves, que fazia mais reportagem política, mas gostava de policial. Aí ele disse ‘fique comigo aqui’ e foi quem me orientou. Essa foi uma reportagem muito importante, não só porque foi a primeira, mas também porque foi um crime que teve uma repercussão enorme na cidade”, lembra.

Woden Madruga começou muito cedo no jornalismo, aos 17 anos, e há mais de 40 anos é colunista da TRIBUNA DO NORTE
Woden Madruga começou muito cedo no jornalismo, aos 17 anos, e há mais de 40 anos é colunista da TRIBUNA DO NORTE

Ativo na profissão, Woden Madruga afirma que “hoje falta um pouquinho de sal” no fazer jornalístico. “Tem bons jornalistas, mas o bom jornalismo mesmo não se pode comparar com o de 50 anos atrás”, opina. Ele critica a falta de separação entre o jornalismo factual e a opinião do comunicador. “Quando eu vejo televisão, às vezes eu fico meio nervoso, porque o apresentador da notícia de hoje é um showman, grita e dá opinião. Não sei se ele tá do lado A, lado B. Confunde o telespectador, o ouvinte ou leitor”.

Experiência
Para Madruga, a notícia tem que ser “seca”, para depois poder ser seguida de análise. “A notícia deve ser isenta e objetiva. O fato, a partir daí, pode ser interpretado, mas isso já não é mais notícia, é comentário, artigo ou editorial”, comenta, afirmando que tais pensamentos podem ser um desvio da sua formação de jornalismo de 60 anos atrás.

Nesse tempo, de acordo com Woden, o que se ouvia nas redações era o ritmo das teclas batendo e os discursos dos repórteres sobre suas pautas e apurações. “Hoje, quando eu vou à Tribuna do Norte, chego na redação e acho que tô entrando num convento, porque é um silêncio… Você não percebe a batida do teclado no computador, cada repórter com um fone no ouvido. Antigamente, a gente entrava gritando, mas é isso aí”, relata. Para ele, “a própria tecnologia modificou o conceito de jornalismo”.

Alguns livros da estante pessoal de Woden Madruga
Alguns livros da estante pessoal de Woden Madruga

Papel x Digital
Apesar dessas lembranças, ele afirma não ser saudosista e conta que se dá bem com as novas tecnologias. “Passo bom tempo do dia a dia lendo os principais jornais do país, Rio e São Paulo, pela internet”, revela.

Entretanto, Woden sente falta do papel, especialmente diante do cenário local quando o assunto são notícias impressas. “É uma coisa triste você viver numa cidade que tinha cinco, seis jornais diários, hoje você ter apenas um, que é a Tribuna do Norte”, lamenta, e apresenta uma justificativa para essa situação. “As pessoas novas não compram jornal, nem os repórteres novos” diz ele, contando que acha interessante o fato de, com os celulares, alguém poder “atravessar a rua lendo uma notícia”.

“Sou do tempo em que aguardavam o jornal sair no dia seguinte para saber do que aconteceu, ou ligava o rádio, ou a televisão”, conta, relembrando como no passado as pessoas faziam filas nas calçadas da banca O Zepelin, situada no não  mais existente Grande Ponto, e que vendia todos os jornais de Natal, alguns de Recife e outros do Rio.

Livros, jornais antigos e alguns documentos do autor
Livros, jornais antigos e alguns documentos do jornalista

“Hoje não se tem mais jornal impresso de fora aqui em Natal. Não tem mais O Globo, Estadão, os de Recife. Parece que só tem a Folha de São Paulo”, reclama. “A nova geração acha isso normal, eu  sou da geração que já passou e não consigo conviver 100% com essas mudanças”, diz.

“Você chega em um lugar público e quatro, cinco pessoas estão numa mesa e em vez de estarem conversando, estão olhando para a telinha dos seus celulares”, relata Woden. Para ele, que prefere deixar o uso do celular “só para atender ligações”, é difícil compreender essas transformações que aceita mas não pratica, enquanto torce para que continue a existir jornal de papel.

Na gaveta do tempo
No ano passado, Woden lançou seu primeiro livro, "Na Gaveta do Tempo", em que reuniu algumas de suas melhores colunas do Jornal de WM com a ajuda e incentivo dos amigos. “Inventaram que eu devia ser candidato a Academia Norte-rio-grandense de Letras, e para ser candidato, você precisa ter um livro publicado. Eu não queria, mas como era a vaga de um grande amigo meu, Ticiano Duarte, me senti no dever de ‘disputar’”, revela. Apesar da publicação recente, ele afirma que nunca havia pensado em ser escritor, que nasceu para ser leitor. “Se eu fosse juntar todas as minhas colunas, dava para publicar 10 livros. Mas eu nunca tive esse objetivo. Eu gosto é de ler, nasci para ser leitor, e prefiro até reler”, afirma.

Talvez por isso aprecie tanto a programação do Festival Literário de Natal, que classifica como “uma oportunidade que se tem de ter contato com grandes nomes da literatura no Brasil, ver shows de grandes músicos e escritores do estado dialogando nas mesas". Woden diz que é um "caminho aberto" para o jovem, mas que não quer perder as discussões na Tenda dos Autores e as apresentações musicais. Como ele mesmo disse, "o FLIN tem essa junção de gerações".


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