Zé do livro: ex-morador de rua e vendedor de histórias

Publicação: 2019-07-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Mariana Ceci
Repórter

José César dos Anjos de Miranda tem 31 anos. Sabe o ano que nasceu, 1987, apesar de não lembrar dia e mês. "Daqui a alguns dias, ou alguns meses, estou completando mais um ano de vida", conta. É figura conhecida pelos frequentadores do Largo do Atheneu, em Petrópolis. O local reúne bares, bancas de revista e restaurantes em frente ao Atheneu Norte-Riograndense, uma das mais antigas escolas do Estado. Já foi vigia, pastorador de carros, limpador de automóveis e, hoje, ganha a vida vendendo livros - mas nunca teve oportunidade de aprender a ler. 

Nas ruas, José César fez amigos e coleta com eles doações de livros que vende para sua sobrevivência
Nas ruas, José César fez amigos e coleta com eles doações de livros que vende para sua sobrevivência

Conheci 'Zé do Livro', como José é conhecido, em uma sexta-feira à noite, enquanto tomava uma cerveja no Largo do Atheneu. À época, não sabia o nome do homem que se aproximou e tirou da mochila vários exemplares de livros. "Boa noite. Você tem interesse em ver alguns dos livros que estou vendendo?" disse, estendendo os exemplares.

Com a afirmativa, pôs-se a contar as histórias dos livros que trazia consigo, na tentativa de fechar o negócio. No meio da venda, precisou pedir um minuto. “Estou muito nervoso, me desculpe. Acabaram de roubar quase todos os meus livros”. Conversamos mais um pouco até que se acalmasse e, no fim, adquiri dele "A arte de escrever cartas e os meios de obter um bom estilo", de Eduardo Sucupira Filho.

Nosso segundo encontro, também por acaso, aconteceu no mesmo Largo, dessa vez durante o dia. Estava escrevendo quando ele se aproximou e perguntou: “Você é escritora?”. Respondi que era jornalista e, nesse dia, pediu para que eu contasse sua história. Naquele dia, nos despedimos combinando nos encontrar novamente.

Do primeiro encontro à entrevista com Zé do Livro, no entanto, passaram-se vários meses. Foram semanas até que conseguisse encontrá-lo novamente após o segundo encontro – deixei o contato com todos os proprietários de bancas e ambulantes que trabalham na região, pedindo para que ligassem caso ele voltasse a aparecer. Já havia perdido as esperanças quando, na última terça-feira (17), recebi sua ligação. “Alô? É a repórter? Sou eu, Zé do Livro...”. Marcamos de nos encontrar na quinta-feira (18), para que ele, finalmente, pudesse contar sua história.

De Enxu Queimado à Natal
Como tantas outras pessoas em situação de rua nos centros urbanos, Zé do Livro veio do interior para a capital em busca de uma vida melhor. Nasceu em Enxu Queimado, distrito do município de Pedra Grande, 140 km distante de Natal. Os moradores contam que, no passado, havia muitas abelhas, que tiveram as colmeias, “enxus”, que foram queimadas por volta de 1950, para poder praticar aquela que hoje é a principal atividade do local: a pesca.

“Lá no interior é mais difícil, porque o único emprego que tem é a pescaria. E eu... bom, eu nunca gostei de pescar”, conta. A mãe morreu quando tinha 5 anos, e ele e os irmãos mais novos foram abandonados pelo pai, que começou uma nova família pouco depois. “Não guardo mágoas dele, mas nos abandonou a todos”, conta.

Os irmãos, então, precisaram se apoiar uns nos outros para sobreviver. “Minha irmã que mora em Mãe Luiza se chama Raimunda. Ela começou a trazer os menores, um por um, até o mais velho, que hoje mora na Redinha”.

Aos poucos, os irmãos foram se separando, um a um. A mais nova, que foi adotada pelos tios, virou professora em um centro de educação infantil, e vivem no Jiqui, em Parnamirim. Outro, virou caseiro da casa de uma juíza, na Redinha. Ramalho, o que ele diz ser aquele com quem cresceu mais próximo, está na região do açude Boqueirão, em Parelhas. Ao relatar a separação, se emociona: “O que mais me dói é ver meus irmãos assim, todos separados para tentar sobreviver. A gente tem que criar casca grossa, mas eu sinto falta deles todos os dias”, conta.

Nas ruas, José César foi vítima de violência
José conta, com orgulho, que “nunca precisou roubar para sobreviver”. Antes de começar a vender livros, trabalhava fazendo bicos como vigia e lavador de carros. Não foram poucas, no entanto, as vezes que ele mesmo teve sua mercadoria roubada ou sofreu violência enquanto trabalhava. "Eu sou muito humilhado, até dentro dos ônibus. Já apanhei na cara em ônibus, quando estava fazendo meu trabalho", conta.

Chegou a viver por quatro meses na rua, antes de ir morar com a irmã, Raimunda, em Mãe Luiza. À época, trabalhava enquanto vigia, e passava a noite acordado. Um dia, após quatro noites em claro, deitou-se para dormir na avenida Deodoro da Fonseca, na Cidade Alta. Quando já estava pegando no sono, alguém jogou álcool em suas pernas, e ateou-lhe fogo. “Acordei com minhas pernas queimando. Felizmente, eu estava de calça, apesar de que ela não protegeu muita coisa”, lembra. 

As violências relatadas por José são a realidade diária de quem vive nas ruas da cidade. De acordo com o Boletim Epidemiológico 14 do Ministério da Saúde, Natal é a terceira capital do Brasil com maior frequência de casos de violência contra população em situação de rua. 

Em três anos, a capital potiguar registrou 788 casos de violência que chegaram ao Sistema de Informações de Agravos e Notificações (Sinan), ficando atrás apenas de Salvador e São Paulo. Muitos, como o caso de José, sequer chegam ao Sistema.

Contando histórias para vender livros
O bairro de Mãe Luiza, onde  José vive atualmente com a irmã, que tem 11 filhos, possui um dos Índices de Qualidade de Vida (IQV) mais baixos da cidade (inferior a 0,5). Vizinho a ele, está Petrópolis que, por sua vez, possui um dos mais altos IQV de Natal (entre 0,7 e 1,0). É para lá que José se dirige para vender sua mercadoria. 

José César conta que criou carinho pelos livros e que o que faz hoje é o melhor trabalho que já teve
José César conta que criou carinho pelos livros e que o que faz hoje é o melhor trabalho que já teve

Foi passeando pelo Mercado de Petrópolis que os livros lhe chamaram atenção pela primeira vez. Um dos proprietários de sebo do mercado resolveu lhe ajudar, e fez as primeiras doações para que ele começasse as vendas. "Eduardo [Eduardo Vinícius, proprietário do Seburubu] me deu essa oportunidade no começo, e é o que venho fazendo desde então", relata. Daí em diante, passou a coletar doações de clientes, conhecidos e amigos que fez pelo caminho. Ganhou também o apelido com o qual costuma se apresentar aos clientes: Zé do Livro. 

Muitos se oferecem para doar outras coisas além de livros, como uma nova mochila e roupas, mas poucas das promessas chegam a se concretizar. “A gente aprende que tem que ter paciência. Muita gente quer ajudar, mas muitos esquecem que eu existia pouco depois que saio de perto”, relata. 

Vende os livros doados a preços simbólicos: R$ 4 por um, três por R$ 10. O que mais chama atenção, no entanto, é que Zé do Livro é capaz de contar, mesmo sem ter lido, as histórias que carrega na mochila. "Quando eles me doam, me explicam. Eu memorizo, e vou recontando”, explica. 

Perguntei-lhe se tinha vontade de ler, ele mesmo, os livros que vendia. “Ter eu tenho. Meu plano, hoje, é voltar a estudar. Não cursei nem a primeira série. Mas às vezes eu fico mexendo neles, olhando.  Mesmo sem ler eu acho que sou livreiro, porque ganho a vida vendendo livro. E é melhor vender livro do que fazer coisa ruim”, diz.

Hoje, tem duas perspectivas: ou começar a estudar, ajudado por um dos proprietários dos bares do Largo do Atheneu, ou voltar para o interior. “Eu fui criando um carinho por esses livros. Foi o melhor trabalho que já tive. Gosto de ser livreiro, mas a gente sempre vai buscar o que puder dar uma vida melhor. Com o livro eu sobrevivo sem roubar. Mas às vezes falta”. 





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