Zé Eduardo: "No RN, bases valorizam atletas dos empresários"

Publicação: 2020-02-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Vicente Estevam
Repórter de Esportes

Recém profissionalizado no futebol, o atacante potiguar Zé Eduardo, que pertence ao Cruzeiro mas está disputando o Campeonato Mineiro pelo Vila Nova, de Nova Lima, falou das dificuldades que os jovens potiguares que buscam as bases de ABC e América possuem para tentar se profissionalizar nesses clubes. Além disso o atleta de 20 anos ainda fala sobre os planos para carreira e como ficou sua vida após ser contratado por um dos maiores clubes do Brasil.

Créditos: DivulgaçãoZé Eduardo, jogador revelado no RN e contratado pelo CruzeiroZé Eduardo, jogador revelado no RN e contratado pelo Cruzeiro


Como foi o início de seu contato com o futebol, aquele seu primeiro contato?
Minha família sempre gostou de futebol, meus pais sempre me deram muito apoio eles sempre gostaram muito de esporte, tive alguns tios e meu pai que passaram também pelas bases de alguns clubes, mas não chegaram a ser profissionais. Porém o incentivo veio de todos eles, a família sempre me apoiou bastante.

Mas desde garoto o foco em relação a você era para que se tornasse jogador profissional? Quando iniciou realmente você sentiu que poderia abraçar essa carreira?
Desde pequeno, com cinco anos quando iniciei na escolinha do América que existia esse objetivo na família, lógico que naquela época era apenas vontade, uma vez que criança entre numa escolinha de futebol para participar de uma brincadeira com outros meninos de sua idade. Depois esse sonho foi se transformando em realidade e, Graças a Deus está dando certo.

Então qual foi o período que o Zé Eduardo que estava ali naquela batalha sentiu que as coisas poderiam dar certo?

Acho que foi quando chegamos para disputar a Copa São Paulo de Júnior com a equipe do Visão Celeste que a ficha caiu mesmo. Nós chegamos como azarões, ninguém fora do Rio Grande do Norte conhecia o Visão Celeste e conseguimos a vaga para disputar essa copinha. As coisas foram dando certo e foi a partir desse momento que senti aquela certeza de que dava para abraçar a carreira de jogador de futebol.

Você sempre jogou apenas futebol ou foi obrigado a ter em outro tipo de ocupação para conseguir o dinheiro para se sustentar?
Eu sempre joguei apenas futebol. Graças a Deus meu pai tinha a condição de permitir isso, como sargento da Polícia Militar então eu pude focar apenas no esporte.

Quem te levou para treinar no América, por intermédio de quem você chegou lá?
Foi meu pai mesmo. Entrei para escolinha de crianças, treinávamos apenas sábados e domingos. Só que eu fui me destacando no meio da garotada e esses são chamados para treinar mais dias durante a semana, na base do próprio clube. Neste caso já não precisava mais pagar para treinar no clube.

Como ocorreu essa transferência do América para o Visão Celeste?
Não foi uma ligação direta. Primeiro saí do América e fui treinar no ABC, depois saí para fazer um teste na Inter de Limeira (SP). Por sinal antes de ir para o Visão Celeste, eu iria até jogar a Copa São Paulo pela Inter em 2018. Só que uma burocracia atrapalhou e não conseguimos ser inscritos por Limeira. Aí tentei um retorno para o ABC, não ocorreu o acerto com a diretoria, não deu certo, depois ainda fui realizar um teste no Santos antes de chegar ao Visão Celeste.

É muito difícil um garoto potiguar, que tenta a sorte no futebol, chegar a jogar em clubes como ABC e América. Qual é o principal problema que esses jovens da casa enfrentam?
Só posso falar do tempo que estava em Natal, mas tanto no ABC quanto no América eles dão muita prioridade a jogadores de empresários, aqueles caras de nome e que têm moral junto aos clubes. Então a molecada de Natal não importa muito a qualidade, a maioria sempre acaba ficando para trás. Até hoje esse problema existe, tenho amigos nas bases do América que chegaram até subir, mas nunca tiveram a chance de atuar entre os profissionais. O que dificulta mesmo é isso?

Você acredita então que aqui os clubes não valorizam a capacidade do atleta local e dão preferência a ficar trocando favores com os empresários?
É mais ou menos isso que acontece. O empresário que tem uma moralzinha nos clubes traz o seu jogador, então o moleque que está lá e é de Natal, mas não tem ninguém por trás dele não joga. Acho que existe muito preconceito com quem é de casa.

Isso desanima muito o jovem que está tentando se transformar num profissional do futebol?
Desanima bastante. Tem muito moleque aí que desistiu de ser jogador devido a essas questões. É muito chato isso.

Você alguma vez também chegou a pensar em largar tudo?
Pensei muitas vezes. Esse ano mesmo que disputei a Copinha pelo Visão Celeste era o meu último ano de base, por que no Rio Grande do Norte temos até a categoria sub-19. Se eu não tivesse realizado uma boa competição e tivesse surgido esse contrato com o Cruzeiro, particularmente, eu não sei o que poderia estar fazendo na vida agora. Eu não tinha expectativa alguma em relação a minha carreira.

Você chegou a se preparar para seguir uma carreira fora do futebol?
Eu tenho o ensino médio completo e, às vezes, durante essa batalha para tentar emplacar na carreira, pensava em fazer algum curso técnico, mas não cheguei a realizar. Nem graduação na Universidade.

Como está sua situação com o Cruzeiro já que hoje você se encontra emprestado ao Vila Nova-MG?
Ainda tenho três anos de contrato com o Cruzeiro, assinei no ano passado até 2022, e esse ano o clube me emprestou para disputar o Campeonato Mineiro pelo Vila Nova, da cidade de Nova Lima. Eu estou gostando, venho marcando gols e está muito boa essa nova experiência.

E o que mudou na vida do Zé Eduardo após a profissionalização no futebol?
Mudou tudo. Estou morando fora, minha família veio morar junto comigo em Minas Gerais. Em Natal ficou apenas o meu irmão mais velho. Mudou tudo mesmo.

O clube te deu condições de levar os seus familiares ou foi o contrato que você assinou que te permitiu isso?
Foi o Cruzeiro quem me deu essa condição. Hoje estamos morando na Vila da Serra em Nova Lima mesmo, mas quando estava no Cruzeiro ele deram para mim uma casa no bairro castelo em Belo Horizonte mesmo.

Você já conseguiu dar o conforto que imaginava dar aos seus pais quando se tornasse um jogador profissional?
Estou começando a dar, mas busco algo mais para minha família.

Qual a sua meta para 2020?
Eu quero realizar um bom Campeonato Mineiro para que possa ou regressar para atuar no próprio Cruzeiro ou poder ser emprestado a algum clube que vá disputar a Série A ou B. Quero buscar coisas grandes esse ano.

O grande sonho dos meninos que nascem aqui, talvez seja conseguir atuar profissionalmente por ABC ou América e você explodiu para o futebol justamente numa equipe de pouca expressão. Você esperava que isso ocorresse em sua vida, estava preparado, ou foi tudo uma surpresa muito grande?
Realmente não esperava isso tudo, no Visão Celeste a nossa maior ambição era realizar uma Copinha boa, tipo passar da primeira fase, no máximo. Mas no decorrer das partidas percebemos que poderíamos chegar longe e acabou dando tudo certo.

Você se preparou para ter o sucesso que teve dentro do Visão Celeste na Copa São Paulo de Futebol Júnior ou também acabou sendo uma surpresa?
Eu não estava muito preparado para essa repercussão toda. Confesso que me surpreendi muito com tudo aquilo e na velocidade que ocorreu. Tinha vez, depois das partidas, que recebia ligações de até vinte empresários. Muita gente me procurou e teve um momento que fiquei até com medo de tudo aquilo. Então liguei para o meu pai, falei também com meu irmão mais velho sobre tudo e eles me confortaram.

As propostas que esses empresários te faziam eram de que tipo? Eles te ofereciam coisas boas ou estavam querendo apenas explorar um garoto que estava surgindo como promessa para o futebol?
Tinham alguns que me ofereciam coisas boas e outros não. Mas um moleque que saiu de uma cidade pequena no Rio Grande do Norte não sabe avaliar bem essas coisas. Nunca imaginei que iria viver uma situação assim e, isso, me despertou medo. Hoje eu trabalho com o empresário André Curi, de São Paulo.

Pelo que conseguiu enxergar até aqui dentro do futebol, Zé Eduardo acredita que um jogador para emplacar depende mesmo de um empresário?
Acho que sim, tem de se preocupar em possuir um empresário bom, uma boa equipe de trabalho também. É importante o atleta estar bem, procurar sempre jogar um bom futebol, mas o dedo do empresário também vai ajudar a impulsionar a carreira. Tenho ciência disso atualmente pelos espaços que ele, através de seus contatos, consegue abrir para o atleta. Curi me dá a tranquilidade de poder em me preocupar em apenas jogar futebol. As demais coisas ele resolve tudo.

Você disse que entre as suas metas para o ano, está a possibilidade de voltar e disputar a Série B pelo Cruzeiro. O ambiente hoje no clube está propício para um atleta que busca fixar o nome no mercado profissional na sua opinião?
Acredito que sim. Essa crise severa que o clube vem enfrentando é grave, mas o Cruzeiro é um gigante do futebol nacional e deve ser sempre respeitado. Ele recentemente conquistou títulos de expressão no Brasil e não perdeu a grandeza. Será sempre uma vitrine muito grande para qualquer tipo de profissional dentro do futebol.

Você é de qual cidade no Rio Grande do Norte?
Na verdade, nasci em Natal, no Hospital da Polícia pelo fato de meu pai ser militar, mas fui criado e moro em São José de Mipibu, no distrito de Laranjeira dos Cosmes. Um lugar que tem algumas pessoas também buscando uma carreira no futebol. Eu tenho um primo que atua na lateral-direita das bases do Sport Recife, tem outros que saíram. Na cidade de São José mesmo tem mais gente: Richardson, que era do Ceará e está no Japão. Tem um monte. Joãozinho, Diego Mipibu, Carlinhos Mipibu e acho que se fosse formado um time local lá poderia dar trabalho a ABC e América no Estadual.

Como é que vem trabalhando a chegada do sucesso na sua carreira, ele obrigou você a alterar seu modo de viver?  A fama é uma coisa positiva ou negativa para um atleta?
Tenho a cabeça muito tranquila em relação a essas coisas, para mim não existe qualquer complicação. Não gosto muito de sair de casa, estar em festas ou em casas noturnas. Mas tem aqueles que gostam, aí fica ruim porque a torcida cobra.

Saindo do Visão Celeste, onde ganhava, no máximo uma ajuda de custo, para desembarcar no Cruzeiro onde passou a receber uma bola de dinheiro comparando as duas situações. Como foi isso em sua vida, quem administra o seu dinheiro?
No Visão Celeste eu não ganhava nada, jogava apenas atrás de uma oportunidade mesmo. Meu pai e meu irmão mais velho me ajudam muito na administração do dinheiro. Escuto sempre os conselhos deles. Minha preferência pelo Cruzeiro foi porque o clube me ofereceu a oportunidade de trazer a minha família para ficar perto de mim. Essa foi uma exigência minha e sempre resolvo minhas coisas com a minha família.

Quando você pegou o primeiro salário, qual foi a primeira coisa que correu para comprar, que você tinha vontade de ter e não possuía condição e agora passou a ter?
Um celular novo. Corri numa loja para comprar um Iphone. Ainda tenho alguns sonhos que são comprar imóveis para aplicar o dinheiro e ter uma vida tranquila depois do futebol. Se esbanjar muito eu sei que dinheiro demais também acaba. Meu pai me orienta bastante nessa parte.













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