"O Brasil está perto de atingir o nível do pleno emprego"

Publicação: 2012-04-22 00:00:00
Apesar da crise global, o Brasil vive um bom momento econômico. Conseguiu reduzir o desemprego, aumentou a renda per capita da população e a capacidade de consumo de milhões de pessoas. Mas ainda crescemos abaixo da média dos emergentes. A realização da Copa do Mundo proporciona uma oportunidade única não só para as cidades que vão sediar os jogos, mas para o País como um todo. Mas é preciso enfrentar alguns gargalos. O maior deles, relacionado à infraestrutura para atender às demandas do comércio externo. “Todos sabemos onde eles estão. O problema é ter o capital e o arcabouço institucional para fazer os investimentos que o Brasil precisa”, diz o economista do Banco Itaú, Caio Megale, que no início da semana fez palestra no Seminário A Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014.
Caio Megael, economista do Banco Itaú
Nesta entrevista à Tribuna do Norte, ele fala sobre o momento econômico vivido pelo Brasil “que está perto de atingir o estágio do emprego pleno”, das dificuldades e das oportunidades geradas por um evento em escala planetária como a Copa do Mundo.

Várias oportunidades vão surgir com a realização da Copa do Mundo no Brasil. Mas muitos desafios perduram. Quais são eles  e como, na sua opinião, superá-los?
O Brasil tem alguns desafios importantes pela frente. O mais claro é o da infraestrutura por há demanda para crescer mais que está crescendo - mercado consumidor, interesses estrangeiros de investir aqui - mas temos dificuldades de infraestrutura para entregar toda essa produção que a demanda pede. Estamos falando logística, de portos, aeroportos e de estradas principalmente. Esse é o primeiro bloco de desafio que o País de tem enfrentar. O segundo bloco é o capital humano. Temos uma taxa de desemprego de 5% que é, provavelmente, a mais baixa em 40 anos. Nos últimos anos, crescemos sempre diminuindo essa taxa de desemprego porque existia um exército de desempregados, bem qualificados, que não conseguia emprego. Aí começaram a aparecer as oportunidades e eles foram absorvidos pelo mercado de trabalho. Daqui pra frente, estamos muito próximos do que os economistas chamam de “pleno emprego”, ou seja, vai ser difícil continuar crescendo e absorvendo essa mão de obra porque ela está praticamente toda ocupada. O desafio agora é aumentar a capacidade de produzir com a mesma quantidade de pessoas. Isso tem que ver com Educação, Saúde, Meio Ambiente, inclusive com preparação técnica para algumas profissões.

Em relação às oportunidades geradas pela Copa do Mundo?
Uma das coisas que mencionei em minha palestra [no seminário Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014], foi a questão da imagem, da marca. Sediar um evento como uma Copa do Mundo, uma Olimpíada, a Rio+20, que trazem um monte de chefes de Estado ao país sede, atrai os olhos e a mídia do mundo inteiro. É a chance de fazer um bom papel e mudar de patamar no comércio internacional. Se você fizer um mau papel poderá ter efeito contrário. O desafio agora é esse: fazer um bom papel na Copa  diante dos olhos do mundo.

De que forma o Brasil deve agarrar esta oportunidade e, em função disso, melhorar nossa infraestrutura?
Primeiro temos de aumentar a capacidade de investimentos. O Brasil é um país em que o contribuinte paga muitos impostos e os governos - federal, estadual e municipal - investem muito pouco, menos de 1% do Produto Interno Bruto (PIB). O governo tem o desafio de aumentar, dentro de seu orçamento, os investimentos e reduzir os gastos em outras dimensões. Temos de continuar a política de atrair investimentos estrangeiros. Se não temos tanto capital para investir, muitos estrangeiros estão interessados no Brasil. É preciso ter capacidade de atrair os investimentos externos. É uma iniciativa importante para endereçar o problema da infraestrutura. Todos sabemos onde eles estão. O problema é ter o capital e o arcabouço institucional para fazer os investimentos. Isso tem melhorado, mas é preciso melhorar mais ainda.

Neste contexto, como o Nordeste crescerá? E o Rio Grande do Norte?
O Nordeste continuará crescendo mais que a média nacional. A região está tendo um ganho importante em termos de avanço da classe média. Isso significa que o mercado consumidor aqui cresce mais que em outras regiões. E como a questão de mão de obra é maior, muitas empresas estão vindo para cá para aproveitar a mão de obra ainda disponível. Isso tende a gerar um ritmo de crescimento maior nos próximos anos. O Rio Grande do Norte está inserido nesse contexto do crescimento. O RN tem uma capital muito bonita, que atrai muito turistas, tem uma infraestrutura que funciona... Natal tem condições de crescer e se beneficiar desse momento favorável que o País está tendo.

Como Natal pode se recuperar da perda de turistas?
Primeiro, temos de entender como essa queda aconteceu. Não estudei esse ponto a fundo, não tenho como responder. Agora, Natal é sede da Copa e ela será realizada daqui a dois anos. A hora de reverter o problema é agora.

A recuperação do turismo passa por investimentos, tanto da iniciativa privada como do Governo em publicidade dentro e fora do país?
Todos os esforços de fortalecer a marca é importante. Como falei, com a Copa virão os turistas. Quem vier para cá tem de gostar da cidade. Eu estou gostando de estar aqui, mas não estou fazendo turismo... É preciso receber bem as pessoas. Não basta só as campanhas publicitárias.

Além do turismo, a Copa do Mundo poderá gerar impactos positivos nas exportações?
O impacto direto, mais claro, é o da marca. Quando o representante da Fifa estava apresentado as pesquisas do pós-Copa do Mundo na Alemanha, ele mostrou que mesmo cidades importantes da Alemanha se tornaram mais conhecidas depois de sediar a Copa do Mundo. O grande avanço vai ser, por exemplo, colocar Natal no “radar internacional” dos investimentos, colocar Natal na cesta do comércio internacional. Em suma: produto tem, qualidade tem. Agora é preciso trabalhar a inserção. E a Copa do Mundo tem condições de trazer essa inserção. Isso é a coisa mais importante.

O que impede um crescimento maior da economia brasileira? A logística?
Como disse, até certo ponto o país cresceu absorvendo mão de obra, mas agora a mão de obra está empregada. Tem o problema da falta de poupança interna, dos investimentos muito poucos.  O problema tem, sim, a ver com a logística porque o governo arrecada 35% do PIB e investe  menos de 1%. Encontrar espaço no orçamento público para investir mais, acho eu, é a chave do problema.

Isso se aplica a Estados menores como o Rio Grande do Norte?
Isso se aplica ao governo federal e aos governos estaduais também. Mas quem tem de liderar o processo é o governo federal.

Qual o papel de seu banco nesse processo, especialmente no caso das  linhas de crédito para microempresas?
As linhas de crédito vêm subindo no Brasil. E difícil dizer hoje, a dois anos da Copa, se o impacto é relacionado ao evento ou não. As linhas vem subindo porque o Brasil cresce a taxas maiores. Se a Copa gera impacto de um ponto e meio no PIB, certamente gera impacto na liberação de linhas de crédito para as pequenas e microempresas.  Acredito que os bancos estão dispostos a ajudar os bons projetos das pequenas e médias empresas. Em especial, aqueles que estão em cidades-sedes do evento esportivo que mais chama atenção e desperta interesse de todo o mundo.”

Economicamente falando, o Brasil está no rumo certo?
Está num bom rumo, mas pode se acertar mais. Tem condições de demanda para crescer como crescem a Índia, a China, a Rússia, Chile, Peru e outros países mais próximos de nós, que têm taxas de crescimento em torno de 5,5% a 6%. Nossa taxa potencial é 4%. Se você deixa de crescer um ponto porcentual em dez anos, isso significa que 10%, 12% do PIB foi deixado pelo caminho. Poderia crescer mais se tivesse mais recursos para investimentos. O Brasil está num bom caminho, repito. Nossas pesquisas mostram que o bem-estar da população melhorou bastante no Brasil nos últimos anos.

A questão da falta de poupança interna ainda é reflexo do período alto de inflação?
Um pouco disso, um pouco da rigidez fiscal do governo. Gastamos mais que 10% do PIB com pensões previdenciárias e temos menos que 7% da população acima de 65 anos. O Brasil é um país jovem que gasta muito com aposentadorias. O problema da poupança interna tem mais que ver com as contas públicas. Não é culpa de Lula, Dilma ou Fernando Henrique. Na verdade eles receberam um orçamento engessado e conseguiram flexibilizar muito pouco.