Bricolagem
Atualizado: 16:08:47 07/05/2022
Dácio Galvão
[Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e secretário de Cultura de Natal ]

Boa notícia. Um super brinde à erudição, tradução, música...  A curtição. Na verdade, a boa foi o lançamento de Entredados, um Livro-CD. Se compõe de clássicos da literatura que optaram por linguagem comprometida com linguagens. Craques reunidos por Augusto de Campos que como poeta faturou o Prêmio Pablo Neruda, em 2016 com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cultural e em 2017 o Janus Pannonius Grand Prize for Poetry. O equivalente ao Prêmio Nobel de poesia.

O timaço convocado para a execução do livro-disco traz textos de Gregório de Matos, John Cage, Maiakóvski, Lewis Carrol, James Joyce, Mallarmé, poema chinês de antologia realizada por Confúcio. Também as vozes de Haroldo de Campos e Décio Pignatari estão presentes na oralização do Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, de Stephane.

Desde o lançamento do ‘rei menos o reino’ de 1951, que AC se mantêm fiel a sua trajetória de artista multimidia respaldado em conceitos metodológicos da inventividade, da tradução-arte, do paideuma sustentado por Ezra Pound. 

No recentíssimo lançado Livro-CD Entredados, edição física, não abriu concessão e não deixou por menos. Mobilizou o músico Cid Campos (com quem havia assinado parcerias nos CD’s Emily, Poesia é Risco e Ouvindo Oswald) e se dividiu em mais uma empreitada de experimentos sonoros. Na concepção do design gráfico trouxe o aporte do artista visual André Vallias, produtor de mídia interativa e experimental. E fechou com a resenha do radical e principal cineasta brasileiro do gênero found footage, ou trecho de filme encontrado, Carlos Adriano. Organizador do livro, Julio Bressane: CinePoética, Adriano é figura carimbada em festivais não comerciais em Nova York, Berlim, Paris... É dele a direção do marco zero do gênero, o filme Remanescências, de 1997.

Impressões de signos em rotação logados na trajetória percorrida nesses mais de 70 anos de atividade artística-literária atestam a coerência do ativista concretista. Original cultor desde sempre de uma poética ‘verbivocovisual’ ou da poética que materializa a simultaneidade da poesia/música/imagem, Campos não foge a luta e redimensiona sua concepção clássica vaticinada no antológico livro de ensaios Verso Reverso Controverso, quando avisa e afirma: ‘...defenderei até a morte o novo por causa do antigo e até a vida o antigo por causa do novo. O antigo que foi novo é tão novo como o mais novo.’ 

Assim pensando foi que traduziu o lirismo medieval do trovador Arnault Daniel autor do neologismo provençal -noigandres-, e parte da literatura amorosa do metafísico pastor anglicano inglês John Donne. Na tradução criativa que fez do poema Elegia, resultou na musicalização por Péricles Cavalcanti. Caetano Veloso também gravou a canção.

Entredados é mais um livro-arte com o esmero e potência de um Poemóbiles, de uma Caixa Preta (com Julio Plaza) do ponto de vista da voltagem estética de um livro-objeto. Obra de arte assinada por quem sempre apostou numa linha de coerência fora do cânone estabelecido. Nesses tempos... Como vale celebrar!

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.
A crise: hoje e amanhã
Atualizado: 16:07:22 07/05/2022
Cláudio Emerenciano 
[ Professor da UFRN]

Há circunstâncias em que a indignação não é apenas um direito. É imperativo da condição humana e dever da cidadania. É uma tomada de consciência. É também a inserção do homem como parte de uma pátria, de uma nação ou de uma civilização. A vida civilizada implica numa sociedade sob a égide do Direito. Subsiste um questionamento oportuno, óbvio, necessário e legítimo: – Qual Direito? A mais simples resposta é esta: conjunto de normas, a partir de uma Constituição, legítima e livremente promulgada por representantes do povo, cuja aplicação viabilize o aprimoramento da condição humana. Garanta liberdades públicas e direitos individuais. Alicerce instituições livres e efetivamente democráticas. Instituições que reprimam privilégios e exorcizem toda e qualquer forma de discriminação. Eis o Direito que infunde em cada cidadão a convicção de que seu país é comprometido com a justiça e o bem comum. Fomenta na sociedade crenças e sonhos, que  alicerçam o seu viver.                         
 Ainda hoje a Declaração de Independência dos Estados Unidos, também chamada de Declaração dos Direitos do Homem de Filadélfia (1776), em sua introdução, sintetiza uma concepção universal do mundo e da vida: “Consideramos verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados por Deus de certos direitos inalienáveis, entre os quais a vida, a liberdade e a procura da felicidade”. A vida e a liberdade não se esgotam em si mesmas. Completam-se com a procura e a fruição da felicidade. Vida, liberdade e felicidade são dons de Deus. Assim ensinou São Tomás de Aquino na “Suma Teológica”. O homem nasceu para ser livre e feliz. Amar e ser amado. Usufruir justiça e paz.

 Fundamentos da civilização cristã. A harmonia entre a fé e a razão. Construir o homem é dar-lhe condições que permitam sua ascensão espiritual, cultural, ética, moral e material. A vocação de ser é irrefreável e inesgotável. É um contínuo e progressivo peregrinar, que se compatibiliza com o sentido da vida. Essa é uma das reflexões de Giorgio La Pira no clássico “Por uma estrutura cristã do Estado”. Não nos esqueçamos que as terríveis e injustas contradições da sociedade norte-americana, sobretudo o racismo, não invalidam o sentido e a dimensão universal de sua Declaração de Independência, que inspirou emancipações políticas em todo o mundo. Sobretudo no desmantelamento, pós Segunda Guerra, dos impérios coloniais e a Carta da ONU. A vida civilizada, decorrente de princípios universais, reclama paz. Não se pode prescindir, em circunstância alguma, da paz entre as nações. Paz social. Paz individual.

 A impunidade é uma das mais nefastas e devastadoras formas de desestabilização das instituições democráticas. A impunidade continuada, progressiva, generalizada, é a antessala da desorganização social. É o esteio do caos nas sociedades livres. O Poder Judiciário, por mais desaparelhado que se encontre, em âmbito federal e estadual, não pode abdicar sua missão pedagógica. Marco Túlio Cícero, referência milenar do advogado comprometido com o Direito e as instituições republicanas, disse que “a distribuição correta e isenta da justiça fortalece o Direito. Sua eficácia o legitima”. O ensinamento se aplica ao Brasil dos nossos dias. A impunidade e a ineficácia jurídica na sociedade realimentam a crise. Também o abuso de autoridade. Sua irrupção, sem consequente resposta do Ministério Público e do Judiciário, fragiliza o Estado de Direito. É inadmissível que posturas aéticas e contradições morais de magistrados debilitem a credibilidade do Judiciário e de suas decisões. Sua razão de ser impõe inquestionável compromisso com a justiça, ou seja, o fazer justiça.

Há uma simbologia milenar, que consubstancia o exercício da magistratura. Procede da mitologia grega com a deusa Themis. É uma “divindade” por meio da qual a justiça seria definida, no sentido moral, como o sentimento da verdade, da equidade e da humanidade, colocado acima das paixões humanas. Por este motivo, sendo personificada pela deusa Themis, é representada de olhos vendados e com uma balança na mão. Ela é a “deusa da justiça”, da lei e da ordem, protetora dos oprimidos. Infere-se que a venda (faixa de pano que cobre os olhos) significa a irrestrita imparcialidade da Justiça, insusceptível de submissões de qualquer natureza. Esse é o caminho da equidade absoluta. Concepção milenar.

Não basta o Judiciário ser eficaz. O Executivo no Brasil foi contaminado por surtos de autoritarismo, principalmente o “Estado Novo” (Getúlio, 1937/45) e o regime militar (1964/85). Afonso Arinos identificava nessas fases autoritárias o germe de uma contracultura política que denominou de “presidencialismo imperial”.  Enquanto o Legislativo, erodido por uma mixórdia de sistema partidário e eleitoral, anacrônico, viciado, corrupto, obsoleto, iníquo e ultrapassado (sistema proporcional), incompatível com os objetivos da representação popular e os princípios da alternância de poder numa democracia moderna, perde, sem limites, representatividade e legitimidade. Não há democracia sem parlamento livre, soberano e independente. Os que compõem o Congresso Nacional, principalmente a Câmara dos Deputados, por seu “gigantismo”, transformada em esdrúxulo “bazar persa”, sabem que a saída é uma urgente e inadiável reforma política. Mas a maioria sabe também que soluções como o voto distrital, cláusula de barreira, proibição de coligações e ampla fidelidade partidária varreriam das casas legislativas, no mínimo, a metade dos atuais parlamentares. Tentam conciliar o inconciliável. Há teias de monumentais organizações criminosas, que reúnem empresas brasileiras. 

Algo monstruoso, como se o Estado Brasileiro fosse seu refém, abdicando de sua soberania. Criou-se um “leviatã” que, de certo modo, pretende dominar indefinidamente nossas instituições. Esses são os corruptores mais agressivos e predadores em nossa História. As reformas política e tributária são vias da modernização do Estado e da renovação ética, moral, cultural e espiritual do país. A recessão, o desemprego, a violência, a criminalidade, a miséria, as injustiças, a corrupção, a cultura do ódio e da intolerância, a violência nos campos e nas cidades, o tráfico de drogas e a impunidade enfeixam a crise. Urge enfrentá-la e erradicá-la. Senão... 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.
Augusto Tavares de Lyra
Atualizado: 16:05:43 07/05/2022
Anderson Tavares de Lyra
[ IHGRN]

Augusto Tavares de Lyra nasceu na povoação da Macaíba, na noite de Natal de 1872, filho do coronel Feliciano Pereira de Lyra Tavares, comerciante e político, e de Maria Rosalina de Albuquerque Vasconcelos. Casou-se em Natal, no dia 21 de janeiro de 1902, com Sophia Eugênia de Albuquerque Maranhão, filha do senador Pedro Velho e de Petronila Pedroza.

Tavares de Lyra fez seus estudos em Macaíba, Natal e terminou-os em Recife, onde bacharelou-se em ciências jurídicas e sociais, em dezembro de 1892. Após sua formatura, abriu escritório em Natal, na Rua 13 de Maio (hoje, Rua Princesa Isabel) e foi redator do jornal A República, onde assinava a coluna ”Em vários tons”, onde defendia a reforma educacional e a formação do professor. Iniciou sua vida pública como deputado estadual, aos 22 anos, não tomando posse pelo fato de ter sido eleito, também, deputado federal pelo RN, de 1894 a 1904, destacando-se como líder da sua bancada.

Eleito governador do seu Estado, em 1904, aos 32 anos, criou o Banco do Natal, posteriormente denominado BANDERN, e construiu a primeira sede própria para a Assembleia Legislativa do Estado e o prédio da sede própria do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Renunciou ao governo do Estado em 1906, por insistência de Pedro Velho, para assumir a pasta do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, na presidência de Afonso Pena, permanecendo nesse ministério até 1909. De 1910 a 1914, foi senador pelo Rio Grande do Norte, sendo líder do governo Hermes da Fonseca. A 15 de novembro de 1914, assumiu o Ministério da Viação e Obras Públicas, e seria o titular da pasta até o fim do mandato de Wenceslau Brás. Foi, ainda nesse período, ministro interino da Fazenda em duas ocasiões.

Foi nomeado ministro, depois presidente do Tribunal de Contas da União, tomando posse a 30 de novembro de 1918. Foi relator da primeira prestação de contas de um presidente da República. Através desse ministério, aposentou-se em 1940. Como intelectual produziu incansavelmente. Sua bibliografia alcança cerca de 70 volumes, hoje, muitas raridades, destacando-se a primeira História do Rio Grande do Norte, de 1921, que no ano passado completou o centenário de seu lançamento.

Em 1952, teve seu nome inscrito no livro do Mérito Nacional pelos relevantes serviços prestados à nação brasileira. Na ocasião do recebimento do diploma, no Palácio do Catete, o presidente Getúlio Vargas afirmou: “o ministro Tavares de Lyra é uma relíquia da Pátria!”.

Por fim, no dia 22 de dezembro de 1958, no Rio de Janeiro, instalado em um apartamento alugado e repousando em uma cama obtida por empréstimo, o macaibense Augusto Tavares de Lyra fechava os olhos ao tempo e os abria para a eternidade, deixando o legado imperecível de um nome limpo e honrado, uma vida que no dizer do escritor Luís da Câmara Cascudo foi “uma linha reta, limpa e clara”.

No museu do Instituto, está um retrato do ministro Tavares de Lyra.

Este artigo faz parte da série “Nossas velhas figuras” do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), coordenada por Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro, alusiva às comemorações dos 120 anos da mais antiga instituição cultural potiguar, fundada em 29.03.1902.

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Admiração e desamor
Atualizado: 16:01:51 07/05/2022
Diogenes da Cunha Lima 
 [ Escritor, advogado e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras (anL) ] 

De todos, o acontecimento mais admirável é a vida. Somos habitantes da galáxia. Bilhões e bilhões de corpos inanimados e nós seres vivos. E, ainda mais, pensantes. Por essa razão, admiramos a natureza que Deus nos deu. 

Observando bem, tudo é admirável: os animais e as plantas terrestres e aquáticas; as montanhas, as depressões, os vales, o vento, as nuvens, a cor do céu com os seus habitantes, os pássaros, e a visão das estrelas. Tudo é milagre porque não se pode descobrir a perfeita razão de ser. 

As qualidades que mais enobrecem o homem, o amor e a amizade, exigem a admiração do parceiro. O filósofo pré-renascentista Giovanni Pico della Mirandola recomenda voltar-se para o bem. O amor impede o instinto animal, é a perfeição humana. 

Admirar, do latim Ad mirare, é ver mais longe, significa olhar com encanto, o que leva o ser humano a respeitar, estimar e mesmo simpatizar com o outro. 

A admiração estimula e até torna-se causa da criação da arte, da ciência, da tecnologia, ainda que seja verdade que a admiração exacerbadapode causar inveja e desamor, assim como a admiração excessiva dá corpo à bajulação.

A floração não seria o comportamento das plantas também para serem admiradas? Os intelectuais não trabalham também para serem admirados? Atentemos que o plágio é inveja causada pela admiração. 

O cantador paraibano Manoel Xudu ficou feliz por ter sido convidado por uma senhora para cantar em sua fazenda, no nosso Seridó. Ao chegar, encontrou a mulher, seu marido e mais três pessoas. Perguntou: “Cadê o povo? Cantador quer ser querido por todos e precisa saber de temas admiráveis”. Ela respondeu que o marido havia feito um açude admirável. Por fim,queixou-se de uma dor de cabeça que voltava de meia em meia hora. Xudu seentristeceu, mas cantou porque precisava ganhar a viagem. Finaliza dizendo: “me admira é o pica-pau/ o mês de ouro de Angico/ tem hora que é taco taco/ tem hora que é tico tico/ nem sente dor de cabeça/ nem quebra a ponta do bico”. 

O desamor é sempre omissivo, desafeição, indiferença. A raiva é um desamor doentio e o ódio é um desamor enlouquecido. Ambos são limitações da perfeição humana.

Desamor é desconhecer. Quem admira procura conhecer mais profundamente o objeto amado. Reconhecer a beleza, certamente, eleva o espírito. Quem perde a capacidade de admirar perde o presente e o futuro. 

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O visionário Juvenal Lamartine
Atualizado: 15:23:09 30/04/2022
Pedro Simões
IHGRN

Juvenal Lamartine de Faria nasceu em Serra Negra [do Norte], no dia 9 de agosto de 1874, filho de Clementino Monteiro de Faria e de dona Paulina Umbelina dos Passos Monteiro.

Formou-se na Faculdade de Direito do Recife, em 1897, aluno laureado de sua turma. Lamartine contribuiu com o projeto do primeiro Código Civil brasileiro, elaborado pelo seu professor, Clóvis Bevilacqua.

Lamartine foi juiz de direito de Acari, deixando, posteriormente, a carreira para se dedicar à vida política, filiando-se ao Partido Republicano, fundado por Pedro Velho. Há diversas passagens suas como deputado federal. Além disso, foi senador e governador do Estado do Rio Grande do Norte, jornalista, escritor e agricultor.

Fundador do Aeroclube do Rio Grande do Norte, em 1928, e de mais 20 pistas de pouso no Estado. Reformulou o setor agrário potiguar, contribuindo para a melhoria da situação econômica do Estado.

Trabalhou com Bertha Lutz em prol do voto feminino, conseguindo que o então governador, José Augusto Bezerra de Medeiros, concedesse, pela Lei Estadual nº 660, de 25 de outubro de 1927, o direito das mulheres para votar e serem votadas, tornando o Rio Grande do Norte o primeiro lugar na América Latina onde as mulheres poderiam votar. Além disso, Lamartine e Lutz colaboraram com candidaturas de diversas mulheres a cargos na política local, como a de Alzira Soriano, primeira prefeita eleita no Brasil.

Seu trabalho em prol dos direitos eleitorais às mulheres foi motivo de chacota e crítica por todo o Brasil. Charges o colocavam como mulherengo e promíscuo, além de exprimirem preocupação que mulheres em cargos políticos cometessem assédio com seus funcionários, como seus “maridos levianos” realizavam com suas funcionárias.

Juvenal Lamartine foi sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN); imortal e presidente da Academia Norte-Riograndense de Letras (ANRL) de 1943 a 1949; presidente do Rotary Clube; vice-presidente da Liga de Ensino do Rio Grande do Norte; e presidente de honra da União Democrática Nacional (UDN).

Faleceu no dia 18 de abril de 1956, em sua residência, em Natal, na Rua Trairí, nº 586, aos 82 anos de idade. No museu do Instituto há um busto de Juvenal Lamartine para quem quiser ver.

Este artigo faz parte da série “Nossas velhas figuras” do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), coordenada por Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro, alusiva às comemorações dos 120 anos da mais antiga instituição cultural potiguar, fundada em 29.03.1902.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.
TRANSVERSAL
Atualizado: 15:22:22 30/04/2022
Dácio Galvão
Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e secretário de Cultura de Natal

O aporte estético do arquiteto, escultor e ex-aluno da Bauhaus, Max Bill (1908-1994) para a arte concreta como desdobramento da abstração artística modernista foi imenso. As intervenções na evolução da arte contemporânea no Brasil se materializaram. Pela exposição que fez no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – Masp, e quando da premiação da sua escultura Unidade Tripartida na Primeira Bienal de Arte Moderna de São Paulo. Ambas, no ano de 1951. 

Bill fora reitor da Hochschule für Gestaltung (Escola Superior da Forma) herdeira da Bauhaus (1919-1933: Weimar, Dessau, Berlin).  Seu poeta-secretário Eugen Gomringer autor de (“Constelações”), travou contato direto na Suíça com o escritor Décio Pignatari. Convergência de primeira ordem: a estrutura da poética de Mallarmé. Por extensão, estava selada a criação e a articulação do movimento internacional da poesia concreta. Não da arte! Os companheiros de luta, Augusto e Haroldo de Campos estavam igualmente dentro dessa perspectiva.

O crítico trotskista Mário Pedrosa no contexto das discussões de 1950, onde o debate da arte concretista estava no front, foi decisivo para fazer valer o novo, a ruptura. Promovia conferências, produzia ensaios e artigos estimulando absorções de demandas. Foi ele um dos primeiros a reconhecer “a máquina cinética” do natalense Abraham Palatnik. Na verdade, o Aparelho Cinecromático havia sido rejeitado pelo júri de seleção nacional da Primeira Bienal de São Paulo. Contrariando as expectativas mais tradicionais, o Aparelho Cinecromático faturaria o reconhecimento do júri internacional. Foi considerado “uma importante manifestação de arte moderna” como registrou o crítico paraibano Antonio Bento de Araújo Lima - que viveu infância e adolescência no Engenho Bom Jardim, no município de Goianinha, RN- em artigo publicado no Diário Carioca. Do alto da sua inconteste autoridade Mário Pedrosa reverberava: “Abraham Palatnik, representará no grande certame internacional a ponta extrema do movimento moderno. Ele faz parte da vanguarda dos pioneiros da luz direta, como meio plástico de expressão”.

Na entrevista concedida originalmente a revista ‘Diálogo’, 1957, publicada no Manifesto da Poesia Concreta, Haroldo de Campos revela o interesse de Augusto de Campos, em 1955, em interligar possibilidades de experimentos cromáticos de seus poemas às experiências cinéticas de Palatnik. No poema, Lygia Fingers, de 1953, já considerava a possibilidade de utilizar luminosos ou ‘filmletras’. Nesse sentido chegou a escrever carta para Palatnik. Estava projetando seu livro ‘poetamenos’.

Parte da história evolutiva das artes é possível acontecer numa urdidura de acontecimentos não programados. Sem a alquimia dos algoritmos. Mas parecendo até. E as Bienais? Na primeira tivemos as presenças de Volpi, Burle Max, Portinari, Di Cavalcanti, Fernand Léger, Flávio de Carvalho, Krajcberg, Iberê Camargo, Ivan Serpa, Le Corbusier, Picasso, Poty Lazzarotto, René Magritte, Waldemar Cordeiro.... Outros tempos. Outras palavras.

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A destruição de Mozart
Atualizado: 15:21:35 30/04/2022
Cláudio Emerenciano 
Professor da UFRN

A madrugada avança. Um manto de friagem cobre a cidade. Enquanto a chuva alterna uma densidade forte, impetuosa, molhando intensamente telhados e as ruas, ou simulando parar com pingos renitentes e constantes. A cidade dorme. No aconchego dos lares os sonhos poderiam ser comparados a pontos de luz. Tudo se passa na consciência e nos corações dos homens. Atos de doação, entrega, disponibilidade e de autêntica irmandade. Enquanto solidária partilha de sofrimentos enfeixa a cena predominante nos hospitais. Mães estreitam pela primeira vez, com ternura indescritível e indisfarçável emoção, os filhos que acabaram de nascer. Todos, no regaço de suas mães, vivem instantes em que a luz e as vibrações da vida os surpreendem: contrastes com o ventre materno. Cada um tem direito ao amor. Todos são, infinitamente, fruto do amor de Deus. Desfrutando amor humano, poderão testemunhá-lo por toda a vida. Como revelar e praticar o amor se não o conhecerem? Sem o vivenciarem?   

Naquela madrugada o curso da vida exibe contrapontos, contradições e enigmas. Há os que repetem, em casebres ou em casas de todos os tipos, em apartamentos, nas favelas, juras de amor tão puras e tão belas quanto às de Romeu e Julieta. Pois a densidade do amor é eterna. Após tantos séculos, os sentimentos são os mesmos em substância, natureza e sentido. Nada mudou. São universais e intemporais.

Prometem, como Abelardo e Heloísa, que o ato de amor jamais será esquecido ou perdido. É infinito pelos laços ali nascidos, extravasados e consagrados. Outros, sem consciência de sua amplitude, nem de sua dimensão espiritual, proclamam jamais se perder um ao outro.

Mesmo tendo de empreender jornada tão impensável quanto à de Dante: à procura de Beatriz na “Divina Comédia”. Há os que, indormidos, amargam o sentimento da perda de um ente familiar, querido e inesquecível. Ou um amigo, que sedimentou vínculos inesgotáveis.

Mas há também os que, pela reflexão, pela oração, pelo recolhimento espiritual, ascendem a outras dimensões. Realizam voos sobre o mundo. Procuram contemplar e entender as tragédias humanas. Imaginam-se acima das nuvens, muito além, questionando o sentido de tudo quanto revela a Criação. E, por mais que conheçam a realidade e seus absurdos, ou seja, o legado da insensatez, assumem o espanto e a perplexidade de um personagem de Voltaire, “Micrômegas”, um visitante interplanetário, aparvalhado ante o espetáculo de estupidez, violência, mesquinharia, mediocridade, injustiças, indignidade e hipocrisia dos homens. Eis um cenário que, infelizmente, em escala planetária, estimula a perda do discernimento, da crítica, da avaliação serena, impessoal, justa e objetiva. A “globalização” deflagrou um processo de egolatria, isto é, do culto individual a si mesmo. Há uma erosão da capacidade de indignação pessoal e coletiva. A maior dimensão do homem é espiritual e moral. Cada um assimila e exercita sua dignidade. O que não acontece atualmente. Sobretudo no Brasil. Adulteram a alma, a cultura, sentimentos e valores do povo. Há de se perguntar: - para onde vamos? Sectarismos estúpidos e boçais afrontam a alma do povo.

Wolfgang Amadeus Mozart foi um gênio. Aos quatro anos dava concertos e aos cinco compunha. É o símbolo universal das potencialidades humanas. Saint-Exupéry associou-o a uma flor incomparável: bem tratada, cultivada, ampliará seus atributos. Contrariamente, em geral, as nossas crianças são embrutecidas por uma sociedade materialista, insensível, ignorante e sem amor.  É a destruição de Mozart.

Crianças ucranianas, que se encontram refugiadas com suas famílias no interior da siderúrgica Azovstal, na cidade de Mariupol, revelam ao mundo, consternado e traumatizado, expressões arrebatadoras de sua pureza sem fim. Uma menina de sete anos, por exemplo, num caderno traça e pinta pássaros e animais domésticos. Um deles, um cavalo azul, que me fez remontar ao belo livro de Diógenes da Cunha Lima, em justa homenagem ao ilustre conterrâneo Dr. Djalma Marinho. Seu título: “O homem que pintava cavalos azuis”. Na página treze, Diógenes reporta a “História da Etúria” e à resposta de um artista para explicar suas pinturas: “Eu sou o homem que pinta cavalos azuis, como os vejo”. Enquanto o exército russo, implacavelmente, cerca a área, objetivando sua aniquilação, fuzileiros ucranianos resistem heroicamente. Reedição contemporânea dos “300 das Termópilas”. As crianças, promessas de novos gênios, parecem repetir o vate português dos tempos dos descobrimentos: “Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida, pois quando o homem sonha, o mundo pula e avança...”. Não se pode privar a humanidade de sonhar, desejar, aspirar e idealizar. Também não se pode imaginar o triunfo irreversível dos tiranos. Todos, ao longo da História, acabam mal. O Mahatma (Grande Alma) Gandhi foi taxativo e premonitório: “Quando me desespero lembro-me de que em toda a História a verdade e o amor sempre venceram. Houve tiranos e assassinos e, por um tempo, eles parecem invencíveis, mas, no final, sempre caem. Pense nisto. Sempre.”

Crianças que sofrem em todo o mundo. Vítimas de guerras, violências de todo gênero, injustiças, miséria. fome, abandono etc. Cinco milhões de ucranianos, em sua grande maioria mulheres e crianças, abandonaram seu país, completamente devastado por militares russos. Não há limites para as mentiras, o cinismo e as maldades de Vladimir Putin. Por inúmeras vezes, ele e seus prepostos na ONU, afirmaram que invasão militar da Ucrânia seria incogitável. Mas a verdade e o amor vencerão.  

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Hábitos e funções semidesaparecidas
Atualizado: 15:19:56 30/04/2022
Diogenes da Cunha Lima  
Escritor, advogado e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras (anL) 

As mulheres brasileiras costumavam cumprimentar com dois ou três beijinhos no rosto. Essa prova de afetividade natural surpreendia os estrangeiros que aqui chegavam. A pandemia fará desaparecer também a ternura? 

Herdamos dos tupis o hábito de tomar um ou vários banhos por dia. A globalização e a carência de tempo estão diminuindo a frequência dessa saudável higiene corporal. 

A Lei concede licença de paternidade, o que nos faz relembrar um ritual tupi: Logo depois de parir, a mulher ia trabalhar, enquanto o pai da criança, sentindo-se exausto, deitava-se na rede e recebia parentes e amigos. O filho era apenas semente do pai.

A tecnologia e as novas profissões aboliram antigas formas de estudar. A escola de datilografia de Dona Glorinha de Seu Heráclito conferia aos habilitados solenes diplomas. Havia forte demanda de um bom datilógrafo.

O leiteiro entregava as garrafas de porta em porta. Tive o privilégio de ser substituto de leiteiro, quando ele faltava ao serviço. 

Telegramas e telegrafistas perderam o prestígio. As cartas comunicavam emoções de literatura. 

Galena, ancestral improvisada do rádio, funcionava. As emissoras de rádio faziam programas de auditório, exibiam novelas e contratavam bons cantores. 

As missas eram celebradas em latim. Quase toda igreja tinha o seu sacristão. Alguns ganhavam, apenas, quando badalavam os sinos. Na Semana Santa, os sinos tenores calavam dando lugar ao baixo das matracas. 

Nas mãos dos doentes terminais colocavam-se velas acesas, que talvez evitassem o escuro da morte. Anoitecia na casa de Tambaú. O escritor apontou para a Estrela D’alva recitando: “Quando partir dessa vida / não precisa vela, não / pois esta estrela querida / é vela na minha mão. ” 

O calendário era diariamente consultado. Retirava-se uma folhinha com o nome do santo do dia.

 As lojas de tecidos tomavam conta do comércio, não faltava trabalho para as costureiras, até que surgiram as roupas feitas. 
No tempo da locomotiva maria-fumaça, havia a profissão de foguista, que punha lenha para alimentar o fogo e fazer fumaça. O chefe da estação mandava o guarda-trilhos conferir a limpeza da linha. O funcionário acionava o trolley com uma longa vara. 

As crianças produziam seus próprios brinquedos: bois de barro ou de cactos, bozós (dados) de batata, bolas de meia. Jogavam castanhas, com tila e castelo. Capa de carteira de cigarro era dinheiro, colecionado. 

A cultura era difundida em saraus, partilhando-se poemas e músicas. 

O Homem faz mudanças, adaptações. Criaram a teoria do retorno. Se voltarem funções e hábitos, voltarão repaginados. 

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Amar sem fim
Atualizado: 12:23:36 23/04/2022
Cláudio Emerenciano 
[ Professor da UFRN]

A humanidade vive momentos enigmáticos, incertos, duvidosos, trágicos e imprevisíveis. Pandemia, guerra, terrorismo atrocidades e até ameaças de uso das armas nucleares. Assim configuram horizontes sombrios. Súbita e inexplicavelmente, um manto de silêncio parece encobrir,  constranger, inibir, sufocar e garrotear qualquer louvação ao mais puro, legítimo, transcendental e inesgotável dos sentimentos humanos: o amor. 

A filosofia e a literatura, através de suas formas de expressão, em todos os tempos e estágios da civilização, elegeram o amor como a fonte, única e insuperável, da grandeza humana. Adversidades e contradições são fruto de sua antítese: o desamor. Michel Quoist (pensador cristão) disse que somente o exercício do amor, individual e coletivo, é capaz de elevar a humanidade à sua vocação e à plena consciência do sentido de sua razão de ser: partilhar com Deus as maravilhas da Criação. O homem, segundo outro grande pensador, teólogo, antropólogo, matemático, físico, geólogo, astrônomo e zoólogo, o padre Teilhard de Chardin, é a mais notável obra da Criação (em “O lugar do Homem no Universo”). Subsiste, então, a questão: - Qual homem? – O que mata? O que explora, violenta, destrói, rouba, agride, prostitui, corrompe, falseia, mente, profana, despreza, ludibria, odeia, inveja, trai e vinga? Os egoísmos, estimulados e decantados em escala universal, alicerçam a “civilização do consumo, do primado dos bens materiais, do ter sempre mais, do prazer por si mesmo”. Essa não é a ambiência do verdadeiro homem, feito à imagem e semelhança de Deus.  Seu Filho, Jesus Cristo, resgatou a condição humana: “deu a vida pelos irmãos”.
 
As pessoas, em todos os tempos, povos e culturas, realizam, pelo menos uma em suas vidas, uma espécie de voo (reflexão) na noite. Contemplam o mundo e a vida com o coração. Visão espiritual. Alçam-se às dimensões que ensejam identificar o essencial da vida. As ilusões se dissipam com a mesma rapidez das amarguras e dos desencantos. Os sonhos, as esperanças e os sentimentos guiam essa ascensão em cada homem. Estado de espírito fascinante e personalíssimo. Suas características são individuais, genuínas e particulares. Como se cada um possuísse, a seu modo, a pureza e os encantamentos da infância. Pois dentro de nós habita a verdade, que a perdemos ou a ignoramos quando nos submetemos ao jogo e às variáveis da malícia, dos egoísmos, das vaidades, da mentira, da covardia e do medo. Se as fragilidades e contradições de Pedro, o Grande Pescador, revelaram-se ao negar o Cristo três vezes, antes do galo cantar duas vezes, sua grandeza se projetou no infinito ao reconhecer seu opróbrio e, ao mesmo tempo, acreditar no poder ilimitado, infinito do amor e do perdão. Eis quando a fé exorciza todas as vulnerabilidades. 

Confere a cada um percepção da infinitude do tempo. Não importa o que é efêmero, fugaz e inconsistente. Porque a espiritualidade encaminha o homem a Deus. É a projeção na Luz e no infinito. 

O mal não tem substância. Seu conteúdo é falso e pérfido. Sua forma e seus objetivos se desfazem, desaparecem e se perdem na poeira do tempo. 

O mal é incompatível com a grandeza e a vocação do homem. Desde os tempos de Abelardo, Dante e Petrarca, quando a sabedoria popular confinou a maldade em si mesma: “o mal por si só se destrói”. Máxima atemporal. Essência de verdade. Assim foi, é e será...

O homem que ama parece assemelhar-se a um “cordeiro no meio de lobos”. O homem somente excede a si mesmo quando se despoja dos seus egoísmos. Pensa e age buscando a felicidade ao servir: “Eu não vim para ser servido, mas para servir”. O serviço é um caminho, um meio, um instrumento através do qual a civilização avança, inspirada e reanimada por ações individuais e coletivas. Não há anistia para o ódio, a violência, a injustiça, a desumanidade, a iniquidade e a infâmia como fins em si mesmos. Objetivos de execrável sistema político, social, econômico e cultural. Não há circunstância capaz de justificar ou legitimar a destruição dos verdadeiros valores humanos. Legados por todos os que, no passado, acreditaram no amor, e pelos que, no presente, praticam-no e o exercitam como forma de viver.

A vida não é estática, sempre igual, monótona e previsível. É incontrolavelmente dinâmica. Seu ritmo se confunde com a evolução universal. Eis a síntese do poema da Criação: amar infinitamente. Desabrochar e renovar, contínua e eternamente, o amor. É possível entender por que o Criador enviou seu Filho para testemunhar e revelar seu Amor: “Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (João 1, 2-3). Posteriormente, inúmeras e sucessivas vezes, Ele explicou o sentido espiritual e eterno da vida. E sintetizou sua missão: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. O homem neste século e milênio, atordoado e inseguro ante tantas contradições, perplexidades, angústias, maldades e decepções, somente dentro de si, mobilizando o Espírito de Deus nele mesmo, reencontra a face e a substância do verdadeiro amor. A fé e a consciência de que o amor de Deus liberta plenamente o homem, remindo-o das trevas, da ignorância e da degadação, para torná-lo usuário da Luz eterna.

Esse verdadeiro homem luta, padece, renuncia, cria, transpõe os desertos das falsas ilusões. Enfim, vence. Ascende ao seu lugar nos domínios infinitos do amor. A ascensão espiritual do homem gera implicações e desdobramentos culturais, políticos, éticos e morais. Também materiais, pois cada homem, criado à imagem e semelhança (espírito) de Deus, não pode ser despojado de sua dignidade. Em todos os aspectos. As vozes e o clamor dos deserdados no mundo, vítimas de guerras, misérias e injustiças, chegam ao Criador.  Portanto amar, amar sem fim: sentido universal da Criação.
Atual
Atualizado: 12:21:44 23/04/2022
Dácio Galvão
[Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e secretário de Cultura de Natal ]

A crise da expressão figurativa puxada pelo Cubismo - do século XIX para o XX - estendeu-se até a arte Concreta. No Brasil teve seus momentos áureos nas décadas de 1920 e 1950/60. Repercutiu fora do espectro plástico. Derramou-se na produção racionalista e experimental. Chegou na arte literária. Na prosa e poesia. Proesia.

Conteúdos foram confrontados e relacionados à modernidade. O arranque cubista trazia referências em Pablo Picasso (Les Demoiselles d'Avignon) e na tridimensionalidade escultural da matriz africana. Se somava George Braque (Maisons de L’ Estaque) e a pesquisa sobre espacialização plástica.
Mais. O Futurismo de Marinetti e dos pintores Umberto Boccione, Carlo Carrà e Luigi Russolo. Ambos a favor da “beleza da velocidade”. E da música futurista. 

O Suprematismo de Kasimir Malevitch, o Construtivismo de Vladimir Tatlin e o Não-Objetivismo de Alexander Ródchenko se espraiaram nas noções da pintura sem figuração. Da pintura fora do quadro! Era possível romper a lógica vigente e projetar uma diferente em objetos, contra-relevos... fosse em metal, vidro, madeira, plástico...

A importância da Bauhaus e da Escola Superior da Forma para o desencadear de movimentos de rupturas incluindo formação e a incorporação de novos procedimentos artísticos foi essencial.

Para Ferreira Gullar o impacto foi o propagar de certa influência em todos os campos da arte contemporânea ‘livre de alusão figurativa’. Chegando nos territórios da cartazística, tipografia, layout, design industrial, arquitetura, artes visuais, tecelagem, vitral, mobiliário, dança, marcenaria etc. Foi dentro dessa perspectiva pedagógica e libertária que Eliezer Lissítzky expoente da então vanguarda russa de 1922, criador do trabalho ‘História de dois quadrados’ encontrou guarida. O húngaro artista-professor László Moholy-Nagy multiplicou sua arte fundante dentro das demandas curriculares bauhasianas e assim fez repercutir o inventivo ‘dois quadrados’ imensamente. 

O Neoplasticismo de Piet Mondrian nesse limiar contribuiu e passou a ser divulgado na Holanda pelo grupo De Stijl (O Estilo). Composto por Van der Leck, Georges Watongerloo e Theo Doesburg que introduziu o dadaismo nos Países Baixos.

O reflexo no Brasil foi total. Pelo prisma modernista e contemporâneo artistas e intelectuais romperam o tradicionalismo conservador e se sobrecarregaram da dinâmica em curso. Especialmente os Andrades (Mário, Oswald, Drummond), João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Anita Malfati, Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Candido Portinari... Na arte concreta  o protagonismo acontece através de Waldemar Cordeiro, Geraldo de Barros, Luís Sacilotto membros do Grupo Ruptura. Adicione-se o trabalho produtivo de Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos.

 O construtivista Grupo Frente formado por artistas plásticos (Ivan Serpa, Aluísio Carvão, o potiguar Abraham Palatnik, Lygia Pape, Franz Weissman...) a arte neoconcreta e o poema-processo finalizaram um ciclo. Espiral cíclica que já no século XXI exige indagações do processo evolutivo. Quais acréscimos se somam na pós-modernidade? Obviamente não nos referimos aos suportes digitais de há muito incorporados como tais. A indagação diz respeito a circularidade estética que ancoramos. Afinal acréscimo histórico nunca foi fácil em nenhuma área do conhecimento humano.