O professor José Augusto Delgado
Atualizado: 14:28:11 11/09/2021
Na semana que findou tive a notícia do falecimento do eternizado Ministro do Superior Tribunal de Justiça, meu mestre dos bancos do Curso de Direito da UFRN, José Augusto Delgado. Não sei se possuo estatura para lhe prestar homenagem que valha, mas é exatamente isso o que tento fazer agora, através das linhas que ora escrevo com alguma dificuldade emocional e uma muito maior: a de trazer elementos sobre os saberes e a história do homenageado no campo jurídico. Portanto, já peço aos que se dispuserem a caminhar comigo nas alamedas do Campus da UFRN (do final dos anos 80 ao início dos 90), que a leitura do presente texto seja complacente com certas ignorâncias que revelo no caminho do resgate muito mais afetivo do que intelectual das passagens que tive com o grande sábio que partiu.

O Professor José Augusto Delgado sempre mereceu esse título com maiúsculas. Nunca tive dúvidas. Nunca. Desde o momento em que o vi ingressando na sala F1 (não sei como me lembro disso e posso até ser corrigido por ex-colegas) e percebi naquele senhor de paletó e gravata, nariz aquilino, com aspecto e convicções conservadoras, a expressão de genialidade que sempre lhe foi marcante. 

Algumas das lembranças que dele possuo, indeléveis, trazem-me de volta instantes felizes vividos nas salas de aula, em que pude vê-lo e ouvi-lo em inesquecíveis lições de Direito e de vida. Nutro a perene certeza de que, além da fala leve, mas realçada quando queria destacar aspectos relevantes do conhecimento jurídico, a sua dedicação e extrema vocação para as tarefas às quais se propunha era algo de saltar aos olhos e atiçar a inteligência. Aliás, ele gostava de uma frase, sempre repetida que terminava com “...fricção de cérebros, de inteligências”.

O que se pode dizer, quanto ao quesito “dedicação” sobre alguém que colocava no quadro da sala todos os seus números de telefone, deixando ao critério dos seus alunos o horário das ligações para extinguirem dúvidas sobre Direito Processual Civil/Teoria Geral do Processo (e um famoso questionário de cem perguntas, que queria ver respondido por todos) a qualquer momento da manhã, da tarde, da noite e...da madrugada?!

Parecia uma excentricidade, mas era fato que estudava os processos e os livros jurídicos até altas horas da madrugada, o que certamente lhe custava receber muitos trotes de estudantes – digamos – animados em festas de finais de semana. Eu nem queria reconhecer isso, não sei se algum dos filhos ou demais parentes (destaco o querido magistrado Magnus Delgado) ficará chateado comigo, mas fui um dos atrevidos estudantes que ligaram para conferir se o Doutor Delgado estava mesmo acordado e lendo. Incrivelmente, às duas da manhã de um sábado, ao telefone muito gentilmente atendido, passei uns quinze minutos ouvindo o mestre discorrer sobre “princípios do Processo Civil”.

Muito tempo depois, tive a honra e a nobre condição de ser seu confrade na Academia Norte-rio-grandense de Letras, presidida pelo seu amigo-irmão Diógenes da Cunha Lima (também meu professor de Direito, na UFRN). Em poucas, mas muito frutíferas conversas, o mestre nos ajudou a encontrar a solução para um entrave na redação do vigente estatuto da Academia. Uma glória pessoal para mim foi ter composto aquela mesa. Ainda tenho vontade de ligar para o Professor Delgado e lhe perguntar sobre Direito e sobre o grande processo da vida, essa que ele conheceu ainda melhor e mais profundamente.







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Fé e esperanças renovadas
Atualizado: 14:27:18 11/09/2021
A esperança no ser humano. A renovação sem fim do sentido da vida. O enigma da busca e da fruição da infinita dimensão do amor. O “pobrezinho” de Assis testemunhou o amor do Cristo por todas as criaturas. Detectou, essencialmente, no ato de amar sem retribuição, na opção para doar sem submetê-la à vontade de usufruir, na felicidade de partilhar, dar, dividir e transferir, libertando-a dos condicionamentos em receber, na imolação, dando a própria vida pelos outros, como extensão do amor de Deus pelos homens. Somente o amor exorciza o ódio, o medo, a injustiça, a violência, a impiedade, os egoísmos, a intolerância e as vaidades, que brutalizam a condição humana. Desfiguram-na subvertendo sua substância. Giovanni Papini, escritor e pensador cristão, exortava os homens a desfrutar dos caminhos que ascendem a Deus pelo amor e pela paz. O acesso à Luz. Busca interminável do gênero humano. O espetáculo, universal e magnificente, também no dizer do grande Teilhard de Chardin, sacerdote, pensador e cientista, “da missa sobre o mundo, em que o Cristo Cósmico acolhe os filhos de Deus de todas as moradas”.  Mas, infelizmente – advertia Papini - os homens também estariam sujeitos aos domínios da maldade e da bestialidade ao renegar, violentar ou ignorar sua própria dignidade, que fermenta sua grandeza. O desafio de sempre. A verdade é o que faz do homem um verdadeiro homem. Indestrutível, imbatível por sua espiritualidade, que lhe descortina a ascensão sem fim. Percurso de todos os homens. Não importam as circunstâncias nem, sobretudo e principalmente, as adversidades. Enfrentando-as e superando-as, a humanidade retoma seu curso natural: ascender a Deus. Buscar, incessantemente, a Luz. Sempre...

 O tema, no âmbito literário, revela, sem disfarces, a influência dos tempos natalinos na obra de Charles Dickens. A epifania do Senhor e o usufruto do amor de Deus. Oferta de paz infinita para todos os homens. A permanência e atualização das percepções de Dickens, que adquiriram uma dimensão transcendental, convertendo seus leitores em cultores da solidariedade. Eis um dos maiores contadores de estórias em todos os tempos. Sem abstrair, em sua vasta obra, outras características e peculiaridades. Como o estilo, marcantemente pessoal, imergindo em pessoas e contingências, possibilitando harmonia da leveza de descrições com uma multiplicidade de sentimentos, ações e sensações. Sua tendência para configurar painéis de episódios conturbados e marcantes, incertos, controversos e imprevisíveis. A antevisão de novos tempos, que desabrochavam ao seu redor. É o caso de "Um conto de duas cidades", em que Paris e Londres se alternam em plena Revolução Francesa. Ou, ainda, esse magnífico e fantástico mosaico de caracteres humanos, emoldurando os tempos vitorianos em “Oliver Twist”, "Grandes Esperanças" e “Contos do Natal”. Dele deveríamos dizer como Tolstoi, ao considerar seus personagens e enredos como "expressão nítida da humanidade". Ninguém se esquece das "Aventuras de Mr. Pickwick”, ainda hoje inspirando gerações em todo o mundo. Os tempos atuais estão carentes, ou órfãos, de escritores como Dickens, Monteiro Lobato, Lewis Carroll, irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, James Matthew Barrie, Mark Twain, Saint-Exupéry, Maurice Druon, Jonathan Swift, Robert Louis Stevenson e tantos outros... 

Por que falar em Charles Dickens? Porque a paz e a solidariedade se associam à sua obra, são intrínsecas ao seu estilo e à sua visão de mundo. Influência universal, que irmana povos e culturas. Até o avarento, que pontifica uma de suas estórias natalinas, não consegue conter, ao final, a fermentação e a explosão de esperanças em seu coração. Geralmente os sentimentos e as emoções triunfam, fustigando fantasmas do egoísmo, da ambição, das vaidades, da indiferença, da mesquinharia, de mentira, medo e arbítrio. Não é incomum ver inconformados, invejosos e odientos bestiais contagiarem multidões e até nações. Foi o caso de Hitler. Cuja maldade, loucura, ódio, intolerância e autoritarismo desenfreados sobrepairam, ainda hoje, como um “anjo maligno” em parte da América Latina. Indisfarçavelmente sequioso para dar o bote final no poder e destruir a democracia.   A Paz, legado do Salvador, por Ele testemunhada como Artífice e Príncipe da Paz, é o valor universal da vida. A paz nutre a esperança. Reanima-a nas consciências e nos corações de todos os homens. Foi também percepção de Confúcio, que viveu no século VI antes de Cristo. Não há questões, desafios e buscas que se excluam do seu alcance. Impõe-se sedimentá-la no viver de cada homem, harmonizando-o consigo memo. Elo sem fim com Deus.

Os acontecimentos da conjuntura política no mundo suscitam um clamor, um grito, um brado pela paz. Paz em cada ser. Paz em cada nação. Paz em todos os povos. O nosso tempo, que se entrechoca com surpreendentes transformações, reivindica a seiva da esperança. Clama por esperança a fim de que os homens possam trilhar seus verdadeiros caminhos e alcançar a plenitude de sua vocação. Sempre com paz. Somente o amor, que é o coroamento da condição humana, sua maior expressão, pode sedimentar, sem recuos, essa paz. Realizar a convergência da humanidade com o Criador. O Advento do Senhor plantou no espírito, na consciência e no coração dos homens as sementes das "Grandes Esperanças". Esperanças eternas. As vítimas da violência, em todos os lugares e culturas do mundo, sabem o peso, o sentido e a dimensão da paz. São elas os “pacíficos do Senhor”. A Paz, que é interior, individual e coletiva, gera a consciência da verdade. A democracia é o caminho de progressão para a liberdade. Essa via se chama paz social. Paz e liberdade são intrínsecas, portanto, à democracia. Estas reflexões, no Brasil, ainda podem concretizar-se nos homens de fé. Sem ódio e e sem medo. Ainda bem...






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Dionísia Gonçalves Pinto nasceu no Sítio Floresta, arredores de Papari, Rio Grande do Norte, em 1810, e seria escritora e educadora. Dionísia Gonçalves Pinto é Nísia Floresta Brasileira Augusta, como se tornou e ficou plenamente conhecida.

Quem explica cada um dos nomes é Cascudo: Nísia é final de Dionísia; Floresta, vem do sítio onde nasceu; Brasileira é da sua nação; e Augusta do seu saudoso e amantíssimo marido Manuel Augusto de Faria Rocha. O segundo. Pois, primeiro, fora casada com o pernambucano Manuel Alexandre Seabra de Melo.

 Nísia andou por Recife, Porto Alegre, onde ficou viúva, e Rio de Janeiro, onde educava as moças no Colégio Augusto.  Em 1849, fez a primeira viagem à Europa. Lá, conviveu com Auguste Comte e Alexandre Herculano, entre outras figuras do seu tempo. Esteve na Alemanha, Itália, Grécia e França. Escreveu e publicou livros em francês e italiano, vindo a morrer em Rouen, na França, em 1885, quando já era célebre. Hoje, o município onde nasceu, chama-se Nísia Floresta em sua homenagem. Lá repousam os seus restos mortais.

A efígie de Nísia Floresta, desenho de Corbiniano da Silva Villaça (1873-1967) e obra do escultor francês Edmond Badoche, é parte do acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. A peça pertencia a um monumento na Praça Augusto Severo em homenagem à escritora. Quem conta é Lauro Pinto em Natal que eu vi.

Registra Lauro Pinto: “a efígie em bronze da consagrada escritora Nísia Floresta foi colocada em uma alameda do logradouro que foi o majestoso jardim da Praça Augusto Severo, no dia 19 de março de 1911. A efígie era cravada em uma linda coluna de granito”. Segundo o memorialista, foi posteriormente removido e ninguém soube mais até que foi parar no acervo do instituto, onde hoje se encontra para quem quiser ver.

Corbiniano Villaça é também o autor do desenho do brasão de armas do Rio Grande do Norte, e destacou-se como um dos aclamados barítonos do seu tempo. Morou em Paris, França, onde aperfeiçoou seu talento e frequentemente andava em turnês pelo Brasil, em óperas nos melhores teatros, incluindo o Carlos Gomes (atual Alberto Maranhão), e logo caiu nas graças do governador Alberto Maranhão, sendo convidado para reuniões e jantares do governo do Estado.

 Alberto Maranhão encomendou a Villaça, além do brasão de armas estadual e da efígie de Nísia Floresta, a estátua de Augusto Severo e o busto de Pedro Velho. O executor de todas essas obras foi Edmond Badoche, amigo e parceiro de Villaça.






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JOSÉ
Atualizado: 14:24:18 11/09/2021
José Augusto Delgado é, na expressão de minha filha Cristine, uma dessas raras pessoas que não precisam estar presentes para ser presente. É natural, pois, que ele continua entre nós.

O nome é o destino. José significa “aquele que acrescenta”. Augusto é o que é elevado, eminente. Delgado quer dizer leve, sutil, de fino trato.
Foi uma amizade que durou a vida inteira. Fomos colegas da “Turma da Paz” da Faculdade de Direito na Ribeira.

Sabíamos ser irmãos-amigos. Desde meninos, com os nossos pais, vendíamos tecidos, chapéus e sombrinhas em Nova Cruz e Santo Antônio do Salto da Onça. Estudantes, moramos em pensões, amargando sopas e comidas requentadas. 

 Formados, logo montamos o nosso escritório de advocacia no Alecrim. Vivíamos preocupados em pagar o aluguel da minúscula sala. Fizemos o mesmo concurso para Juiz. Aprovados, ele foi nomeado para São Paulo do Potengi e eu, depois, para Jucurutu. Ele tinha (e eu não) vocação para a magistratura. Continuei advogado.

Fomos, também, contemporâneos como professores de Direito da UFRN.

As nossas famílias são como se fossem uma única. Ele e a maravilhosa Zezé são “tios” dos meus filhos. 

Na maternidade, ele tinha ido rezar quando a enfermeira veio apresentar seu primeiro filho. Eu vi o menino e pedi a Deus que o abençoasse. Deus tem sido generoso em dar qualidades à criança, hoje um senhor juiz. Anos depois, o casal ganhou novos prêmios, Liane e Ângelo.

Insisti com Delgado para que escrevesse a sua autobiografia. Cansei de esperar, e fiz a sua biografia sob o título JOSÉ, publicada pela Thesaurus Editora de Brasília. O livro é dedicado aos muitos Josés que engrandecem o nosso País.

José foi homem de belo passado. Dou testemunho: para mim ele representou fidelidade, constância, afeto. 

José Augusto Delgado teve mais que ciência, a consciência do direito. Exerceu cidadania exemplar, como cultor e ensinante. Transmitiu a cidadania como conferencista, jurista, múltiplo doutrinador.

Foi sempre reconhecido como bom juiz. O Tribunal de Justiça do RN outorgou-lhe o título de “Desembargador Honorário”. Na última homenagem prestada, o Tribunal Regional Federal declarou-o: “exemplo modelar de juiz”. O Superior Tribunal de Justiça e o Superior Tribunal Eleitoral utilizam suas decisões criadoras de jurisprudência.

Aposentado, voltamos, como advogados, a fazer parcerias, mas a parceria maior foi com Ângelo, seu filho, em Brasília.
Considero que o passado de pessoas boas é um dos bens da coletividade, como o do jurista potiguar José, um Homem. 






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A esperança não morre
Atualizado: 15:49:38 04/09/2021
Cláudio Emerenciano
[Professor da UFRN]

As folhas da memória não são folhas mortas, que o vento leva e desfaz. As ações humanas são folhas vivas, incorporando, uma nas outras, o renovado sentido da vida. Eis um processo interminável e fantástico, que irrompeu desde a madrugada dos tempos, quando a claridade devassou as trevas. Eliminando-as com a fulgurância da luz e revelando a vida indefinidamente. O sopro de Deus, o “FIAT” (“Faça-se a luz”), habita a infinitude universal. Os homens são parte especial da Criação. A “terra dos homens” é indivisível. Foi destinada a ser morada de amor, paz, partilha, comunhão, inserção, interação e convergência. A natureza suscita sensações, emoções, sonhos, buscas e laços. Mas a percepção e a sensibilidade dos homens parecem oscilar, submetendo-se às mutações que o clima também lhes impõe. Será? Mesmo assim, há algo enigmático, imprevisível e inovador nas ações dos homens. É como se tudo na vida surpreendesse. Assim Gilbert Keith Chesterton e George Simenon, em seus contos de mistério policial, conferiram aos seus personagens o caráter de imprevisibilidade.

 As belezas do homem e do mundo, o conteúdo e as formas de vida se completam e se harmonizam. Fazem parte da Criação e se equilibram. Explicitam maravilhas em ilimitada expansão. Mas são indissociáveis. Os campos, os vales, as planícies, os desertos e seus desafios, as florestas, as montanhas, os mares e suas praias, os rios, as geleiras eternas, as terras esturricadas do semiárido, que se cobrem de verde às primeiras chuvas, enfim, o ornamento natural com o qual Deus revestiu a Terra, tudo reclama do homem inserção nesse universo de movimento e interdependência. Esse é o sentido imutável das coisas que nos cercam. As ações humanas são desdobramentos de uma caminhada ao longo dos tempos: a civilização. Suas origens, sua construção e seus fins. Ainda que traduzam avanços e retrocessos. Pois o “pecado” de Adão se manifesta em cada momento da História. É a soberba. Infelizmente! Nenhuma beleza, fruto da criatividade humana, pode exaurir, sobrepujar, emular ou comparar-se com a infinitude do belo na obra divina. Eis por que Jesus, que falava também por parábolas, certa vez disse que as vestes de Salomão, em toda sua magnificência e beleza, em todo seu esplendor, abrangência e suntuosidade, não se comparavam ao encanto, ao fascínio e à formosura dos lírios dos campos. Há algo no homem que o motiva a superar e vencer as mais incríveis e inimagináveis adversidades: a esperança. Jean Valjean, inimitável personagem de Victor Hugo em “Os miseráveis”, tudo sofreu, tudo suportou, como Jó nos tempos bíblicos, porque alimentou por toda a vida a esperança na condição humana. Quaisquer que fossem as irrupções de injustiça, ódio, desumanidade e inclemência que o infelicitavam. Seu estoicismo é comovente. No “Diário de Anne Frank”, um dos mais dramáticos relatos de resistência à bestialidade do nazismo, emerge uma dolorosa e vivificante mensagem de fé e esperança no bem e na humanidade. Apesar de tudo...   

Uma das absurdas contradições da condição humana reside em tentar assemelhar sua existência com a eternidade. Paradoxo e contradição que Miguel de Unamuno intitulava de pecado da avareza. De natureza social, cultural, psicológica e política. Pois os homens, particularmente governantes e lideranças em todos os setores de atividade humana, tendem a confundir, deliberadamente ou não, fins com os meios. Ou muito pior: justificar uns pelos outros. É a renúncia da ética e do humanismo. Postura em que se abdica de reconhecer cada ser humano como detentor da prerrogativa infinita de filho de Deus. Bertrand Russel deplorava o egoísmo e a indiferença que deserdam pessoas da alegria de viver: “É urgente que cada homem subsista integralmente, dispondo dos meios de sempre crescer. Esse é o verdadeiro rumo da civilização”. Somente se conhece a verdadeira densidade da vida através dos laços que dignificam os homens. Todos os homens são responsáveis uns pelos outros.  Não importam diferenças científicas e tecnológicas. É destinação da “aldeia global”.      

 A humanidade não subsiste sem amor. Sua perda, ou renúncia, subverte o sentido de sua existência. Desfigura-a e a condena à bestialidade. O amor à terra comum é uma extensão dos sentimentos que congregam e harmonizam os que nela habitam. Os maus jamais entenderão o peso e o sentido desses vínculos. Pois o bem é partilha, solidariedade, usufruto comum, convergência e paz. A personalidade, os valores e os caracteres de uma nação se afirmam ao longo do tempo. Emergem de sua História. Eis por que o futuro é, essencialmente, desdobramento do passado e do presente. Renan proclamou que a nação é um estado espiritual. Transcende às coisas efêmeras. É uma entidade atemporal, que toca a alma e o coração dos homens. Sempre...

O ódio e as ambições cegam. Subvertem o sentido da vida humana. Eis, infelizmente, uma marca e um estigma das conjunturas internacional e nacional. Que atingem a vida de cada nação e aviltam seus valores culturais, éticos e morais. É a marcha crescente da insensatez. Paulo de Tarso, o apóstolo dos gentios, em “Carta aos Colossenses” (3,9), fez uma exortação, que infunde esperança nos homens: “Não mintais uns aos outros. Já vos despojastes do homem velho e da sua maneira de agir e vos revestistes do homem novo, que se renova segundo a imagem do seu Criador, em ordem ao conhecimento”. Porque é o espírito que conduz o mundo. Pelo passo seguinte de cada homem. E Morris West, no epílogo de “As sandálias do Pescador” (1963), conclamou a humanidade a erradicar, definitivamente, fome, injustiças, guerras,  violências e tiranias. Enfim, prosseguir em sua destinação. Ascendendo. Sem cessar...

Setembro em que vivemos
Atualizado: 15:48:37 04/09/2021
Lívio Oliveira
[Advogado público e escritor ]

É setembro. Claro que já nos demos conta disso. Ficou pra trás o mês de agosto e os seus estigmas. Às vezes acho até que agosto é injustiçado...logo o mês em que nasci?! Sinceramente, agosto apronta mesmo. E muito. Faz das suas e todos terminam lembrando, apontando o dedo acusador, impondo a esse marcado e massacrado conjunto de dias as culpas e os descréditos pelos outros onze meses, todos se utilizando do coitado, bode expiatório do ano. Parece até que os outros são uns meses comportadinhos, bonzinhos e puros demais e que todo dia é dia santo, com exceção dos que se encontram no intervalo entre julho e setembro: os poucos dias de agosto a provocarem todos os reveses. E não é assim. Não é de jeito nenhum.

De qualquer sorte (eu falei: sorte!), deixemos esse último e recente agosto em paz e no passado. Outros agostos virão. Agora é pensar em viver o setembro em que estamos e vivemos com a marca da esperança. Marca e não máscara! Claro que você ouviu (ou leu) bem. Não me valem as máscaras, tão comuns nos dias atuais, em que sentimentos e personagens fakes desafiam nossa dura (ou mole, como as areias movediças), difusa, fraturada e caótica realidade.

Volta-me à lembrança uma máxima engraçada de um senhor que armava um varal no meu apartamento: “– Homem, a vida só é dura pra quem é mole!”. Engraçada? A frase pode até soar assim. E pode até mesmo ser um pouco vulgar. Tem lá as suas verdades. É porque às vezes não aceitamos a vida com as suas imperfeições, suas inexoráveis impurezas. E não nos damos conta de que a sua beleza também depende dessa oscilação entre a cor e a escuridão, entre silêncios e barulhos, entre o frio e sol dos trópicos, entre a queda urdida ou desastrada e os passos de dança de uma bailarina altiva e sedutora. Ou seja: a vida não é boa e nem ruim. Ela é outra coisa. E tem momentos bons e momentos ruins. A vida é mesmo assim.

Fazer o quê? Só repetir que já estamos em setembro e que agosto passou? Ora, se agosto e setembro se revezam a cada dia e num dia só já temos os dois a brincarem e a brigarem?! Essencial é nos darmos conta de que a cada instante fugidio dessa existência de derrotas e de glórias, de fracassos e de prêmios, há sempre a possibilidade da criação e da recriação, da mais do que palpável sublimação do tempo e do espaço pela poesia, porque sem ela não há mesmo quem se salve.

Não descreio da sapiência científica e da medicina, das regras naturais ou artificiais da justiça dos homens, das religiões que buscam apontar aos povos o alento e a luz no final do túnel escuro (mesmo que aquelas provoquem, eventualmente, guerras e tenebrosa destruição). Não. Eu prefiro é me manter um forte aliado do aprendizado e da poesia, algo que vibra melhor no meu espírito e me preenche com ondas internas, projetando-me ao movimento e à boa luta, até mesmo porque sei que, diante da vida e do tempo, as palavras ou imagens ou sons poéticos nada excluem e é a própria vida que flui.

 O tempo escorre sem medo no seio da poesia. Enquanto sobrar uma centelha de vida valerá a crença na poesia. E a ela cabe emprestar a fé, dedicar o trabalho e o espírito. Ela revela o que é para ver de perto: a fantasia que dá concretude ao sonho e materializa a imaginação e a criatividade, transgride e transcende. É a poesia que transmuda cores, causa novos sons, imita pássaros e ventos, cura a cegueira dos dias loucos, produz espantos necessários.

Gustavo Sobral
André Felipe Pignataro

[Sócios do IHGRN ]

Manoel Varella do Nascimento (1803-1881) e Bernarda Dantas da Silveira (1821-1890) nasceram e morreram em Ceará-Mirim, Rio Grande do Norte. Manuel foi barão e Bernarda, baronesa por tabela, por graça de D. Pedro II, em 1874, e ao custo de 103$, pagos pelo título, 100$ à Alfândega e 3$ à Secretaria da Presidência Provincial, e o compromisso de construir uma escola cujas obras terminaram em 1878. Hoje, é escola estadual com o nome do seu benfeitor. No título concedido pelo imperador, ficou a escola como a razão da concessão: “pelos relevantes serviços prestados à instrução pública da província”.

Manoel Varella começou pequeno plantador e seus filhos também se tornaram senhores de engenho. Foi o primeiro, segundo Cascudo, a utilizar em Ceará-Mirim o cilindro horizontal, que trouxe do Recife, e a plantar a cana caiana. Sua fortuna aparece no inventário calculada em 717:748$370 (setecentos e dezessete contos, setecentos e quarenta e outo mil, trezentos e setenta réis), isso tudo não só em dinheiro, mas na forma de terras, fazendas, cavalos, gado, benfeitorias, escravos etc.

O barão era leitor dos jornais e andava, conta Nilo Pereira, em seu cavalo bem ajaezado, estribos de prata, para cima e para baixo pelo canavial. Também ia a cidade e costumava visitar amigos e correligionários. Quando ele vinha, diziam:  – “Lá vem o barão”! E todo mundo tirava o chapéu à sua passagem.

Há dois retratos a óleo pintados por João Bindseil, em 1866: um retrata o barão; e o outro, a baronesa. O barão apresenta-o no fardão completo. Fardão que ele ostentava em solenidades, festas da matriz e cerimônias militares. Lá está ele, do jeito que Cascudo o descreveu: alto, seco, narigudo. Não difere da descrição de Nilo Pereira: magro, feio, longilíneo, nariz adunco.

O barão era do partido Conservador e chegou a deputado provincial (1868-1869); na carreira militar, foi de alferes (1828) a tenente-coronel da Guarda Nacional (1862), daí a origem do fardamento.

Morto o barão, a farda ficou guardada, conta Pereira, numa velha mala, até que foi doada ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Afirma Pereira: “lá [no Instituto] estava ela, bem arrumada, como se fossem os ossos do barão”.  Hoje, restam as dragonas que estão em exposição, assim como o pente (marrafa) da baronesa.

O repente na Academia
Atualizado: 15:46:47 04/09/2021
Diogenes da Cunha Lima 
[ Escritor, advogado e presidente da ANL ]

A nossa Academia Norte-rio-grandense de Letras eleva os valores da cultura e é aberta às manifestações populares. O programa “Academia para Jovens” recebe alunos e professores para aprimorar o sentimento da importância da cultura transmitida pela educação. O improviso e o repente dos cantadores não lhe são ausentes.

A prodigiosa memória do professor Lúcio Teixeira surpreendeu o inesperado. Estavam dois cantadores na casa do fundador da Academia, Luís da Câmara Cascudo, quando um besouro cascudo pousa no ombro do Mestre. Foi o bastante para um cantador versejar: “Estou vendo dois cascudos/Um do outro é diferente/Um não tem raciocínio/O outro é inteligente/No mato cascudo é bicho/Na praça Cascudo é gente”.

Em cerimônia acadêmica, falava um companheiro não da simpatia do poeta Luiz Rabelo, um mestre da arte do improviso. O orador falava baixo e com alguma impropriedade de linguagem. O cachorro da zeladora começa a latir. Logo, Rabelo descreveu a sessão magna; “O acadêmico falava/Mas o cachorro latia/Era bem grande a arrelia/Nada o auditório escutava. /Assim se desenrolava a sessão na Academia/Afinal ninguém sabia (era impressão que deixava) /Se o cachorro discursava/Se o acadêmico latia”.

O desafio do violeiro começa normalmente com um autolouvor exagerado de um cantador para intimidar o parceiro.

Certa vez, convidei dois cantadores para uma apresentação na Academia. Sugeri o tema: A chegada do cantador no céu. O potiguar-paraibano Antônio Sobrinho discorreu sobre as suas vantagens na visita celestial, havia recebido o aplauso dos santos. O poeta pernambucano contestou. Disse que, no “céu”, o companheiro foi recebido por um anjo de rabo e chifre, que soltava fogo pelas ventas. Teria sido mergulhado em enxofre fervente. Por sorte, consegui decorar a resposta: “Viajei num transporte igual ao vento/E fui conhecer o céu empíreo/Nas mãos eu levei a flor do lírio/E nos braços levei meu instrumento/Ao chegar no céu nesse momento/Me senti o poeta mais feliz/Jesus me escutando pedindo bis/E eu repeti a mesma cena/Namorei com Maria Madalena/Não casei lá no céu/Porque não quis”. A plateia, emocionada, aplaudiu.

O acadêmico Veríssimo de Melo deixou copioso legado de suas pesquisas folclóricas. Deu especial relevo à atualidade da poética popular. Entre tantos estudos, revelou a cantoria feita para a visita do Papa João Paulo II a Natal, a morte de Tancredo Neves, registrou a exposição de cordel no Museu Britânico. Muitos desafios surpreendentes. Vamos prestar-lhe a devida homenagem nos cem anos do seu nascimento. Estamos convidando dois cantadores para, em sessão aberta e com transmissão pela internet, louvarem a sua vida limpa e sua obra semeadora.

A Academia trabalha com a colaboração do tempo, promovendo ensaios, valorizando experiências intelectuais, como orienta o seu lema, buscando a luz dos astros na sabedoria popular.

Franklin Jorge e a luta pela palavra
Atualizado: 19:36:30 28/08/2021
Lívio Oliveira
[Advogado público e escritor ]

Acredito que o título deste texto possa traduzir de forma fidedigna – quero me permitir essa afirmação – o que representa o polivalente escritor Franklin Jorge para o cenário literário potiguar: um lutador bravo e incansável, um navegador de mares indômitos, um desbravador de fronteiras, um criador de caminhos novos e perenes. E essa mínima homenagem que ora faço à figura maiúscula é por ser eu uma das testemunhas de parte importante da sua relevante trajetória, que se perfez e se perfaz em prol do direito de escrever e de dizer, por batalhas sagradas para que a palavra seja cultivada com esmero e estilo – essas as condições das quais nunca se afastou e sempre exigiu de forma crítica e aguda, por vezes também até ácida e belicosa, mas sempre com a crença meticulosa e honesta no que afirma e escreve.

Franklin, todos sabem, é um minucioso e exigente estilista do texto, que desenha as palavras diante dos nossos olhos atentos e embevecidos como um artista nipônico escreveria letras ancestrais, numa caligrafia exata e indelével. Ler um texto de Franklin Jorge nos faz perceber os cuidados do ourives e do artista fiel à palavra. Isso significa, em síntese, receber uma aula de estilo e de saberes múltiplos e refinados.

Sei de muitas personalidades, não somente do mundo literário e artístico potiguar, mas brasileiro – alguns vivos e outros já saudosos – que dariam testemunhos muito mais aquilatados do que o meu, este, que é mera tentativa de dizer algo sobre esse personagem por mim inalcançável. Um deles, certamente, seria Américo de Oliveira Costa, que tenho a certeza visualizada de ter apreciado forte e detidamente as obras literárias do nosso homenageado. E nomes nacionais são inúmeros. A lista não caberia aqui, mas relembro somente um: Jorge Amado, para ficar num exemplo translúcido e direto.

Permito-me – mas ciente da ousadia e da insuficiência das minhas linhas para descrever o que pretendo descrever, enaltecer o que quero enaltecer – dizer que Franklin chegará aos 70 anos em setembro, com orgulho e encontrando ânimo para prosseguir nessa luta (muitas vezes ingrata, mas sempre valorosa). A admiração é toda nossa. Por essa razão mesma, o meu atrevimento não chegará ao ponto de comentar a obra do meu homenageado, que hoje acompanho mais de perto através das diárias e sempre atualizadas postagens no multicolorido e dinâmico site Navegos (www.navegos.com.br).

Por evidente, Franklin não está inserido somente no cenário artístico da Literatura. Culto e perspicaz que é, tem contribuições importantíssimas noutras áreas da Cultura e da Arte (coloco essas palavras em maiúsculas por motivos menos próximos dos gramaticais e mais perto do que se firma como mérito, merecimento). Destaco que Franklin é um sensível e talentoso crítico de artes visuais/plásticas, e passeia das análises acerca da boa arte naïf até as obras mais eruditas, com a mesma facilidade e mestria.

Não cansarei mais o leitor de Franklin Jorge com as minhas limitadas condições para compor um quadro que lhe destine o belo perfil intelectual que possui. Somente peço aos que amam a palavra bem realizada: continuem a ler tudo o que Franklin Jorge escrever e disser. Possuo a certeza de que teremos muitas e boas novidades nas páginas com que esse mestre e artista do texto nos brindará nos novos, criativos e intensos tempos que estão por vir.

No caminho de Emaús
Atualizado: 19:35:06 28/08/2021
Cláudio Emerenciano
[ Professor da UFRN]

A humanidade se estiola em todas as partes do mundo. Pandemia da COVID-19, terror e horrores em todos os continentes: fome, violências de toda natureza,  desespero, insegurança, poluição, devastação de florestas cataclismas ambientais, desemprego em massa. O que falta? As atrocidades no Afeganistão são mais um passo na escalada da insensatez. Restam-me as reflexões a seguir.

 A fé é o caminho, o elo, o âmbito da convivência do homem com Deus. Eis por que não consigo ver, assimilar, avaliar e dimensionar o mundo, as coisas e a vida, senão através da fé. No meu caso, a fé cristã. O episódio de Emaús (Lucas 24), quando o Cristo ressuscitado se encontra com dois discípulos, entre os quais Cleopas (estudos recentes o identificam como tio afim de Jesus), revela o peso da dúvida e da perplexidade na condição humana. Algo legítimo, inerente e natural. Mas confirma que o Cristo está sempre disponível em guiar aqueles que O procuram e O amam. Nunca os abandona. A luz da espiritualidade é eterna. É o sopro do Espírito renovando o homem. Sem cessar. A fé alarga, sedimenta e amplia a paz e a serenidade no homem. Não se confunda fé com idolatria, histerismo e fanatismo. A verdadeira fé é fundamentalmente paz, serenidade, caridade e amor. Harmonia e amor vinculam o homem a Deus.  

Enrique Pérez Escrich, em seu esquecido “O Mártir do Gólgota”, Mika Waltari, em “O segredo do Reino”, Daniel-Rops em “Jesus no seu tempo” e “A vida cotidiana da Palestina no tempo de Jesus”, reconstituíram esplendorosamente todas as circunstâncias e acontecimentos à época de Jesus. Pérez Escrich descreveu minuciosamente a aurora no dia da Ressurreição. Um sopro de vento frio, mas suportável, envolvia Jerusalém (primavera). A claridade que assomou à cidade era diferente. Enigmática. Os pássaros, em bandos variados e numerosos, gorjeavam em toda região desde momentos em que o manto escuro da noite se desvaneceu no horizonte. A população despertou mais cedo do que o comum. Era o primeiro dia útil da semana (calendário hebraico). Os homens de boa fé foram dominados por um sentimento de circunspecção e esperança. Inexplicável e arrebatador. Muitos choravam e riam ao mesmo tempo sem saber por quê. As estradas de Emaús e de Betânia, nas quais a circulação de pessoas e animais era intensa, desde as primeiras claridades do dia, estavam quase desertas. O silêncio cedia lugar à sinfonia pastoral das aves do céu. Ambiência na qual Jesus apareceu a Maria Madalena e aos discípulos de Emaús.          

O verdadeiro sentido das coisas e da vida emerge de Deus. Os homens simples, bondosos, caridosos, humildes, despojados das vaidades do mundo, identificam com lucidez a essência da condição humana. Sua humildade é a fonte de sua sabedoria. O dom que lhes permite descortinar as maravilhas da Criação: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mateus 5,3). As civilizações possuem um espírito, uma alma, uma vocação. Seus valores alicerçam uma percepção e uma maneira peculiar de amar ou destruir a vida. Não se pode captar o verdadeiro sentido da vida sem amá-la. A consciência de que o universo é Criação de Deus, fruto do ato divino de amar. Implica em absorver o liame entre o Criador e a criatura: a paz.

  Um dos maiores desafios da humanidade reside em sua vontade para alcançar, ou não, a plenitude da paz. O padre Teilhard de Chardin, em livro admirável e premonitório, “O futuro do homem”, disse que a paz é o contexto indispensável à construção e à concretização da civilização do amor. Paz interior, que o homem novo (São Paulo), liberto pelo Cristo, deve partilhar e desfrutar com seus semelhantes. Paz pessoal e social, condição que resgata todos os homens pelo primado da justiça: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo” (João 14, 27).

Vive-se planetariamente uma crise. Os egoísmos, as vaidades, as ambições, a estupidez, o consumismo, as injustiças, o cinismo, as violências e a hipocrisia minam e debilitam as perspectivas de elevação espiritual da humanidade. O mundo cristão, pouco a pouco, sob impacto e influência da globalização, parece ver fragilizar a consciência do seu dever e de sua missão para consumar a verdadeira paz. União eterna com o Pai: “Glória a Deus nas alturas e Paz na Terra aos homens por Ele amados”. São Paulo, pouco antes de ser decapitado, acorrentado na prisão “Marmetina”, em Roma, exortou assim os cristãos de todos os tempos: “Graça, piedade e paz para vocês. A palavra de Deus jamais calará. Não há nada que o amor não possa enfrentar; não há limite para a sua fé, para a sua esperança ou resistência. O amor nunca chega ao fim”. E São Pedro, preso e crucificado logo depois, sem rever o apóstolo dos gentios, legou sua última conclamação: “Vocês são o povo escolhido, uma nação dedicada a proclamar os triunfos Dele, que os tirou da escuridão e os trouxe para a sua maravilhosa luz. Cristo sofreu em nome de vocês e com isso deixou-lhes um exemplo para vocês seguirem seus passos. A herança que carregamos nunca poderá ser destruída. Pois Jesus disse: “Amem uns aos outros, como Eu vos amei”. Não há amor maior, nem melhor, que esse em que um homem abre mão da própria vida pelos amigos, a quem chamou de irmãos. Por fim, Ele disse também: “Você não me escolheu. Eu o escolhi para seguir e colher o fruto, que vai durar para sempre”. Paz! A todos vocês que pertencem ao Cristo”. O cristianismo liberta o homem. Exorciza tudo quanto realimenta incertezas. Revela e concretiza, disse São Francisco de Assis, a dimensão do amor.  

Não há civilização sem crenças, valores, cultura, ética e moral. A fé cristã não limita ninguém. Emancipa, amplifica e projeta no infinito a vida dos homens. Jesus, Ele próprio, definiu-se como “o Caminho, a Verdade e a Vida”. No Brasil há desafiadora erosão ética e moral. O Direito se fragiliza. Instituições desmoronam. Mas a fé faz renascer esperança e serenidade. Aprimora a construção do bem. Eis a Luz!