Meros palpites
Atualizado: 07:12:27 13/11/2021
Valério Mesquita
Escritor

O mundo virou bando de interesses guardados por polícia. E com ele a lei, os direitos individuais, o patrimônio público e até o crime, vez por outra. Os códigos instituídos pelos homens e os mandamentos de Deus são quebrados todos os dias, minuto a minuto. O facínora, o bandido dos crimes hediondos, têm como defesa “os direitos humanos”, as ONGs e até ministério. Há mais direitos para eles do que para os cidadãos e cidadãs comuns. O sistema prisional e as penas aplicadas são uma lástima e não corrigem e nem despencam as estatísticas criminais. Antes, são estimulantes para novas práticas e revoltas.

Bem, e daí? Aonde quero chegar? Bom, o assunto é tão emblemático que nem sei se chegarei à sua conclusão. Por isso, intitulei o texto de “meros palpites”, abordagem ligeira e descomprometida, tudo à luz da experiência de vida, debruçado à janela, lendo jornais e vendo a máquina mortífera chamada televisão. Começo perguntando: o estado brasileiro está falido no enfrentamento dos desafios sociais, virais, principalmente a saúde e a segurança? Não. Não está. O problema é de gerência, de competência. O regime democrático é lento e o organismo corroído de chagas é de caríssima manutenção. Anotem: na crise econômica que se avizinha o nosso país pifará. Essa ordem (ou desordem?) econômica explodirá, pois a impunidade que campeia já acendeu o estopim, baldados os esforços do Ministério Público e da Polícia Federal. O abuso de concessão de liminares aí está para confirmar. Os tribunais de contas votam criteriosamente intervenções municipais em prefeituras corruptas, mas os governos estaduais não executam as decisões por conveniência política. Nos hospitais públicos a pobreza morre à mingua, abandonada com dores físicas e morais insuportáveis porque o deficitário sistema único de saúde não dá votos e sim o “bolsa família” e a dinheirama drenada e desviada das “emendas parlamentares” e outros privilégios.

Semana passada, uma senhora que reside num condomínio se lastimava com piedade de um marginal, detido por populares em flagrante. Levou uma merecida sova. Aliás, a única punição que receberá realmente. “Minha senhora”, disse-lhe, “deixe o povo aprender a punir, porque a dor física é a única que mete medo”. Aí me lembrei que foi a dor do corpo (para mostrar a única fragilidade veraz do ser humano) aquela escolhida pelo filho de Deus – Jesus – para redimir os pecados do mundo. Esbofeteado, cravado de espinhos, cuspido, furado com pregos os pés e as mãos, e crucificado. E Pilatos, simbolizando “liminarmente” a justiça romana e judia de Caifás, lavou as mãos “diante do sangue desse inocente”. Jesus deixou-se condenar porque assim estava escrito e predestinado. Mas os homicidas diabólicos do mundanismo de hoje, verdadeiros animais e os ladrões de colarinho branco são tratados com pachorra e facúndia, com homenagens de praxe e de apreço frutos de uma legislação fáctil, fóssil, fútil e fácil. E assim, já dizia o comerciante assuense Luis Rosas, que desfrutou de grande riqueza e, depois tendo perdido tudo, foi surpreendido por amigos vendendo avoetes na feira das Rocas, em Natal: “Amigos, não se preocupem, tudo é comércio!”.


Um ramalhete em homenagem a Augusto Severo
Atualizado: 18:36:22 12/11/2021
Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro
[SócioS do IHGRN ]

Atirado do ar sobre a estátua de Augusto Severo, na praça de mesmo nome, Ribeira, em Natal, pelo dirigível Graff Zeppelin que sobrevoou a cidade em 28 de maio de 1930, o que restou do ramalhete de flores está no museu do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte para quem quiser ver.  Uma doação de Álvaro Rocha.

Paulo Pinheiro Viveiros, em História da aviação no Rio Grande do Norte, escreveu: “Eram 13 horas e 56 minutos do dia 28 de maio de 1930, quando de Natal se avistou a nave, voando muito longe. Ao alcançar a cidade, um Laté 25 acompanhou-a durante as manobras que aqui efetuou; rumando ao lado Norte da capital potiguar, o balão descreveu um círculo e permaneceu por doze minutos em evoluções; baixou sobre a estátua de Augusto Severo e deixou cair um ramalhete de flores naturais com a seguinte inscrição: ‘Homenagem da Alemanha ao Brasil, na pessoa do seu filho Augusto Severo’. O troféu caiu no jardim da residência da sra. Inez Barreto, hoje Colégio Salesiano, perto da estátua e foi apanhado pelo jovem Luciano Barreto, sobrinho segundo de Severo; sua genitora levou-o à estátua”.

É sabido que o dirigível sobrevoou por duas vezes a Praça Augusto Severo. Uma em 1930; outra, em 1933. Na primeira passagem, jogou coroas de flores e, na segunda, o tal ramalhete de flores. Ambos em homenagem a Severo.

Augusto Severo nasceu em Macaíba, Rio Grande do Norte, em 1864 e era irmão de Pedro Velho, o pai da República no Estado. Escreveu para A República, jornal do qual foi gerente. Fazia as contas das despesas de papel e tinta e era responsável por pagar os empregados, que recebiam aos sábados. Em 1890, aparece professor do Atheneu em Natal. Não passou dois anos, saiu deputado estadual. Não passou mais um ano, e foi deputado federal no Rio de Janeiro. Nesse meio tempo, inventou o Potiguarânia, um balão dirigível, prenúncio do que seria a sua próxima invenção: o balão Pax. 

Em 1902, já na Europa, Augusto Severo sobrevoou com o Pax os céus de Paris, mas um grave acidente vitimou-o, a ele e ao mecânico Sachet. Comoção geral e o Instituto presta condolências à família, considerando o seu ato heroico um progresso para a ciência.



Antes que os sinos dobrem
Atualizado: 18:30:35 12/11/2021
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

O sentimento da perda é transbordante, incontornável e amargo. Assume pleno domínio do estado de espírito. Misturam-se, então, saudade, lembranças e tristezas. O amigo – dizia o saudoso amigo Mário Porto – é um irmão por opção. Perdi um irmão em Luiz Eduardo Caneiro Costa. Suas qualidades e atributos como homem público são de amplo conhecimento em nosso Estado. Mas quero prantear, sobretudo, sua dimensão humana e cristã. Conheci-o menino no Colégio Marista. Nossa convivência atravessou tempos, circunstâncias e etapas em nossas vidas, sempre enriquecidas por seu testemunho de solidariedade, lealdade e intransigente defesa do bem e da verdade. Sentimentos partilhados pela legião de seus amigos e admiradores. Dedico a ele o texto a seguir, concebido antes do seu falecimento.     

As faces dos homens e os sentimentos que expõem o interior de cada um. O indivíduo diante deste mundo muitas vezes inexplicável. Nebuloso em face dos problemas que subvertem o sentido da vida. Que ignoram a magnitude e o peso da paz. Paz interior. Paz de uns com os outros. Paz que é justiça, compreensão, convergência, respeito e verdade. Paz incompatível com a virulência em todas as suas formas. Paz  fonte inesgotável de grandeza e elevação da condição humana: “Eu vos deixo a Paz...”

A genialidade de “El Greco” retratou a multiplicidade dos rostos humanos. Todos os sentimentos se estampam em seus quadros. Especialmente em “O Espólio” (Martírio de Cristo) e no “Enterro do Conde de Orgaz”. A alegria, a tristeza, o desespero, a solércia, a mentira, a bondade, a traição, a cobiça, a simplicidade, a pureza, a sinceridade e o amor. O amor infinito de Jesus pelos homens, cercado por algozes.

Tudo na vida tem sentido. Mas a globalização não é natural e legítima. O que sempre existiu, desde a aurora dos tempos, foi a universalização dos valores humanos. O homem é o centro de todas as coisas. Sobrepõe-se às razões de Estado.

Há indagações que emergem do coração e da consciência de todos os homens. O estágio de desenvolvimento não condiciona ou compromete esses questionamentos. Legítimos da condição humana. Especialmente os que se referem à aspiração mais natural, fecunda, sempre renovada e nunca excluída dos sonhos de cada um: ser feliz. São Tomás de Aquino, gênio e amplo conhecedor da natureza humana, intérprete e voz dos caminhos eternos, dizia que a vocação do homem é ser feliz. Ou melhor, a felicidade humana é um imperativo de sua identidade com Deus. 

A complexidade da vida social ampliou as responsabilidades governamentais. Os governos passaram a influir e condicionar, em escala crescente, a vida das pessoas. Desse modo, não é leviano nem temerário afirmar que os homens, através do poder político, numa dimensão universal, tornaram estreito ou largo, penoso ou agradável, o cenário em que se manifestam seus mais puros atos e sentimentos: o amor, as alegrias, a paz de espírito e a paz social, realizações pessoais, desde o campo afetivo ao profissional, a solidariedade, a fraternidade, enfim, a busca da felicidade. Até o ódio, a inveja e as vaidades, antagonismos à ascensão espiritual de cada um, integram o cotidiano da sociedade. Ainda que expressem, também em suas outras faces, como as guerras, a violência de qualquer tipo, as arbitrariedades, as injustiças e as discriminações, a antítese do que se convencionou chamar de vida civilizada. Hoje ameaçada em escala planetária por fanatismo religioso e político.

Um dos maiores escritores do século XX, romancista, biógrafo e memorialista, André Maurois, analisou as circunstâncias em que seu país, a França, ruiu em 1940 ante o poder militar da Alemanha no livro “Tragédia na França”. Em sua percepção o sonho francês se exaurira. Ou seja, manifestara-se, no campo moral, político e espiritual, aquilo que Edward Gibbon tão bem descreveu em “Decadência do Império Romano”. Resumidamente, quando um povo deixa de sonhar, sucumbe à desilusão consigo mesmo e seu futuro. Ingressa num processo irreversível e trágico de ruína dos valores morais.  Após a queda do muro de Berlim, símbolo da implosão do mundo comunista, o professor Paul Kennedy, da Universidade de Harvard, em “Ascensão e queda das grandes potências”, além de analisar o tema ao longo da História, acolheu a advertência de André Maurois, universalizando-a. Vivemos um ciclo de decadência. É preciso revertê-lo. Antes dos sinos dobrarem pela civilização da paz.

Aldous Huxley, romancista, filósofo, ensaísta, dramaturgo e futurólogo, foi um dos gênios no século XX. Poucos desvendaram como ele a complexidade das tragédias humanas em seu tempo, projetando seus desdobramentos até nossos dias. Em “A geração perdida” e “Também o cisne morre” qualificou os estigmas das crises universais nas novas gerações: “A vida. Eis a grande coisa, a coisa essencial. Deve haver vida na arte, senão a arte nada vale. E a vida só sai da vida, dos sentimentos, dos sonhos...; não pode nascer de teorias, que desfiguram a essência da condição humana”.    

As democracias se deterioram, sempre e sempre, pela sucessão de capitulações dos seus sagrados e imutáveis princípios. As pessoas, cidadãos comuns, certamente ainda não revelam todas as variáveis de sentimentos e perplexidades dos personagens de El Greco. Mas, com certeza, buscam a paz de espírito, a justiça, o respeito à sua dignidade. Ainda cultivam sensibilidade para desfrutar da beleza dos lírios do campo. Porque, apesar de tudo, a esperança e o sonho revigoram o homem.  

 
Festa do livro em Portugal
Atualizado: 18:29:50 12/11/2021
Diogenes da Cunha Lima
Escritor, advogado e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL) 

O livro é celebrado por escritores europeus e do além-mar. O Folio - Festival Literário Internacional de Óbidos foi festejado durante dez dias do último mês de outubro.  
A vila de Óbidos, bem pertinho de Lisboa, com cerca de três mil habitantes, virou Cidade Literária, por decisão da Unesco, e passou a fazer parte da Rede das Cidades Criativas. A escalada, de certa forma, lembra a nossa Natal, que, com poucas casas, passou a ser cidade por ordem de rei, Felipe II de Espanha.

Óbidos, com exata preservação da urbe medieval, tem rico patrimônio material. Assim, são as ruas estreitas, as praças, os muros e o seu castelo, sede, hoje, de uma pousada admirada. A riqueza de sua história é dignificada. O meu amigo Marino Almeida diz que, antigamente, havia reis bons e maus. Os bons, como Dom Dinis, faziam muralhas para proteger toda a população. Casou-se aos 17 anos com a princesa aragonesa Isabel, com apenas 9 anos. Ela se transformou em mulher piedosa e cuidou da pobreza com carinho. À sua igreja acorrem muitos devotos para pagar promessas à rainha-santa.

O município abriga campos de golfe que atraem a presença de aficionados. A vila é realmente criativa. Realiza festivais variados, de chocolate a ópera. Recria feiras medievais com artesãos expondo seus produtos, encenando sabores e gostos da época e acontecimentos históricos.

O tema central deste Festival foi o reencontro com o “Outro”.

A vila chegou a albergar oito livrarias. No alto, uma capela foi transformada também em livraria, expondo uma seleção de livros que a enobrecem. Lá, ouvi a palestra de Mia Couto, o admirável escritor moçambicano. Diz-se que é necessário buscar perceber as luzes do outro para ser disponível ao outro.  O escritor é otimista. Entende que a infelicidade dá muito trabalho. Por isso, ele se sente feliz por preguiça.

Em dezesseis sessões, sobretudo, a velha guarda, os intelectuais convidados fizeram reflexão sobre a temática proposta. A espanhola Amalia Bautista expôs: “Nas nossas vidas, há sempre um outro, real lembrado, imaginado, desejado”.

Já a escritora Helena Ales Pereira apoiou o seu pensamento na afirmação de Marcel Proust: “Somente através da arte conseguimos sair de nós mesmos e conhecer a visão do outro”.
Sabemos que a música supera a linguagem da literatura na aproximação de pessoas e povos. Por essa razão, o Folio apresentou nove concertos. E ainda uma afinada banda composta pelos meninos locais.

Muitos escritores brasileiros foram convidados, alguns talentosos fizeram bonito. Por meu lado, chamado a falar sobre poesia, ponderei que: O poeta busca a palavra inaugural, o seu Fiat Lux, o poema. Convoquei repentistas nordestinos para recitar. Pinto do Monteiro e Antônio Sobrinho foram aplaudidos, como também os poetas improvisadores Renato Caldas e Luiz Rabelo.

O Folio não esqueceu os vanguardistas. Uma sessão chamou-se “Poesia Vadia”. 

O Livro continua em festa.


O Samba não vai morrer
Atualizado: 16:26:56 06/11/2021
Lívio Oliveira
[Advogado público e escritor]

NUM TÁXI, voltando da Lapa para Copacabana, indagamos ao taxista sobre a onda, verdadeiro tsunami, de música sertaneja nas cercanias da famosa e histórica área boêmia. Ele confirmou a invasão, mas acrescentou, para o abrandamento da nossa preocupação: "O Samba não vai morrer nunca!".

De qualquer forma, voltei pensativo, refletindo sobre essa e outras representações culturais duradouras no Brasil. À tarde, eu havia visitado o grande mausoléu da ABL no Cemitério São João Batista e visto, naquela concretude, o quanto a entidade mais importante das Letras nacionais se perenizou no inconsciente dos brasileiros. Foi quando ouvi no rádio do táxi a notícia sobre a eleição de Fernanda Montenegro para a Academia Brasileira de Letras. Fiquei ainda mais envolvido com os meus pensamentos sobre os fenômenos culturais no País.

Confesso que a frase do taxista sobre o Samba, assomada à notícia da vitória da grande atriz e intelectual brasileira, ambas encheram o meu peito de novas esperanças.

Diferentemente de algumas opiniões em contrário, considero o nome de Fernanda Montenegro absolutamente autêntico e merecedor de uma cadeira na ABL, destacadamente pela sua profunda associação à grande dramaturgia brasileira. Além, muito além dos poucos livros que escreveu, Fernanda usou a voz e o corpo na apresentação e representação dos maiores escritores e dramaturgos do Brasil e do mundo. É um colosso dessa nobre arte de dizer as melhores palavras, da melhor maneira. Não é uma mera figura pública com notabilidade. Desde sempre foi e continua a ser uma colossal artista da palavra, fazendo-se ela própria de livro a ser visto, ouvido e lido de diversas formas.

Ainda fiquei mais feliz, quando ouvi no noticiário da manhã do dia seguinte ao da eleição da imortal, que ela considerou essencial compor a importante entidade dos escritores por ser algo que dura e permanece sólido num país em que tudo muda de tempos em tempos. Defendeu a tradição, renovando-a e valorizando-a, mas de forma autêntica e legítima. Fernanda Montenegro, de certa forma,   mostrou-nos que o Samba e as nossas principais referências culturais e artísticas não morrerão nunca, porque baseadas em valores estéticos firmes e em elementos de autenticidade e legitimidade. Fora disso, a esperança não seria a mesma.

Além da percepção
Atualizado: 16:25:17 06/11/2021
Cláudio Emerenciano
[Professor da UFRN]

A realidade da vida insere o ser humano num universo de ideias, sonhos, sentimentos e percepções. A imaginação fecunda motivações susceptíveis de levar cada pessoa a ascender ou a declinar na essência de sua condição humana. Mas tudo isso se passa em sociedade. Somos, todos nós, interdependentes. Os homens são livres, altivos, dignos e agentes autônomos no percurso de sua existência. Mas podem ser convertidos em marionetes: instrumentos de um sistema político, econômico, social, que os domina e os desfigura. Essa é a síntese da mensagem de André Malraux em “A condição humana”. Mas em “Vozes do Silêncio”, seu legado sobre a evolução da arte, exalta e consagra a ilimitada, renovada e incontrolável capacidade do homem para criar e conceber, enfim, abrir caminhos e ampliar sua visão do mundo e da vida. A obra artística ou literária absorve seu criador. Domina-o integralmente. Confundem-se criador e criação. Michelangelo, extasiado ante uma de suas obras-primas, não se conteve, bateu-lhe com um martelo e disse: “Fala Moisés”. Os gênios buscam o ideal no imaginário. Superam-se para vislumbrar e alcançar o porvir.

Aldous Huxley, em um dos seus ensaios, disse que a imaginação amplia no escritor sua percepção, seu entendimento e suas potencialidades para desvendar, sem limites, o sentido das coisas. À utopia, ou projeção de uma sociedade ideal, inalcançável, chamou de fuga do real: método de aprovação ou condenação, mesmo com subterfúgios ou metáforas da realidade. Os críticos literários têm razão quando dizem que a ficção, invariavelmente, emerge da realidade. O autor impregna suas impressões, suas fugas e suas reações espirituais, psicológicas e afetivas de suas buscas, dúvidas e anseios mais íntimos. É quase impossível disfarçá-los. A criatividade é como a aurora, que se renova em cada amanhecer. Dissemina na “Terra dos homens” um estado de espírito, que oscila entre a alegria de viver e a esperança, a ternura e a paciência, a paz e a segurança, a tolerância e a solidariedade, o desprendimento e a bondade. Coisas a cultivar ou a esquecer. Porque os próprios homens sufocam ou erradicam esses atributos e essas possibilidades quando sucumbem à violência, à estupidez, ao ódio, à inveja, às ambições desenfreadas e à insensatez. Especialmente hoje em dia, neste mundo globalizado, no qual a televisão e as redes sociais difundem, sem qualquer compromisso ético e moral, tudo quanto avilta, perturba, violenta, aliena e degenera a condição humana. Valores e tradições são objeto progressivos de desafios e contestações como se não houvesse outra alternativa. A perplexidade, o desencanto, a insegurança e a egolatria isolam uns dos outros. Assiste-se a erosão vertiginosa de valores que sedimentaram civilizações. Irrompe em muitos pelo mundo afora aquela amargura que atormentou o nobre e culto Petrônio, nos tempos da devassidão de Nero no Império Romano. Edward Gibbon, no clássico “Ascensão e queda do Império Romano”, vaticinou que a humanidade enfrentaria sucessivas vezes ruínas semelhantes. Curiosamente, em 1990, o professor Paul Kennedy, da Universidade de Harvard, em “Ascensão e queda das grandes potências”, atualizou a premonição de Gibbon do século XVIII.  Erros, conflitos, intolerâncias, fanatismos, violências, misérias e desequilíbrio ambiental atestam a marcha da insensatez. A História não se repete, mas...        

Curiosamente, nesta madrugada em que reflito sobre estas coisas, recordo-me do impacto ao ler alguns livros na adolescência, entre os 10 e 14 anos, numa Natal bucólica, pacata, tranqüila (seria “modorrenta”?) e provinciana dos anos 50. Despertaram-me para dramas e questionamentos humanos. Um deles foi “Olhai os lírios do Campo” de Érico Veríssimo. Usando o método de “flashbacks”, Eugênio, seu principal personagem, reconstitui seu passado, dirigindo-se a um hospital onde Olívia, o grande amor de sua vida, está prestes a falecer. Outra ficção, que refletia a realidade da época, foi “Floradas na Serra”, de Dinah Silveira de Queiroz: o sofrimento físico e espiritual de tuberculosos num sanatório em Campos do Jordão, discriminados e segregados. Anos depois, reencontrei-me com esses temas ao ler essa obra-prima de Thomas Mann (filho de uma brasileira de Santa Catarina), que é “A montanha Mágica”, e “Monte Oriol” de Guy de Maupassant. O estigma e o preconceito com doenças e doentes, etnias e religiões, foram denunciados também por outros autores. De certo modo Joseph Conrad, no genial “Lord Jim”, ressaltou a hipocrisia e o indiferentismo de oficiais da Marinha Inglesa, no século XIX, com as condições de vida e a sobrevivência de orientais.   Outro livro que, muito cedo, conscientizou-me do absurdo e da estupidez da violência foi “Nada de novo no Front”, do alemão Erich Maria Remarque. Sua síntese: a inutilidade das guerras e dos conflitos em geral. A sensibilidade do personagem Paul Baumer e seus amigos, identificando a felonia dos que lucram com a guerra, com a violência e o ódio coletivos.

Sempre que os homens renunciam à lucidez e à serenidade, à justiça e à paz, catástrofes sociais convertem-nos em espécies de lobos. Assim se privam de assimilar o sentido da vida e da Criação. O medo das gazelas, ante os   chacais, torna-as maiores em si mesmas, pois saltam mais alto. Os homens também? Repito: há uma erosão moral no mundo. Porém mais abrangente e irrefreável no Brasil. Por quê? Tragicamente as instituições políticas são alcançadas, ampla e profundamente, por esse devastador “tsunami” ético-moral. A fragilidade institucional é latente e irresponsavelmente ignorada. Instalaram-se no poder loucura e histeria, indisfarçáveis, cujos danos são indesculpavelmente atenuados ou ignorados. Até quando?

O bilhete de Lampião a Rodolpho Fernandes
Atualizado: 16:24:28 06/11/2021
Honório de Medeiros
[Sócio do IHGRN ]

No dia 13 de junho de 1927, na metade da manhã, estando nos arredores de Mossoró preparando-se para invadi-la, Lampião mandou um primeiro ultimato exigindo dinheiro ao prefeito Rodolpho Fernandes, por intermédio de Luiz de Siqueira, o “Formiga”, em bilhete escrito pelo coronel Antônio Gurgel.

Rodolpho Fernandes respondeu a Antônio Gurgel pelo próprio punho, dizendo não ser possível satisfazer-lhe com a remessa da importância pedida e lhe informando que “estamos dispostos a recebê-los (aos cangaceiros) na altura em que eles desejarem”.

Desaparecido há muitos anos, recentemente esse bilhete foi localizado e devolvido a Mossoró, em evento solene.

Houve um segundo ultimato, este escrito pelo próprio Lampião e encaminhado ao prefeito, a ele levado por “Formiga”, provável espião do bando em Mossoró, que também foi respondido por Rodolpho Fernandes praticamente nos mesmos termos do primeiro.

Esse segundo ultimato, provavelmente o mais importante documento da história do cangaço, foi doado ao Instituto Histórico do Rio Grande do Norte (IHGRN) pela família de Rodolpho Fernandes, como assevera seu filho Raul Fernandes em livro (A Marcha de Lampião) – um clássico da literatura acerca do assunto, com sucessivas edições:

“Capitão Virgolino Ferreira (Lampião). Cel. Rodolpho. Estando eu ate aqui (ilegível). Já foi um aviso, ahi para o Senhoris, si por acauzo resolver, mi, a mandar será a importância que aqui nos pede, Eu evito de Entrada ahi porém não vindo esta importança eu entrarei, até ahi penço que adeus querer, eu entro; e vai haver muito estrago por si vir o dr. eu não entro, ahi mas nos resposte logo. Capm Lampião”.

Na 2ª edição do livro (Natal, UFRN, Editora Universitária, 1981), à página 157, uma imagem fiel do bilhete de Lampião recebeu, abaixo, a seguinte observação, em itálico: “Bilhete de Lampião ao Prefeito de Mossoró Cel. Rodolfo Fernandes ante a sua negativa ao pedido de 400 contos de réis – 13.06.1927. Esse bilhete foi doado ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte pela família do Prefeito”.

Rodolpho Fernandes respondeu, encerrando as tratativas:

“Virgulino Lampião, Recebi o seu bilhete e respondo-lhe dizendo que não tenho a importância que pede e nem também o comércio. O Banco está fechado, tendo os funcionários se retirado daqui. Estamos dispostos a acarretar com tudo que o Sr. queira fazer contra nós. A cidade acha-se, firmemente, inabalável na sua defesa, confiando na mesma. a.Rodolfo Fernandes. Prefeito. 13.06.1927”.

Entretanto, o bilhete escrito por Lampião encontra-se desaparecido. Há, no Instituto, uma cópia emoldurada e pregada na parede do salão principal, mas ninguém sabe dizer onde se encontra o original.

Recentemente alguns pesquisadores e instituições começaram a se movimentar para pedir esclarecimentos oficiais ao Instituto Histórico e Geográfico acerca do documento desaparecido.

Não é para menos, dada a importância do documento.

Espera-se, por conseguinte, uma apuração rigorosa, assim como uma resposta razoável acerca do que ocorreu com o famoso bilhete do próprio punho de Lampião para o então prefeito de Mossoró, Rodolpho Fernandes.

Resposta que servirá tanto para a Justiça, quanto para a História.

Florença é uma prece
Atualizado: 16:23:50 06/11/2021
Diogenes da Cunha Lima 
[ Escritor, advogado e presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANL) ]

Quando Câmara Cascudo deu-me um exemplar de seu “Dante Alighieri e Tradição Popular no Brasil”, fez uma observação singular: “Eu já estou muito velho para voltar a visitar Florença. Você vá à Basílica Santa Maria Novella, local em que Dante costumava rezar, ajoelhe-se e faça uma prece. Não por ele, que não precisa, mas por mim, que sou pecador profissional”.         

Muitos anos depois, em férias prolongadas, passei cem dias na bela capital da Toscana. E cumpri a ordem do meu mestre. Rezei em cada uma das capelas, admirando a beleza dos afrescos e pensando na história.

Com tanta beleza criada pelos homens, tive certeza do perfeito relacionamento do humano com o divino. É impossível não haver essa relação.

Imaginei que Dante Alighieri (1265-1321) havia pedido a Deus, como recompensa por sua “Divina Comédia”, que concedesse à sua cidade o privilégio de receber e concentrar a maior parte dos gênios universais. Logo foi atendido.

Lá aportaram Cimabue, Giotto, Boccacio. A partir do século XV, a fluência foi ainda maior. Sede da chamada Renascença, a cidade teve Michelangelo, Donatello, Leonardo da Vinci, Boticelli, Rafael Sanzio, Maquiavel e tantos outros.

Surgiram palácios, igrejas, museus, praças, ruas artísticas, esculturas, também há, pela cidade, manifestação visual do amor dos enviados divinos. Vendo Florença, temos certeza de que a vida humana é muito curta, não dá tempo usufruir tanta beleza.

Cada dia foi uma surpresa. Encantam as obras de Frangelico no Museu de São Marcos, localizado em um Mosteiro. No andar superior, o conhecido e admirado “Anjo da Apresentação”. A Igreja de Santa Croce guarda todos os tesouros, o túmulo dos notáveis da Itália. Santos e santificados, entre os quais, o túmulo de Maquiavel.

O paraibano Pedro Américo (1843-1905) concluiu sua colossal obra “Independência ou Morte” em Florença. A famosa tela está no Museu do Ipiranga, em São Paulo, mas foi apresentada, pela primeira vez, na Academia de Belas Artes de Florença, em 8 de abril de 1888, com a presença de reis e príncipes. Depois de alguns anos, o pintor retornou a Florença, onde morreu.

O amor florentino é arraigado. Há séculos vige a disputa com Ravena pelos restos mortais do altíssimo poeta. O autor da estátua La Pietà, que está no Vaticano, escultor Michelangelo Buonarroti, não deixou por menos, acrescentou: “De Florença”.

Vivi uma cidade em flor, ou melhor, a flor das cidades.

A coragem para escrever
Atualizado: 12:11:21 30/10/2021
Lívio Oliveira
[Advogado público e escritor]

MUITAS VEZES me surpreendo com perguntas íntimas, que eu mesmo me faço. Uma delas é sobre eu ter me arvorado em escrever um bocado de palavras e continuar insistindo com essa prática até hoje. Já ultrapassei meio século de vida e ainda não descobri as razões de ter começado, lá atrás, com esse absurdo. O pior é não entender por qual motivo ainda escrevo e a ilusão de que sou lido por alguém além de mim.

NÃO IGNORO ser essa atitude de um extremo atrevimento. Escrever não é fácil, exige coragem e se requer alguma competência. Eu nem sei se sou um sujeito intimorato e competente, vou é correndo riscos. Escrever é assim...correr riscos e rabiscos, puxar pela memória e pela pena. Em algum lugar eu já me disse: a pena mitiga a pena. Para deletar medos e para não (se) apagar. E dói, enquanto fantasmas não são expulsos pelos toques das falanges distais feridas.

FOLHAS EM BRANCO ou uma tela do computador, ambas confundem a visão, obnubilam verdades na mira e a gente segue se enganando para viver melhor. Viver é a regra, antes de se colocar para fora as vísceras e as ideias mal engendradas. Nem sempre sigo a máxima “primum vivere, deinde philosophari.”, o que seria uma visão razoavelmente lógica acerca da existência. Preciso pensar algo para colocar no horizonte vital do papel. É o que me pede a alma, essa alma antiga que guardo em mim.

TENHO PERGUNTADO repetidamente sobre as razões. E há uma pista, a de que existe uma convicção – nem sempre identificada – em cada um dos que levam a vida a produzir palavras: a da construção de mundos à parte. Talvez seja a razão maior, comum a todos os que se valem das tintas, a de se crer na possibilidade do refazimento do mundo, para que um mundo ideal tome lugar, mesmo com os defeitos e as idiossincrasias do ousado criador. Ideal ou idealizado, nem sempre um mundo melhor, frise-se.

UMA CERTEZA é a de que – mesmo com essa tentativa de recriação ou de representação do mundo – aquele que escreve, que inscreve essas novas possibilidades, está sempre cercado de incertezas, inseguranças, medos mesmo. A coragem para escrever pode ser mais uma elaboração mental, algo impossível, inalcançável, inexplicável. Mesmo assim, as palavras vão se derramando e já não haverá mais tempo e nem disposição de corrigi-las, permitindo-se, então, a outrem, conclusões e intrusões que poderiam ter sido evitadas muito antes do lápis correr sobre a folha pálida.

VOLTO À INDAGAÇÃO primeira e sempre fico sem qualquer laivo de resposta. Por que escrevo? Por que me aventuro nessa selva, sem chegar jamais a um paraíso que me acomode e que me traga a paz de não mais precisar das palavras? Mário Quintana, evidentemente inspirado em Dante, trouxe-nos uma possível resposta a essa indagação absurda (na verdade, outra pergunta que se assoma) num poema intitulado “selva selvaggia”: “Que importa/que importa qual seja enfim o seu verdadeiro universo?/Ele em breve será inteiramente devorado pelas palavras!”

NO FINAL DAS CONTAS, chego à conclusão de que não há mais o que fazer, restam pouquíssimas as possibilidades quando alguém se emaranha no universo enlouquecido das palavras. É como no filme “Os Pássaros”, de Hitchcock. Elas vêm em voo desabalado e bicam, até que as mãos sangrem e derramem ideias, mesmo que incompletas e fraturadas, nas páginas que sofrem com a nova cor e o novo grito da palavra escrita e (re)inaugurada.
O preço da glória
Atualizado: 12:10:24 30/10/2021
Cláudio Emerenciano [Professor da UFRN]

A maior cegueira despoja o homem da sensibilidade, do atributo e da inesgotável capacidade para identificar a substância real do mundo e da vida. Submete a condição humana ao império do efêmero, do supérfluo, do superficial e do aparente. Atrela o viver ao ritmo das coisas inúteis, perecíveis, ocasionais e sem sentido. Tal qual o “cântico de sereias”, que iludiu Ulisses na “Odisseia” de Homero. Envolve o ser humano numa espiral contínua e sem fim de falsidades, mentiras e embustes. A percepção do real, do justo e do verdadeiro se perde. Sucumbe aos anti-valores da cobiça, do ódio, da violência, da inveja, da intriga, da morbidez e da maldade.   

O homem não pode ser servidor ou instrumento de mediocridade, mesquinharia, ganância, misérias, injustiças e motivações estritamente materiais. Essa é a consequência de sistemas políticos e econômicos incompatíveis com a ascensão espiritual, moral e cultural de cada homem. Há uma ética e uma moral universais, atemporais e transcendentais. Sempre em expansão e ascensão, apesar desse estigma de maldades que se alastram pelo mundo. Contemple-se o aprimoramento do homem em todos os aspectos desde a Idade da Pedra. Esse é o transcurso por toda a vertente dos tempos, sem cessar, ensejando-lhe crescente conhecimento de si mesmo e a identificação do seu lugar no universo. Ninguém fundamenta a visão de eternidade em atos e coisas que perpetuam a iniquidade e a desumanidade. A condição humana é também contraditória, frágil, trôpega, vacilante e insegura. E daí? A sua grandeza reside em cada pensamento e ação que a enobrecem. Em cada manifestação individual de solidariedade, de irmandade, de harmonia, de retidão, de paz, de justiça e de partilha de uns com os outros. Cada vez que se descortina no outro um habitat do próprio Deus e uma morada renovável de sentimentos, amplia-se a grandeza individual; então as contradições se exaurem e se apagam. Divisamos, mesmo ao longe, a paz ilimitada. Crescemos enfim. Porque essa é destinação da humanidade: ascender...

A consciência do sentido das coisas emerge do solitário ato de pensar, da escolha do rumo certo e da opção irrevogável pelo bem. A noção do bem emerge de Deus para o homem e volta para Deus pela prática do bem pelo homem. Nenhuma sociedade, nenhuma nação e nenhum povo sobrevivem indefinidamente, assumem seu lugar na História, sem buscar e praticar o bem. O sentido confere aos homens a substância do que é universal, transcendental e eterno. O vazio e a inutilidade nos cercam em todo o mundo. Decorrem da falta de densidade nas relações entre pessoas e nações. De algum tempo para cá, perde-se visão do que é simples, óbvio, natural e legítimo. Infelizmente há desconstrução de valores, crenças, ideais, sonhos e esperanças. Tudo quanto, em âmbito intemporal, nutriu e renovou utopias. A ação política, numa dimensão local, regional, nacional e internacional, destitui-se de grandeza. Perde substância. Deforma-se, avilta-se e se enxovalha. Substituíram o senso de dignidade e correção por um jogo entre “espertos”. Essa esperteza é objeto de exaltações, aplausos, estímulos e vivas. Em mesma insanidade com a qual romanos festejavam a matança dos mártires cristãos pelas feras no Circo Máximo. Ou as abjetas e infames demonstrações de histeria nos regimes autoritários do mundo inteiro. Ontem e hoje. Não bastaram as alucinações de milhares e milhares de alemães no “circo” de Nuremberg, onde Hitler incorporou no século XX a teatralidade e as mistificações de Nero, Calígula e Heliogábalo na Roma Antiga. Recentemente Hugo Chávez e Maduro iludiram os venezuelanos com a velha fórmula: “pão e circo”, demagogia, corrupção e tirania. Antevisão de Graham Greene em “Os Farsantes”.

Impõe-se entender que a corrupção na gestão pública é instrumento deliberado de erosão das instituições democráticas e representativas. A impunidade e a lentidão de Poder Judiciário em sentenciar os culpados alimentam e ampliam a crise de legitimidade institucional. É o caso do Brasil. A vertiginosa e incontrolável decomposição moral em quadros políticos estimula a desfaçatez, a hipocrisia, a leviandade, a felonia, a mentira, o cinismo, a intolerância e a prepotência. Absurdo dos absurdos: a ruína moral da nação também por atos ilegais, fanáticos e impatrióticos.   

O Cristo, em conversa com a samaritana, disse possuir a “Água Viva”, infinita, que dirime as sedes do mundo. Exortou a humanidade a desfrutar da verdadeira felicidade, exorcizando o que a impede de amar e ser feliz. Infundiu-lhe paz de espírito. Separou o joio do trigo. O preço da verdadeira glória, individual e coletiva, é a incessante busca da verdade e do bem. Vivemos tempos de crise. Tudo no mundo é atingido por uma erosão planetária de valores. Perdemos a fé? Crença em ideais? Compromisso irrestrito com a dignidade do ser humano? Não somente em termos materiais, visíveis e objetivos. Mas o direito de cada um pensar, querer, optar e sonhar. Respeito à individualidade. François Mauriac (Nobel da literatura), prefaciando “O Poder e a Glória” de Graham Greene, disse que o livro se dirigia “providencialmente à geração que um mundo louco sufoca”. Obra visionária. O autor era católico. Aborda tema traumático, também suscitado por outros escritores católicos: Somerset Maugham e Morris West. Há crise de fé em sacerdotes da Igreja Católica? Mas essa crise é de  católicos em todo mundo. Pois a Igreja é Universal, Santa e Pecadora. Cabe a cada um se reencontrar com o sentido e a dimensão da vida cristã. Amar e imitar o Cristo...